Por Juliana Benvenuto, Coordenadora de Treinamento e Conteúdo da Avenue
26 ago 2025
Existem custos que a gente não vê, e, justamente por isso, são os mais perigosos. Eles não aparecem na fatura do cartão nem no extrato do banco. Estão escondidos nos centavos que a inflação rouba todos os dias, nos planos que a gente deixa “para depois” e nos sonhos que ficam mais caros enquanto o dinheiro continua parado.
Não investir é como remar contra a maré sem perceber. Aos poucos, o tempo começa a trabalhar contra você. E não importa se o motivo é comodidade, medo ou falta de informação. O resultado, no fim, é sempre o mesmo.
A mesma força que faz o patrimônio crescer pode destruí-lo rapidamente, e, no Brasil, as dívidas caras são um dos maiores buracos no bolso do investidor. O rotativo do cartão de crédito é o exemplo mais extremo: em 2024, as taxas ficaram acima de 430% ao ano. Com um juro desse tamanho, uma dívida de R$ 1.000 no início do ano se transformaria em mais de R$ 5.300 após 12 meses.
E nem precisamos ir tão longe: juros de 10% ao mês, que muita gente paga em empréstimos por exemplo, transformam R$ 1.000 em mais de R$ 3.100 em apenas um ano. Quanto mais tempo a dívida fica aberta, mais ela cresce, e mais difícil fica se livrar dela.
Viver no zero a zero pode até parecer tranquilo: você paga todas as contas, não se endivida e, no fim do mês, sobra… nada. É quase como correr em uma esteira: você até se esforça, mas simplesmente não sai do lugar.
Quando não sobra nada para investir, você abre mão do que o dinheiro poderia gerar por você. Não é apenas sobre os juros compostos que deixam de existir, mas também sobre o tempo que se perde. Lembra dos ensinamentos do Morgan Housel que eu trouxe no artigo anterior? Pois bem, sem investir, você não constrói nenhuma reserva para emergências, oportunidades ou objetivos de vida. Você fica sem margem para realizar qualquer coisa no futuro. Nem o que deseja, nem o que precisa.
A inflação é outro vilão. Entre 1º de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2024, o IPCA acumulado foi de aproximadamente 78%. Isso significa que, para comprar hoje o que você comprava por R$ 1.000 em 2015, precisaria de R$ 1.780 em 2024.
Esse aumento não é rendimento, é perda de poder de compra. Quem manteve o dinheiro parado em reais perdeu exatamente essa diferença. E quando colocamos o câmbio na conta, a sensação de erosão aumenta ainda mais: no início de 2015, o dólar custava R$ 2,65; no fim de 2024, R$ 6,18. Em dez anos, o real perdeu cerca de 133% do seu valor frente ao dólar. Mas vamos falar mais sobre isso daqui a pouco.
Talvez você pense: “Mas eu não deixo o dinheiro na conta, eu coloco na poupança.” Muita gente pensa assim. O problema é que a poupança é, no máximo, um tapa-buraco.
Entre 1º de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2024, ela rendeu 78,6% no acumulado. Parece até razoável, mas como vimos, no mesmo período a inflação foi de 78%. Ou seja, o ganho real foi praticamente zero.
Com certeza foi melhor do que deixar o dinheiro parado na conta, mas está longe de significar aumento real de patrimônio. A poupança pode até te dar alguma segurança, mas não te leva para mais longe.
Investir só no Brasil é como jogar futebol com 11 atacantes. Você pode até marcar alguns gols, mas a defesa fica completamente exposta, e as chances de levar muito mais gols do que fazer aumentam consideravelmente.
O dólar, por exemplo, funciona muitas vezes como linha de defesa, não por ser “melhor” que o real, mas por ser uma moeda historicamente mais forte e estável.
Se você tivesse convertido R$ 1.000 em dólares em 1º de janeiro de 2015 (cerca de US$ 377) e simplesmente guardado até 31 de dezembro de 2024, teria aproximadamente R$ 2.330, só pelo câmbio, sem investir em nada.
Agora imagine se tivesse colocado esse valor em renda fixa americana. Nesse período, a taxa de juros nos EUA variou de 0,25% ao ano, no início, para até 5,50% em 2023, fechando 2024 em torno de 4,50%. Para nós, brasileiros, um rendimento bem baixo se comparado às nossas taxas de juros, mas considerando o nível de risco da renda fixa americana, considerado por muitos um dos ativos mais seguros do mundo, mais a variação do câmbio no período, teria sido muito melhor do que qualquer investimento considerado conservador no Brasil. O ganho total em reais chegaria a R$ 2.600 no mesmo período de 10 anos. Superaria bastante a nossa inflação do período, nos dando o que chamamos de retorno real. E olha que eu fiz a conta com o rendimento da renda fixa no exterior, que foi a classe de ativos com o retorno mais baixo. Se formos olhar para a bolsa americana por exemplo, os números seriam consideravelmente mais altos.*
Os juros compostos não têm lado. Eles não “preferem” investidores nem credores. Trabalham para quem investe e contra quem deve, na mesma intensidade.
Quando aplicados a seu favor, eles aceleram a construção do patrimônio. No começo, o efeito parece pequeno, mas com o tempo ele se multiplica. Já quando estão contra você, eles fazem o oposto: começam com parcelas que parecem gerenciáveis e, de repente, tomam proporções impagáveis. Entender essa dinâmica é o primeiro passo para decidir de que lado você quer estar.
No fundo, tudo isso é sobre liberdade. Liberdade de escolha, de tempo e de futuro. O “preço invisível” de não investir não se paga só em reais. Ele se paga em portas que se fecham, em decisões que você não pode tomar e em sonhos que ficam mais distantes.
Não existe fórmula mágica, mas existem caminhos viáveis para sair dessa armadilha. O primeiro é parar o sangramento: se você tem dívidas caras, precisa eliminá-las antes de investir. Nenhum retorno de aplicação supera juros de 10% ao mês ou de 430% ao ano.
O segundo é construir uma reserva: para quem tem renda previsível, como CLT, o ideal é ter o equivalente a 6 meses de gastos; para quem é autônomo e tem renda mais imprevisível, essa reserva pode chegar a 12 meses. Essa é a base que evita recorrer a empréstimos em emergências.
Depois, vem a diversificação: combinar ativos em reais e em dólar, misturar renda fixa e variável, e separar investimentos por prazos diferentes, sempre levando em consideração o seu perfil de investidor, ou seja, o nível de risco que está disposto a aceitar e os seus objetivos de vida e horizontes de tempo.
E por último, é preciso consistência: tornar um hábito aportes mensais e rebalancear a carteira à medida que for necessário. Isso pode acontecer, por exemplo, quando a renda variável sobe muito e a sua carteira fica mais arriscada do que você gostaria. O rebalanceamento mantém o portfólio alinhado ao seu perfil e aos seus objetivos.
A verdade é que investir não é sobre ficar rico rápido, mas sobre não empobrecer lentamente. É sobre garantir que o tempo trabalhe ao seu lado, e não contra você.
O preço invisível de não investir é pago em prestações diárias: poder de compra que diminui, oportunidades que desaparecem, liberdade que se perde. Mas a boa notícia é que mudar esse rumo não exige grandes saltos. Exige pequenos passos, dados com constância. A cada mês em que você investe, mesmo que pouco, está comprando mais liberdade para o seu “eu do futuro”.
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