30 jun 2026
Por Juliana Benvenuto, Coordenadora de investimentos e conteúdo da Avenue Banco de Investimentos
Em 1789, treze anos depois de declarar independência, os Estados Unidos estavam endividados, sem moeda estável e sem crédito internacional. O país que tinha acabado de vencer uma guerra contra o império mais poderoso do mundo não conseguia sequer financiar a própria reconstrução. Hoje, 250 anos depois daquele 4 de julho de 1776, esse mesmo país tem o PIB e o mercado de capitais mais importantes do planeta.
E é exatamente isso que eu quero contar aqui: como uma nação que nasceu sem crédito construiu, em poucas décadas, o mercado financeiro mais relevante do mundo. Mas antes, vale entender como foi o dia em que tudo começou.
No dia 2 de julho de 1776, o Congresso Continental votou a favor da separação entre as treze colônias americanas e a Inglaterra. No dia seguinte, ainda emocionado, John Adams, um dos políticos mais influentes daquele Congresso, escreveu para a sua esposa, Abigail. Contou que tinha acabado de presenciar o nascimento de uma nova nação, e chamou aquele momento de “a época mais memorável da história da América”. Disse também que aquele dia seria celebrado por gerações e gerações, com desfiles, jogos, tiros de canhão, sinos tocando e fogueiras de ponta a ponta do continente, repetidos para sempre. Adams errou só em um detalhe. A data que ficou marcada na história foi 4 de julho, quando o texto da Declaração de Independência foi formalmente aprovado pelo Congresso. No resto, ele acertou em cheio.
Quando o Segundo Congresso Continental aprovou a independência, em julho de 1776, as treze colônias americanas já estavam em guerra com a Grã-Bretanha havia mais de um ano. A Declaração só formalizou isso no papel. Foi redigida principalmente por Thomas Jefferson, com ajuda de um comitê que incluía Benjamin Franklin e o próprio John Adams. As primeiras cópias circularam em 5 de julho. O Pennsylvania Evening Post foi o primeiro jornal a publicar o documento na íntegra, em 6 de julho. Dois dias depois, em 8 de julho, o texto foi lido em praça pública na Filadélfia, ao som de sinos e bandas. A assinatura de todos os 56 representantes só se completou semanas depois. E a primeira comemoração oficial, com fogueiras, sinos e fogos de artifício, veio um ano depois, em 1777, também na Filadélfia. Adams, pelo visto, sabia exatamente o que estava prevendo.
O texto ficou conhecido por uma frase que ainda aparece em discursos, livros e salas de aula: a de que todos os homens são criados iguais, dotados de direitos inalienáveis. A frase é muito bonita. Só que, na prática, ela não valia para todo mundo. Mulheres, povos indígenas e pessoas escravizadas ficaram de fora dessa promessa por muito tempo. E esse é um ponto que os próprios historiadores americanos gostam de lembrar agora, no aniversário de 250 anos: nos séculos seguintes, o país foi ampliando essa liberdade aos poucos, com a abolição da escravidão, o direito ao voto das mulheres e avanços no reconhecimento de direitos indígenas.
A guerra ainda duraria mais sete anos depois daquele 4 de julho, terminando oficialmente apenas com o Tratado de Paris, em 1783. O historiador brasileiro Leandro Karnal, em História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI, chama atenção para um detalhe que ajuda a entender por que essa independência foi mais fácil de declarar do que a de outras colônias americanas. A Inglaterra, diferente de Portugal e Espanha, nunca teve nas treze colônias um projeto colonial centralizado, comandado diretamente pela Coroa. Essa ausência de controle direto, segundo Karnal, aliviou boa parte do trauma da ruptura, e é por isso que ele chama esse processo de a primeira independência vitoriosa das Américas. O Brasil, para quem gosta de comparar histórias, levaria mais 46 anos para declarar a própria independência, em 1822, por um caminho bem diferente.
A maioria das pessoas, quando pensa na Declaração de Independência, foca no trecho sobre direitos inalienáveis e igualdade entre os homens. Mas o historiador David Armitage, autor de The Declaration of Independence: A Global History, defende outro ponto de vista: para ele, o documento foi escrito com os olhos voltados para o resto do mundo. O objetivo era afirmar que as treze colônias formavam, a partir dali, um Estado soberano, com direito de negociar tratados, fechar alianças e fazer comércio como qualquer outra nação, especialmente com a França, de quem os revolucionários precisavam urgentemente de apoio militar e financeiro. As ideias sobre direitos naturais e igualdade, hoje tão lembradas, ganhariam esse peso todo só décadas depois, quando o texto foi sendo transformado, nas palavras de Armitage, numa espécie de escritura sagrada americana. E o impacto de tudo isso acabou sendo maior do que qualquer um dos signatários poderia imaginar: hoje, metade dos países do mundo tem sua própria declaração de independência, um modelo de documento que, segundo o historiador, começou exatamente ali, na Filadélfia de 1776.
