Por Martin Iglesias, responsável pela Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco
Quando os preços sobem, cada família tenta reorganizar o orçamento: adia uma compra, troca uma marca ou muda o cardápio. Para medir essa inflação, porém, é preciso escolher uma cesta de produtos e decidir como ela será atualizada. Nos Estados Unidos, dois indicadores fazem esse trabalho de maneiras diferentes: o CPI e o PCE.
O CPI, calculado pelo Bureau of Labor Statistics, acompanha os preços de uma cesta baseada nos gastos das famílias. Seus pesos permanecem relativamente fixos entre as atualizações. O PCE, produzido pelo Bureau of Economic Analysis, cobre um conjunto mais amplo de despesas – inclusive algumas pagas por empregadores ou pelo governo em nome das famílias – e atualiza seus pesos com mais frequência. Sua fórmula, conhecida como Fisher encadeada, incorpora mudanças nos padrões de consumo.
Pense na carne bovina e no frango. Se a carne fica muito mais cara, algumas famílias passam a comprar mais frango. Um índice com pesos mais rígidos demora mais para refletir essa troca; o PCE consegue incorporá-la com maior rapidez. Isso não significa que o PCE registre perfeitamente cada decisão de cada consumidor. Significa que sua fórmula acompanha melhor as mudanças no conjunto das despesas.
Há outra diferença importante: moradia pesa bem mais no CPI do que no PCE. O CPI atribui um peso elevado aos custos de moradia. Por isso, mudanças nesses custos podem influenciar mais o CPI e contribuir de forma relevante para a diferença entre os índices. A dimensão exata dessa divergência varia ao longo do tempo, mas a diferença de peso da moradia é uma explicação importante.
Então por que o Federal Reserve prefere o PCE? Em parte, porque ele cobre mais despesas e acompanha melhor as mudanças no que as famílias consomem. Além disso, a composição da cesta do PCE é mais flexível. O Fed não ignora o CPI: acompanha diversos indicadores para entender a inflação. Mas sua meta de longo prazo de 2% é definida em termos da inflação medida pelo PCE cheio. O núcleo do PCE, que exclui alimentos e energia, ajuda a avaliar a tendência subjacente, já que esses preços costumam oscilar bastante.
Nenhum índice conta toda a história. O CPI pode se aproximar mais da sensação de quem paga diretamente o aluguel ou vai ao supermercado; o PCE oferece uma visão mais ampla dos gastos e se adapta às substituições. E nenhum deles garante, por sua fórmula, que a inflação medida será sempre maior ou menor: os pesos, a cobertura e a evolução dos preços também contam.
A carne bovina não tem assento nas reuniões do Fed, e o frango tampouco. Mas a troca entre os dois ajuda a explicar por que o banco central acompanha um índice que muda junto com os hábitos de consumo.
Referências
BOARD OF GOVERNORS OF THE FEDERAL RESERVE SYSTEM. Why does the Federal Reserve aim for inflation of 2 percent over the longer run? Washington, D.C., 22 ago. 2025. Disponível em: https://www.federalreserve.gov/faqs/economy_14400.htm. Acesso em: 15 out. 2026.
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