Não, você não leu errado.
Pouca gente lembra, mas houve um tempo em que a Venezuela não era tratada como ameaça, vilã ou problema geopolítico. Pelo contrário: durante boa parte do século 20, Caracas foi considerada um dos aliados mais importantes de Washington na América Latina.
Em maio de 1958, essa relação quase terminou de forma trágica. Em visita oficial à Venezuela, o então vice-presidente americano Richard Nixon teve sua comitiva cercada por uma multidão furiosa nas ruas de Caracas. Os carros foram atacados com pedras, socos e barras de ferro. Nixon escreveria mais tarde que, por alguns instantes, achou que poderia morrer ali.
De volta a Washington, o governo americano reagiu como reagiria diante de um aliado estratégico: enviou um porta-aviões para a região, pronto para um eventual resgate. No fim, a missão não foi necessária. Nixon deixou o país no dia seguinte, sob escolta do próprio governo venezuelano, que fez questão de garantir sua segurança.
O episódio, curiosamente, não afastou os dois países. Acelerou a aproximação.
A Venezuela vivia uma transição para a democracia e, no contexto da Guerra Fria, reunia tudo o que os Estados Unidos buscavam na região: estabilidade política, discurso anticomunista e talvez o mais importante, petróleo em abundância. Washington decidiu apostar no país.
Julliana Coelho
Analista de Gestão de Recursos na Avenue Securities
Durante décadas, essa aliança se fortaleceu. Presidentes americanos elogiaram publicamente a democracia venezuelana, venderam armas, estreitaram laços diplomáticos e aprofundaram relações comerciais. Nos anos 1960, John F. Kennedy chegou a chamar o presidente venezuelano Rómulo Betancourt de “o melhor amigo da América do Sul”.
A lógica era simples: conter a influência soviética no hemisfério e garantir o acesso a uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Problemas internos, corrupção e falhas institucionais existiam, mas eram frequentemente ignorados em nome dos interesses estratégicos.
Mesmo quando a Venezuela nacionalizou sua indústria petrolífera, nos anos 1970, a reação americana foi moderada. Caracas indenizou empresas estrangeiras e seguiu sendo uma peça-chave da OPEP — e um fornecedor vital de energia para os Estados Unidos.
Esse equilíbrio começou a ruir apenas no fim dos anos 1990, quando um ex-militar de discurso incendiário venceu as eleições prometendo romper com a velha ordem: Hugo Chávez.
No início, Washington reagiu com cautela. Houve encontros diplomáticos, sinais de boa vontade e a expectativa de que Chávez moderasse o tom ao assumir o poder. Mas a tentativa fracassada de golpe em 2002 mudou definitivamente a relação. Chávez voltou ao poder mais forte, mais radical e disposto a confrontar os Estados Unidos publicamente.
A partir dali, o discurso antiamericano deixou de ser retórico e passou a moldar políticas. O controle estatal sobre o petróleo se intensificou, empresas estrangeiras foram afastadas e a Venezuela passou a se alinhar cada vez mais a rivais de Washington, como Rússia, China e Cuba.
O que antes era um parceiro estratégico tornou-se, aos olhos americanos, um problema regional.
Hoje, sob o comando de Nicolás Maduro, herdeiro político de Chávez, a Venezuela vive seu momento de maior isolamento internacional. Sanções, crises humanitárias, colapso econômico e tensão militar substituíram décadas de cooperação.
O contraste é simbólico: o mesmo país que já recebeu porta-aviões americanos como gesto de proteção agora os vê como ameaça.
Entender esse passado ajuda a compreender o motivo da relação entre Estados Unidos e Venezuela ser tão carregada de história, ressentimentos e interesses mal resolvidos.
No tabuleiro geopolítico, antigos aliados podem se transformar rapidamente em adversários. Especialmente quando poder, petróleo e ideologia entram em cena.
E o que eu e você aprendemos com isso? Que rupturas não acontecem de um dia para o outro. Elas são construídas aos poucos, em ciclos de tolerância, concessões e silêncios estratégicos, até que um ponto de inflexão torna a relação irreversível.
Julliana Coelho
Analista de Gestão de Recursos na Avenue Securities
Para quem olha o cenário internacional hoje, a lição é clara: entender o passado não serve para nostalgia, mas para leitura de risco. Países, assim como mercados, alternam a rota quando incentivos mudam. E quando isso acontece, o impacto costuma ser profundo, duradouro e caro para quem foi pego de surpresa.
Por hoje é só, turma!
Até o próximo case.
Referências
- A GUERRA dos EUA contra a Venezuela começou em 2001. Brasil de Fato, 30 dez. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/colunista/vijay-prashad/2025/12/30/a-guerra-dos-eua-contra-a-venezuela-comecou-em-2001/.
- A INCÔMODA soberania da Venezuela: a velha política da Pax Americana. Le Monde Diplomatique Brasil, 8 mar. 2019. Disponível em: https://diplomatique.org.br/a-incomoda-soberania-da-venezuela-a-velha-politica-da-pax-americana/.
- A VENEZUELA já foi uma aliada próxima dos EUA. O que deu errado? Estadão, 27 set. 2018. Disponível em: https://www.estadao.com.br/internacional/a-venezuela-ja-foi-uma-aliada-proxima-dos-eua-o-que-deu-errado/.
- ESTADOS Unidos e Venezuela: Um contexto histórico. Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), 3 fev. 2019. Disponível em: https://iela.ufsc.br/estados-unidos-e-venezuela-um-contexto-historico/.
- FOLHA ONLINE. Especial – 2002 – Venezuela: O Golpe. São Paulo: Folha de S.Paulo,. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2002/venezuela/o_golpe.shtml.
- O DIA em 1875 em que os Estados Unidos intervieram a favor da Venezuela contra o Reino Unido. BBC News Brasil, 28 dez. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-55461735.
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