Aqui entra uma das coincidências mais impressionantes da história americana. Thomas Jefferson e John Adams, protagonistas da Declaração e que depois se tornaram presidentes dos Estados Unidos, morreram no mesmo dia: 4 de julho de 1826, exatamente 50 anos após a independência. Sabe a chance de isso acontecer por acaso? Praticamente zero. E, ainda assim, aconteceu. Dez dias antes de morrer, já muito debilitado, Jefferson escreveu o que seria sua última carta, recusando um convite para ir a Washington participar das comemorações do cinquentenário da independência. Mesmo assim, aproveitou para deixar uma última reflexão sobre o documento que tinha redigido meio século antes, dizendo que esperava que aquele dia servisse, para sempre, de lembrete de que os povos têm direito a se governar por conta própria. Jefferson faleceu em Monticello, na Virgínia, por volta do meio-dia de 4 de julho. Adams faleceu horas depois, em Massachusetts, sem saber que o amigo já tinha partido. Segundo relatos da época, suas últimas palavras foram “Jefferson ainda vive”. Os dois passaram anos brigados politicamente, fizeram as pazes por carta já mais velhos, e entraram para a história como uma dupla unida até no fim. Cinco anos depois, em 1831, outro ex-presidente, James Monroe, também morreria em um 4 de julho.
E é aqui que a história da independência se conecta com o que eu acompanho de perto todos os dias: o mercado financeiro americano. Em 1789, poucos anos depois da guerra terminar, o país recém-criado estava endividado e sem crédito internacional. Alexander Hamilton, o primeiro secretário do Tesouro americano, assumiu o desafio de organizar essa bagunça. Sua proposta foi tão ousada quanto polêmica: o governo federal assumiria as dívidas deixadas pelos estados durante a guerra e pagaria cada centavo, com juros, para restaurar a confiança dos credores. Para conseguir aprovar a medida no Congresso, Hamilton teria fechado um acordo de bastidores com Thomas Jefferson e James Madison, em um jantar, em junho de 1790. Em troca do apoio para o governo federal assumir as dívidas dos estados, a capital do país seria construída às margens do rio Potomac, exatamente onde fica Washington D.C. hoje. Essa história do jantar virou quase uma lenda de fundação da política americana. Mas o historiador Joseph Ellis, no livro Founding Brothers, mostra que a versão mais conhecida é uma simplificação. O único relato detalhado do encontro é o do próprio Jefferson, escrito anos depois, e Ellis aponta que reuniões secretas anteriores, entre outros aliados dos três, já vinham preparando esse acordo havia meses. Na prática, quando o jantar aconteceu, o acordo já estava praticamente fechado.
Essa decisão de honrar a dívida, por mais cara que tenha sido, deu ao governo americano crédito, algo que nenhuma outra nação recém-criada tinha conseguido. Esse crédito abriu caminho para a negociação de títulos do governo nas ruas de Nova York. Em 1792, apenas 16 anos depois da independência, vinte e quatro corretores se reuniram embaixo de uma árvore em Wall Street e fecharam um acordo simples, de poucas linhas, com regras básicas para negociar esses títulos entre eles. Esse documento, conhecido até hoje como Acordo de Buttonwood, é considerado o marco fundador do que se tornaria a Bolsa de Valores de Nova York. O país ainda discutia sua identidade política, mas já tinha colocado no papel as regras desse mercado, que viraria o maior do mundo.
E não foi só o mercado que nasceu naquele ano. O Mint Act, também de 1792, criou a Casa da Moeda americana e estabeleceu o dólar como moeda oficial do país. 250 anos depois, esse dólar ainda é o mesmo: os Estados Unidos nunca precisaram trocar de moeda. O Brasil, para efeito de comparação, já teve pelo menos sete moedas diferentes só desde 1942: cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, cruzeiro outra vez, cruzeiro real e o real, que nasceu em 1994, há pouco mais de trinta anos.
Quando eu olho para os números de hoje, é difícil lembrar disso. Em 1776, os Estados Unidos eram uma economia agrária, dividida entre treze colônias, sem moeda própria consolidada e sem acesso a crédito fora do país. Hoje, segundo dados do Banco Mundial, o PIB americano passa de US$ 29 trilhões, o equivalente a mais de um quarto de toda a riqueza produzida no planeta em um ano. Nenhum outro país chega perto desse tamanho.
Esse contraste não aconteceu da noite para o dia. Ao longo do século 19, os Estados Unidos se expandiram para o oeste, receberam ondas sucessivas de imigração e construíram ferrovias e fábricas em um ritmo que nenhum outro país conseguia acompanhar, mesmo tendo que atravessar uma guerra civil pelo meio do caminho. Por volta de 1890, esse crescimento já tinha colocado o país na posição de maior economia do mundo, ultrapassando a Inglaterra, que até então liderava a Revolução Industrial havia mais de um século.
