Por Juliana Benvenuto, Coordenadora de Treinamento e Conteúdo da Avenue
07 nov 2025
Em 2023, tive a oportunidade de estar presencialmente na reunião anual da Berkshire Hathaway, em Omaha, Nebraska, e ver de perto o que, para muitos, é quase um ritual. Foram mais de quarenta mil pessoas reunidas em um ginásio para ouvir dois senhores de mais de noventa anos falarem sobre investimentos, negócios e comportamento humano. Warren Buffett e Charlie Munger (que não está mais entre nós) subiram ao palco, como faziam há décadas, e passaram mais de seis horas respondendo perguntas de acionistas e curiosos de todas as partes do mundo. O evento tem a grandiosidade de uma conferência internacional, mas o tom de uma conversa entre amigos. E talvez esse seja um dos grandes segredos do sucesso de Buffett: a capacidade de traduzir ideias complexas em verdades simples, que resistem ao tempo e seguem inspirando gerações de investidores.
O que mais me impressionou naquele dia foi perceber o quanto, mesmo com o avanço da tecnologia, com o surgimento das fintechs, das redes sociais e dos algoritmos de alta frequência, os fundamentos que Buffett ensina continuam os mesmos. O mercado pode mudar, os ciclos econômicos podem se inverter, mas o comportamento humano permanece. E é sobre esse comportamento que ele construiu sua filosofia. Buffett costuma dizer que o maior inimigo do investidor é ele mesmo. Que o sucesso nos investimentos não tem a ver com QI, mas com a capacidade de controlar os impulsos que levam as pessoas a cometer erros. É uma lição sobre racionalidade, e talvez a mais importante de todas. Em um ambiente que vive de emoção, onde o medo e a ganância se alternam com a mesma velocidade das manchetes, ser racional é um ato quase contracultural.
Durante a reunião, ele repetiu algo que já virou um dos seus mantras: seja cauteloso quando os outros estão eufóricos e confiante quando os outros estão com medo. É uma frase simples, mas que resume toda a lógica do value investing. A irracionalidade do mercado é o terreno fértil onde nascem as melhores oportunidades. O problema é que poucos conseguem agir de forma racional quando a maioria está em pânico. O comportamento coletivo puxa, contagia e confunde. E é justamente aí que entra o que Buffett chama de temperamento: a capacidade de manter a calma, pensar com clareza e não deixar que a emoção substitua o raciocínio. Essa talvez seja a maior diferença entre investir e especular. Um investidor de verdade não precisa acertar o topo nem o fundo, mas precisa saber permanecer.
Esse senso de permanência está no centro da filosofia dele. Buffett costuma dizer que o mercado de ações é um dispositivo para transferir dinheiro dos impacientes para os pacientes. E a paciência, que soa tão óbvia na teoria, é uma das virtudes mais difíceis de sustentar na prática. No mundo atual, onde a velocidade é celebrada e a pressa é quase um valor social, esperar parece uma fraqueza. Mas, para Buffett, é exatamente o oposto. O tempo é o aliado mais poderoso do investidor. Segundo dados da CNBC, desde 1965, a Berkshire Hathaway entregou um retorno médio anual superior a 19%, mais que o dobro do S&P 500 no mesmo período. Não há mágica nesse número, há consistência. Ele investe em empresas sólidas, bem geridas e com modelos de negócio compreensíveis. E, a partir daí, deixa o tempo fazer o trabalho. Quando alguém perguntou qual seria o período ideal para manter uma ação, ele respondeu que o seu período favorito é para sempre.
O curioso é que essa simplicidade, que parece tão óbvia quando ele fala, é o que mais falta ao mercado moderno. Buffett sempre evitou a tentação de complicar o que é simples. Ele nunca se deixou seduzir por modelos sofisticados demais, por métricas de curto prazo ou por histórias que prometem retornos rápidos. Ele continua fiel à ideia de que investir é comprar uma parte de um negócio real, e que o lucro vem do desempenho desse negócio, não do humor do mercado. Essa clareza é o que o mantém estável em meio à volatilidade. E talvez seja por isso que tanta gente, mesmo sem investir em suas empresas, o escuta como se fosse um professor de vida.
Outro traço marcante dele é a humildade intelectual. Charlie Munger dizia que o conhecimento se acumula como juros compostos, e Buffett repete essa frase como quem assina embaixo. Ele lê de cinco a seis horas por dia, estuda balanços, relatórios e livros com a mesma curiosidade de quando começou. O aprendizado constante é parte do seu processo, mas também da sua identidade. Aos 93 anos, ele continua dizendo que o mundo muda, e que o maior risco é achar que já se sabe o suficiente. É uma mentalidade que transcende o mercado. Aprender todos os dias, manter a curiosidade viva e reconhecer o que não se sabe são atitudes que servem para qualquer profissão, mas no mercado financeiro, onde a autoconfiança excessiva costuma ser um atalho para erros caros, isso vale ouro.
Mas talvez a lição mais profunda de Buffett não esteja nem na racionalidade, nem na paciência, e sim na integridade. Ele costuma dizer que leva vinte anos para construir uma reputação e apenas cinco minutos para destruí-la. Se você pensar nisso, vai fazer as coisas de maneira diferente. Essa frase, que ele já repetiu em diversas cartas e entrevistas, é mais do que um alerta moral. É um princípio de vida. Buffett sempre se cercou de pessoas em quem confia, evita negócios que não entende e se recusa a fazer parcerias que exijam sacrificar valores em nome do lucro. Para ele, o retorno financeiro sem ética é um fracasso disfarçado de sucesso. Essa coerência entre discurso e prática é o que sustenta seu legado e o transforma em uma referência que vai muito além dos números.
Enquanto eu o ouvia falar em Omaha, percebi que o que mais o torna inspirador é justamente o contraste entre a grandeza do que construiu e a simplicidade com que vive. Ele ainda mora na mesma casa há mais de sessenta anos, dirige o próprio carro e começa o dia tomando Coca-Cola. Há uma naturalidade em tudo o que faz, uma leveza que contrasta com o peso do título de maior investidor do mundo. Talvez porque, no fundo, ele nunca tenha feito do dinheiro o seu propósito, mas sim o resultado de um trabalho bem-feito, de escolhas coerentes e de um olhar paciente sobre o tempo.
Essas lições, que parecem tão atemporais, continuam relevantes porque tratam de algo que não muda: o comportamento humano diante do risco, da incerteza e da ganância. Elas valem para o investidor individual, para o gestor profissional e, de certa forma, para qualquer pessoa que precise tomar decisões sob pressão. Ser racional quando todos estão emocionais, ser paciente quando todos estão apressados e ser íntegro quando ninguém está olhando são virtudes raras, mas decisivas.
Estar em Omaha foi um privilégio, mas as lições que trago de lá não se limitam àquele ginásio lotado. Elas me acompanham desde então e se reforçam a cada novo ciclo de mercado. Porque o mundo muda, as tecnologias mudam, os juros mudam, mas algumas verdades permanecem. E talvez essa seja a maior herança de Warren Buffett: mostrar que investir bem é, antes de tudo, um exercício de coerência entre o que se acredita e o que se faz, entre o tempo que se tem e o futuro que se quer construir.
Referências:
Warren Buffett’s return tally after 60 years: 5,502,284%BERKSHIRE HATHAWAY INC.
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