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IA x Bolha das .com: ecos do passado, diferenças do presente

Por Martin Iglesias, responsável pela Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco

08 dez 2025

Não é difícil entender por que tanta gente olha para a ascensão das ações ligadas à inteligência artificial e enxerga as sombras da bolha das “.com”. A combinação de tecnologia revolucionária, narrativas sedutoras e valorização acelerada desperta comparações inevitáveis com o final dos anos 1990. E, como em todo grande ciclo de inovação, sempre há algum excesso. A história raramente se repete, mas costuma rimar.

Ainda assim, quando observamos com um pouco mais de calma, percebemos que o cenário atual apresenta características bem diferentes daquele que inflou e estourou a bolha da internet entre 2000 e 2001. Não se trata de negar riscos, que são reais, mas de separar ruído de estrutura para entender o contexto em que os preços se movem.

Martin Iglesias

Responsável pela Recomendação de investimentos do Itaú Unibanco

1. Os protagonistas mudaram, e muito

A bolha das .com foi construída majoritariamente por empresas pequenas, recém-criadas, muitas delas sem produto definido e com modelos de negócio que sequer existiam. Bastava acrescentar “.com” ao nome para acessar capital.

Hoje, quem lidera a corrida da inteligência artificial são as maiores e mais lucrativas empresas do planeta. Falamos de companhias que já possuem décadas de operação, bilhões de dólares em caixa, capacidade global de distribuição e pipelines reais de inovação.

Na bolha das .com, o mercado apostava em promessas. Na IA, o mercado está precificando empresas que já entregam resultados concretos e utilizam a inteligência artificial para reforçar posições dominantes.

2. Desta vez há receita, há lucro e há escala

Outro ponto que diferencia 2024 e 2025 dos anos 1999 e 2000 é o fato de que, hoje, os líderes do movimento possuem receitas robustas, margens saudáveis e geração de caixa consistente.

No auge da bolha da internet, boa parte das empresas ainda não faturava nada, e muitas que faturavam não sabiam como transformar esse faturamento em lucro. O capital barato sustentava modelos que dependiam de queimar caixa para crescer, e que ruíram quando os juros subiram.

Agora, não falamos de experimentos. Falamos de empresas com modelos comprovados, infraestrutura instalada e capacidade de monetizar a inteligência artificial imediatamente, seja em nuvem, semicondutores, serviços corporativos, anúncios, produtividade ou ecossistemas fechados.

Isso não elimina riscos, mas altera profundamente o ponto de partida.

3. O pano de fundo macroeconômico é distinto

A bolha das .com explodiu justamente quando o Federal Reserve iniciou um ciclo agressivo de alta de juros, apertando liquidez e colocando fim às empresas que dependiam de capital abundante.

No ciclo atual, a trajetória é inversa. O mundo olha para juros mais baixos à frente, com o Federal Reserve sinalizando flexibilização gradual conforme a inflação converge.

Esse ponto é crucial porque os valuations de tecnologia são muito sensíveis a juros. Juros em queda costumam dar suporte aos preços, ao menos no curto prazo. Mas, como sempre, ciclos mudam, e é exatamente aqui que entra a prudência.

4. A tecnologia é real e já está sendo utilizada

Outra diferença relevante é que a inteligência artificial já está em uso. Empresas de diversos setores aumentam produtividade, automatizam processos, criam novos fluxos de receita e reduzem custos com ferramentas que existem hoje, não com protótipos.

Na bolha das .com, parte da euforia nasceu de um futuro que levaria dez ou quinze anos para se materializar.

Na inteligência artificial, muitas aplicações já são visíveis, mensuráveis e escaláveis.

Isso não significa que todos os modelos de negócio sobreviverão. Inovações transformadoras sempre trazem vencedores e perdedores.

5. Ainda assim, a história recomenda humildade

Por mais sólidas que sejam as diferenças, é impossível afirmar que não existem exageros. Toda grande revolução tecnológica gera algum grau de excesso, empresas superestimadas, expectativas irreais e fluxos de capital que nem sempre fazem sentido. Em algum momento, a exuberância encontra a realidade.

E uma correção, quando ocorre, costuma ser saudável. O mercado não precisa de quedas drásticas, mas precisa ocasionalmente recalibrar expectativas, e eventuais quedas permitem ao mercado retomar seu folego.

A questão não é saber se haverá movimentações negativas. Correções fazem parte do processo. O ponto relevante é entender quais empresas têm fundamentos para atravessar esse período sem destruir valor.

6. Conclusão: ecos e diferenças

Existe, sim, um paralelo óbvio entre a empolgação atual e a euforia das “.com”. Mas há diferenças estruturais importantes.

Hoje as líderes são gigantes consolidadas. Há receitas, lucros e caixa. A tecnologia já funciona e já gera eficiência. O pano de fundo de juros é, por enquanto, mais benigno.

Nada disso garante que não haverá volatilidade, exageros ou correções. Também não invalida riscos. Significa apenas que a comparação com as “.com” é útil como referência histórica, não como sentença antecipada.

Para o investidor, talvez esse seja o ponto central: aprender com o passado, observar o presente com atenção e manter humildade diante do futuro.

Martín Iglesias

Especialista líder de recomendação de investimentos do Itaú Unibanco

Tem trinta anos de mercado, é responsável pela Recomendação de investimentos do Itaú Unibanco e membro da rede ANBIMA de Educação para Investidores. Pós-graduado em Finanças e Banking EAESP/FGV, Mestre em Economia pela EESP/FGV, onde leciona há vinte anos nos cursos de pós-graduação. É especialista em investimentos e finanças comportamentais. É autor dos livros “Investimentos: um livro de segredos e conselhos” e “4 dimensões de uma vida em equilíbrio”, “Investimentos: textos para nunca mais esquecer”, “Finanças Comportamentais e Arquitetura de Escolhas” e “Viajando nos Investimentos”. É colunista do íon e conteudista do Podcast Itaú Inversiones Colômbia.

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