Décadas depois, vieram a Grande Depressão e duas guerras mundiais. E foi exatamente no fim da Segunda Guerra, em 1944, na conferência de Bretton Woods, que o dólar virou oficialmente a moeda de referência do mundo. Os Estados Unidos chegaram a deter quase três quartos do ouro do planeta naquele momento, enquanto a Europa saía destruída do conflito. Esse acordo é parte do motivo pelo qual o dólar segue sendo, até hoje, a moeda mais usada em transações internacionais e responde por mais da metade das reservas internacionais de bancos centrais do mundo todo.
Depois ainda vieram outras crises: a do petróleo, nos anos 1970, a bolha da internet, a crise de 2008 e uma pandemia global. Em cada uma dessas crises, teve gente dizendo que o mercado não ia se recuperar. Não foi bem o que aconteceu. O S&P 500, índice que reúne as 500 maiores empresas americanas, acumula uma média histórica de retorno de cerca de 10% ao ano desde 1926, atravessando praticamente um século de crises e recessões. E hoje, esse mesmo mercado representa mais de 50% de tudo que se negocia em bolsa no mundo inteiro.
Essa não é a primeira vez que um marco da independência ganha um gesto à altura. Em 1876, quando o país completava 100 anos, a França já tinha um presente e tanto guardado: a ideia da Estátua da Liberdade tinha sido proposta onze anos antes, em 1865, pelo jurista francês Édouard de Laboulaye, justamente para marcar esse centenário e celebrar a amizade entre os dois países. Só que o projeto atrasou. Na época da Exposição do Centenário, na Filadélfia, só o braço com a tocha estava pronto, e foi só isso que ficou em exibição. A estátua completa só chegaria a Nova York dez anos depois, em 1886. Até hoje, a placa que ela carrega no braço esquerdo traz a data 4 de julho de 1776 gravada em algarismos romanos. Mesmo dez anos atrasada, a homenagem chegou.
Em 2026, os Estados Unidos celebram o Semiquincentenário, e o tamanho da festa surpreende até quem já está acostumado ao exagero americano para datas comemorativas. A organização oficial por trás das celebrações, a America250, está ligada à Comissão do Semiquincentenário dos Estados Unidos, criada pelo Congresso em 2016 como uma iniciativa apartidária. Os ex-presidentes George W. Bush e Barack Obama, de partidos opostos, junto com as ex-primeiras-damas Laura Bush e Michelle Obama, dividem o posto de copresidentes honorários. E mais de 350 parlamentares formam o grupo de apoio no Congresso, o maior já reunido para uma única causa nos Estados Unidos. A meta declarada ganhou até um nome de campanha, “350 for 250”: engajar os 350 milhões de americanos no aniversário de 250 anos do país, entre ações de voluntariado, doações e eventos pelo território inteiro.
Boa parte do apoio a esse aniversário vem direto do mundo financeiro que nasceu junto com o país. Entre os patrocinadores oficiais da America250 estão a própria Bolsa de Nova York, JPMorgan Chase, Goldman Sachs, Citi e o banco BNY, que tem uma ligação direta com a história contada aqui: foi fundado em 1784 por Alexander Hamilton, o mesmo homem que organizou as finanças da nação recém-independente anos depois. Como parte das comemorações, a Comissão de Valores Mobiliários americana, a SEC (Securities and Exchange Commission), participou de uma cerimônia na própria Bolsa de Nova York. E o Tesouro lançou moedas comemorativas com as datas 1776 e 2026 gravadas lado a lado, além de restaurar um monumento dedicado a Hamilton em Washington.
A própria forma de comemorar essa data foi sendo construída pouco a pouco, ao longo de quase dois séculos. A primeira celebração aconteceu em 1777, mas o 4 de julho só se tornou oficialmente um feriado federal em 1870, quase cem anos depois da independência, e só em 1938 passou a ser feriado pago para os funcionários do governo. A celebração de 2026 também chegou às livrarias, com uma enxurrada de lançamentos comemorativos, de estudos acadêmicos a álbuns ilustrados de mesa de centro como o Proud Patriots: 250 Years of American History, feitos especialmente para a ocasião.
Para mim, é nesse contraste que mora a parte mais bonita da história. Em 1789, os Estados Unidos não tinham crédito para reconstruir a própria economia. Hoje, 250 anos depois daquele 4 de julho, esse mesmo país tem o maior PIB e o maior mercado de capitais do mundo. Talvez essa data continue tão viva justamente por isso: ela mostra que um país endividado e em guerra ainda pode escrever uma história bem mais longa.
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