Por Jean Dalla, Consultor da Dolarame, e Marcus Nunes, Criador de Conteúdo da Dolarame
19 nov 2025
O termo “bolha” no mercado foi criado na Inglaterra, em 1720, quando uma empresa inglesa subiu de forma desproporcional e muitos investidores passaram a considerar o preço da ação excessivo em relação ao que a companhia deveria valer sob uma ótica fundamentalista. Por causa disso, alguns investidores começaram a chamar a situação de “bolha”, e o termo se popularizou em jornais locais como metáfora de uma bolha de sabão – que se infla rapidamente e depois estoura -, um exemplo adequado para preços de ativos que sobem rapidamente e em seguida colapsam.
Já tivemos algumas bolhas no mercado, como: Bolha das Tulipas (1637), quando o preço de tulipas holandesas chegou a equivaler ao de uma casa antes de desabar; Bolha da South Sea (1720), com euforia no comércio marítimo inglês; Bolha da internet (1999–2000), quando empresas de internet sem lucro passaram a valer bilhões; Bolha Imobiliária (2008), em que os preços de imóveis nos EUA foram inflados por crédito fácil e especulação; e a Bolha das Criptomoedas e NFTs (2017 e 2021), com valorização extrema de tokens sem funcionalidade e colapso posterior.
Essas bolhas trouxeram lições importantes para os investidores, especialmente quanto à necessidade de uma análise detalhada e cautelosa do ativo e do momento de mercado. Toda aquisição deve ser precedida de avaliação histórica, entendimento de riscos, adequação ao perfil e diversificação da carteira. Nesse contexto, também é relevante identificar como uma bolha se forma. As bolhas no mercado costumam seguir cinco fases, sendo elas:
1 – Disrupção – Surge uma nova tecnologia ou oportunidade em um mercado específico;
2 – Boom – Os ativos começam a se valorizar rapidamente e muitos investidores passam a comprar (efeito manada);
3 – Euforia – A valorização deixa de ser sustentada pelos fundamentos do ativo e passa a ser ancorada pelo otimismo;
4 – Realização – Os investidores mais experientes realizam lucros dos ativos, geram pequenas quedas e criam dúvidas, ainda com esperança de retomada de preços;
5 – Pânico – A confiança desaparece rapidamente e os preços inflados começam a cair, trazendo à tona a realidade.
Agora que entendemos o que é uma bolha e suas fases, vamos identificar se a inteligência artificial (IA) apresenta características de uma bolha.
A grande diferença da IA para outras tecnologias é que a sua evolução se dá de forma potencialmente exponencial, em uma forma pouco vista na história. Como se observa abaixo, no gráfico 1, a curva de aprendizagem das máquinas tem aumentado rapidamente. A grande questão, do ponto de vista econômico e corporativo, é: isso se traduzirá, de maneira sustentável, em mais produtividade para as empresas?
Nunca nenhuma outra tecnologia conseguiu uma adoção tão rápida, em número de usuários, como a inteligência artificial. Embora já existam projetos de IA desde 1956, os investimentos no setor ficaram congelados por décadas, aguardando que o poder computacional atingisse o patamar que uma IA demandaria para, de fato, mudar a vida das pessoas. Esse ponto de inflexão ocorreu inicialmente em 2022, com o ChatGPT. Além disso, nenhuma outra aplicação chegou aos 100 milhões de usuários (gráfico 2) tão rapidamente quanto ele, que hoje já faz parte da rotina de muitas pessoas e empresas.

Na economia, segundo o JP Morgan, os avanços em IA podem acrescentar, em média, US$ 1,9 trilhão ao PIB americano até 2050; isso representaria um crescimento de 6,5% ao ano, número comparado em relatórios ao impacto da internet em seus primeiros anos, cerca de três vezes superior. Tais projeções, entretanto, são apenas estimativas e não configuram qualquer garantia de desempenho futuro.

