O Fed manteve os juros entre 3,50% e 3,75% pela terceira vez em 2026, em linha com a expectativa do mercado.
Mais uma vez, o Fed reconheceu a incerteza com os desenvolvimentos no Irã e impactos em termos de preços de energia.
Em mais uma reunião, tivemos uma decisão não unânime nos juros, com um dirigente votando favoravelmente a um corte de juros. Houve ainda divergências sobre o comunicado apresentado.
Destaques
- O Fed manteve os juros entre 3,50% e 3,75% pela terceira vez em 2026, em linha com a expectativa do mercado.
- Essa ainda não foi uma decisão unânime, com 11 dirigentes votando a favor da manutenção de juros e 1 dirigente (Stephen Miran, indicado por Trump) votando a favor de um corte de 0,25p.p.
- Houve ainda dissidência maior no viés da comunicação que acompanha a decisão. Embora o trio Beth Hammack (Cleveland), Neel Kashkari (Minneapolis) e Lorie Logan (Dallas), tenham concordado com a decisão do Fed de manter as taxas na faixa-alvo de 3,50% a 3,75%, eles afirmaram que “não apoiavam a inclusão de um viés de flexibilização no comunicado neste momento”. Eles reforçam suas preocupações com inflação
- O comunicado que acompanha a decisão trouxe mudanças de comunicação, das quais destacamos:
- Emprego: o comunicado ressaltou que a criação de vagas de emprego permaneceu baixa, mas adicionando a palavra “em média”, mostrando uma mudança que considera que os dados do mercado de trabalho têm demonstrado elevada volatilidade
- Reconheceu que a inflação está agora “elevada” e não apenas “um tanto” — devido ao “recente aumento nos preços globais da energia”.
- Acrescenta: “Os desdobramentos no Oriente Médio estão contribuindo para um alto nível de incerteza em relação às perspectivas econômicas”.
Abaixo o gráfico que mostra a evolução da taxa básica referência de juros nos EUA:
Fonte: Bloomberg. Elaboração: Avenue Intelligence – 29/04/2026
Impacto
- Yields dos títulos de dívida dos EUA tiveram alta, em linha com o desempenho que já apresentavam no dia;
- O índice dólar (índice DXY) se valoriza levemente, e contra o Real sobe para R$ 5,01;
- As bolsas americanas reagiram de forma marginalmente negativa.
Aqui os destaques da entrevista com o presidente do Fed, Jerome Powell, e da decisão de juros:
- Transição de poder. Em sua última coletiva de imprensa como presidente do Federal Reserve, Jerome Powell parabenizou Kevin Warsh, indicado pelo presidente Donald Trump para sucedê-lo, após a aprovação da indicação na Comissão Bancária do Senado pela manhã. Powell revelou que teve uma conversa agradável com Warsh durante um jantar em janeiro, afirmando que não o viu desde então. “Este é, e continuará sendo, um processo de transição muito normal e padrão”, declarou. Em suas considerações finais, Powell enviou cumprimentos a Warsh e reafirmou sua confiança nos princípios fundamentais do Fed: “O Federal Reserve existe com um propósito fundamental: promover as condições econômicas nas quais as famílias e empresas americanas possam prosperar — preços estáveis, um mercado de trabalho forte e um sistema financeiro no qual possam confiar. Cada decisão que tomamos é tomada a serviço desse propósito.”
- Mais tempo no Fed? Apesar de sair do comando do Fed, Jerome Powell, afirmou que permanecerá no Conselho de Governadores por um período indefinido, enquanto prossegue uma investigação sobre a reforma da sede do banco central “Eu disse que não deixarei o Conselho até que esta investigação esteja, de fato e plenamente, concluída — com transparência e caráter definitivo — e mantenho essa posição. Sinto-me encorajado pelos desdobramentos recentes e estou acompanhando atentamente as etapas restantes deste processo”, disse Powell no início de sua coletiva de imprensa pós-reunião.
- Independência do Fed. Jerome Powell alertou que a independência do Federal Reserve está “em risco” diante de um período de intensos ataques jurídicos, acrescentando que o Fed tem sido obrigado a recorrer aos tribunais. Powell enfatizou que a independência do banco central não existe para proteger seus funcionários, mas sim para garantir que as decisões sejam tomadas com base em análises técnicas e econômicas, e não em interesses ou resultados políticos.
Leitura
A decisão do FOMC de manter a taxa de juros inalterada na faixa de 3,50%–3,75% pela terceira reunião consecutiva foi amplamente esperada, mas o resultado transformou o que seria um evento rotineiro em um dos mais divididos desde 1992: Um dissidente (Stephen Miran) votou por um corte imediato de 25 p.p., enquanto outros três (Hammack, Kashkari e Logan) se opuseram ao viés de afrouxamento (“easing bias”) mantido no comunicado. Isso reflete a tensão atual no mandato duplo do Fed, que enfrenta uma inflação ainda “elevada” (agravada pela guerra no Oriente Médio e preços de energia) versus um mercado de trabalho que perde força, mas sem sinais claros de recessão. A mensagem é de com o Fed optando por esperar mais dados antes de mover as taxas, priorizando estabilidade de preços sem sacrificar o emprego máximo.
Na coletiva de imprensa — a última de Jerome Powell como Chair — o tom foi ao mesmo tempo sereno e firme. O foco agora se volta para a reunião de junho de 2026, a primeira possivelmente sob o comando de Kevin Warsh. O mercado (de acordo com a FedWatch Tool) segue esperando que não ocorram cortes em 2026. Se os dados de maio e junho confirmarem inflação “elevada”, o ciclo de cortes pode ser adiado ou até revertido; se o mercado de trabalho piorar mais rápido, o viés dovish deve ganhar força.
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@willcastroalves
Estrategista-chefe da Avenue Securities
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