Por William Castro Alves, Estrategista-chefe da Avenue
30 jan 2026
O presidente americano Donald Trump, indicou Kevin Warsh para ser o próximo chairman do Federal Reserve (o banco central americano), substituindo Jerome Powell a partir de maio. A notícia saiu na sexta-feira e mexeu um pouco com os mercados, mas sem grandes surpresas.
Ele tem 55 anos, é ex-governador do Fed (de 2006 a 2011, nomeado por George W. Bush), passou pelo Morgan Stanley no investimento banking, trabalhou na Casa Branca no governo Bush e hoje é fellow no Hoover Institution e leciona em Stanford. Como diretor do Fed, ele foi um dos nomes responsáveis pela resposta do banco central à crise financeira de 2008, ajudando a montar programas de emergência para estabilizar o crédito. Depois que saiu do Fed, virou crítico ferrenho de algumas políticas pós-crise, especialmente o quantitative easing (compra massiva de títulos pelo banco central) e o balanço patrimonial inchado do banco central.

Warsh é um defensor de que o Fed deve se ater ao seu foco de exercer uma política monetária focada em estabilidade de preços e emprego, sem missões que vão além disso, ou seja, que a atuação do Fed não invada áreas de política fiscal, questões sociais, climáticas ou ainda que funcione como uma agência geral do governo. Ele é um crítico das atuações do Fed no mercado, defendendo que essas atuações geram distorções nos mercados que inclusive favorecem Wall Street e afetam a economia real. Para ele, em crises, o Tesouro e o Congresso deveriam agir primeiro, não o Fed. Ele votou contra rodadas extras de QE no passado e defende que o balanço do Fed precisa encolher.
Warsh sempre defendeu a independência operacional do Fed na condução da política monetária — ele já fez discursos sobre isso, chamando de “preciosa” e essencial para credibilidade de longo prazo. Mas ele diz que essa independência depende do próprio Fed manter o foco e não extrapolar mandato. Recentemente, ele falou em “regime change” no Fed, criticando a falta de credibilidade dos atuais dirigentes (especialmente no erro da inflação pós-pandemia) e sugerindo até uma nova parceria mais clara com o Tesouro para definir objetivos do balanço, sem perder a independência no core da política de juros.
Wash é muitas vezes visto como “hawkish” (favorável a juros altos para combater inflação), mas mais recentemente se mostra mais inclinado a cortes de juros no curto prazo — acha que a economia americana pode crescer forte, com ganhos de produtividade que aliviaria pressão inflacionaria, e que juros mais baixos (e balanço menor) ajudam nisso. O pensamento dele é pragmático: data-dependent, mas crítico dos modelos tradicionais do Fed, quer menos intervenção pesada e mais disciplina fiscal do governo. Não é uma escolha de dentro do círculo de apoio direto de Trump, mas deve ser mais alinhado com a visão de crescimento via juros baixos e menos regulação.
O anúncio trouxe uma reação inicial positiva para dólar (leve alta). Warsh é visto como alguém com credibilidade nos mercados, defensor de independência e crítico do balanço inchado — o que reduz o risco de perda total de autonomia do Fed e a ideia do “debasement” (impressão descontrolada de moeda). Essa postura pode ajudar a estabilizar o dólar no curto prazo, evitando quedas mais forte.
Para mercados emergentes (como o Brasil), o quadro é misto: (i) Se Warsh entregar cortes de juros que o mercado já precifica (2 cortes em 2026), liquidez global melhora, o que ajuda moedas emergentes e fluxos para investimentos fora dos EUA. (ii) Se adotar uma postura mais “hawkish” no balanço (reduzindo ativos do Fed), as condições financeiras globais tenderiam a ficar mais apertadas e isso daria sustentação ao dólar, pressionando moedas emergentes.
Uma nomeação que oferece credibilidade e tende a ser bem recebida pelo mercado. O nome de Warsh foge de uma indicação mais inclinada e influenciada pelo governo e oferece um nome qualificado tecnicamente. Obviamente que que o mercado vai acompanhar de perto suas falas e a evolução do processo no Senado para daí sim ter uma melhor ideia da sua postura e forma de atuação. No curto prazo não vemos ruptura ou impactos elevados no cenário e entendemos que retira um risco potencial importante.
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@willcastroalves
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