É inegável que a IA veio para ficar, e o crescimento desta tecnologia apresenta características inéditas. Esse movimento pode ser observado em setores como logística, onde empresas utilizam robôs para transporte de produtos e controle de estoques; na defesa, com governos aplicando IA em estratégias militares, como drones controlados integralmente por algoritmos; e na saúde, em que sistemas de IA auxiliam pesquisas de novos medicamentos e diagnósticos de doenças. O crescimento pode ser ainda maior do que o previsto, mas envolve custos e limitações, como em infraestrutura e energia, que não podem ser ignorados.
Que a IA veio para permanecer e transformar diferentes áreas é um consenso no mercado. Investidores que se expuseram a esse setor nos últimos anos tiveram retornos expressivos, mas hoje os múltiplos das empresas podem não ser tão favoráveis quanto em períodos anteriores. Isso não significa necessariamente que essas companhias estejam caras nem que exista uma bolha, mas indica que parte das expectativas de crescimento já está refletida nos preços. A seguir, alguns múltiplos de empresas relevantes do setor:
Observando essas empresas, é possível perceber que as companhias mais consolidadas, como Nvidia e Google, negociam a múltiplos próximos de suas médias históricas, alinhadas às expectativas de ganhos futuros. Já em empresas menores, como Palantir e outras específicas, há múltiplos mais elevados e exige maior cautela no mercado.
Para o investidor, a avaliação deve ser realizada de forma individual e, quando necessário, com o acompanhamento de um profissional qualificado. Essa análise deve considerar o crescimento de receita, as margens de rentabilidade, a necessidade de capital, além dos riscos regulatórios e competitivos de cada empresa. Outra opção é a utilização de fundos negociados em bolsa (ETFs), com os principais ligados à inteligência artificial negociando atualmente a cerca de 24 vezes o lucro, valor aproximadamente 30% acima da média histórica. Esse nível reflete a expectativa positiva do mercado em relação ao setor, mas não elimina os riscos de concentração, variação de preços e volatilidade inerentes a esse tipo de investimento.
Em relação aos múltiplos, o investidor Michael Burry, conhecido por antecipar a crise imobiliária de 2008, demonstrou recentemente preocupação com o comportamento do mercado de tecnologia, em especial nos segmentos de IA e data centers. Segundo ele, há indícios de que o mercado pode estar repetindo padrões de otimismo excessivo observados no passado. Enquanto alguns investidores e instituições financeiras compartilham dessa visão, outros, como Morgan Stanley e Goldman Sachs, avaliam que o mercado pode estar apenas em um nível elevado de precificação e que, no máximo, enfrentaria uma correção de preços de 10% a 20% no curto prazo.
Diferentemente da bolha das empresas de internet nos anos 2000, o risco atual não está na ausência de lucros ou de modelos de negócio, mas na precificação possivelmente exagerada dos retornos. As grandes empresas de IA, como Nvidia, Microsoft e Amazon, têm apresentado resultados sólidos, enquanto outras, como Meta e OpenAI, operam com lucros menores ou prejuízos em determinadas divisões. Mesmo assim, os múltiplos refletem a confiança do mercado de que o crescimento do setor será contínuo, desconsiderando a natureza cíclica da maioria das empresas.
O que se observa atualmente talvez não seja uma bolha sem fundamentos, mas um crescimento consistente sustentado por lucros reais das principais companhias de IA. O maior risco está em confiar excessivamente na continuidade desse ritmo de crescimento e de ganhos, o que pode gerar dúvidas futuras sobre quais negócios serão mais estáveis. E o que explica essa euforia no mercado?
Por trás da confiança no setor de IA, está a corrida pela expansão da infraestrutura. A base de qualquer setor é a cadeia de suprimentos e a estrutura física, e isso também se aplica à tecnologia.
Com o crescimento acelerado da IA, aumentou a demanda por chips de alto desempenho, data centers, energia e sistemas de refrigeração. O desenvolvimento de plataformas de IA depende fortemente de componentes eletrônicos específicos, incluindo elementos químicos raros, o que cria uma maior dependência de fornecedores externos. Para fabricar seus chips, por exemplo, a Nvidia depende de wafers produzidos pela TSMC em Taiwan. Após a fabricação, os chips são vendidos a grandes companhias de tecnologia.
O fator mais crítico, contudo, é o alto consumo de energia dessas estruturas. O CEO da Microsoft afirmou recentemente que a empresa possui chips em estoque, mas sem uma capacidade de energia suficiente para operá-los. Essa situação mostra a dificuldade do setor em atender à alta demanda energética, o que pode elevar o custo da eletricidade para consumidores e empresas. Até o momento, o mercado ainda não precificou plenamente esses efeitos de longo prazo. O entusiasmo, somado à rápida expansão do setor nos últimos anos, pode encontrar limitações reais relacionados ao custo de energia e à disponibilidade de componentes no curto prazo.
Afinal, a inteligência artificial é uma bolha? A resposta ainda é incerta, pois bolhas e crises não são totalmente previsíveis. Entretanto, os indicadores atuais estão em linha com momentos de valorização baseados em resultados reais. Um exemplo é o Google: no terceiro trimestre de 2025, a empresa registrou a sua maior receita trimestral da história, alcançando US$ 102,35 bilhões.
Agora, uma comparação ilustrativa é entre as cotações e os lucros da Cisco, na bolha da internet, e da Nvidia, no atual mercado de IA. Em 2000, havia uma grande diferença entre o preço e o lucro da Cisco, principal empresa daquela euforia. Hoje, as cotações da Nvidia, uma das maiores companhias do mundo em valor de mercado, seguem o crescimento de seus lucros. Essa relação indica que o entusiasmo atual é sustentado, em grande parte, por resultados concretos.

Essa comparação mostra que não há uma correlação direta entre altas de cotações e a formação de uma bolha, já que há lucros efetivos sustentando o movimento. Ainda assim, há um otimismo elevado com as novas tecnologias de IA. Em outras palavras, o mercado vive uma possível “bolha de lucros”, sustentada por ganhos reais e não por expectativas sem base, ao menos entre as grandes empresas que têm apresentado resultados consistentes nos últimos trimestres. Já as pequenas empresas, incluindo startups, podem apresentar resultados mais baixos e gerar maior incerteza no mercado, como no caso da OpenAI, cuja receita estimada entre US$ 13 bilhões e US$ 20 bilhões em 2025 ainda é inferior aos compromissos assumidos com parceiros para investimentos em infraestrutura de IA, que somam cerca de US$1,4 trilhão.
No fim, o mercado financeiro é imprevisível, e distorções podem surgir quando os investidores acreditam ter encontrado uma explicação simples para períodos de alta ou de baixa. A inteligência artificial pode representar a próxima grande revolução tecnológica e de produtividade, mas fatores como o elevado consumo de energia e o custo de infraestrutura ainda são desafios relevantes para as empresas do setor. Enquanto as principais empresas continuarem apresentando resultados sólidos, como Google, Microsoft e Nvidia, não há sinais claros de uma bolha, mas sim de um mercado valorizado que pode passar por correções no curto a médio prazo.
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