Por Julliana Coelho, Analista de Gestão de Recursos na Avenue Securities
29 set 2025
Sou economista por formação e apaixonada por boas histórias — especialmente aquelas que o mercado financeiro protagoniza (ou esconde). Possuo as certificações Ancord, PQO, CPA-20 e ABT1, e há anos mergulho no universo dos investimentos, acompanhando de perto os movimentos do mercado internacional. Nesta coluna, o convite é simples: entender as entrelinhas, resgatar momentos marcantes da história econômica e, acima de tudo, aprender com eles. Porque tem coisa que o mercado não explica — mas eu sim
Em abril de 2020, o petróleo americano chegou a -US$37. Mas calma, você não leu errado. Vem entender como um contrato virou prejuízo (e não combustível).
Imagine chegar no posto e o frentista te pagar pra abastecer. Surreal, né?
Pois em 20 de abril de 2020, o mercado de petróleo viveu um episódio digno de roteiro alternativo da HBO: o barril do WTI (o petróleo americano) fechou o dia cotado a -US$37,63. Sim, negativo. Um número que parecia erro de digitação virou manchete global — e pesadelo pra muita gente.
Começa com um contrato.
Tudo começa com um contrato futuro. No mercado financeiro, você pode negociar o petróleo de amanhã, hoje. Funciona mais ou menos assim:
“Vou comprar 1.000 barris de petróleo pra entrega em maio. Não vou usar, só especular. Se subir, vendo. Se cair, paciência.”
Só que tem um detalhe importante: em algum momento, o contrato vira entrega física. E se você não vender a tempo, pode acabar responsável por receber barris reais. Literalmente.
Pandemia, excesso e… falta de lugar
Em abril de 2020, a pandemia tinha paralisado o mundo. Aviões no chão, fábricas paradas, carros nas garagens. A demanda por petróleo despencou. Resultado? Os estoques lotaram. Os tanques de armazenamento nos EUA (como os de Cushing, Oklahoma, onde o WTI é entregue) já estavam no talo.
E aí veio o problema: os contratos futuros de maio estavam vencendo. Quem tinha posição comprada precisava vender logo — ou estaria, tecnicamente, aceitando receber 1.000 barris sem ter onde guardar nem uma garrafinha.
O pânico bateu
Sem compradores dispostos a aceitar o produto, os investidores começaram a pagar para se livrar dos contratos. E foi aí que o preço despencou ladeira abaixo, até entrar no campo negativo.
Foi como se o mercado gritasse:
“Leva esse petróleo embora, e eu ainda te dou 30 dólares de presente!”
Esse episódio mostrou como o mercado futuro não é sobre barris reais — é sobre expectativas, prazos, contratos e logística.
E ensinou que um ativo pode virar passivo rapidinho quando a realidade bate à porta.
Também abriu discussões sobre transparência, educação financeira e até sobre como o mundo lida com commodities em tempos extremos.
E essa foi mais uma curiosidade que o mercado não explica — mas eu sim. Até o próximo Case.
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