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Berkshire Hathaway 2026: As Lições da Primeira Reunião Anual sem Warren Buffett no comando

07 maio 2026

Por Bruno Yamashita
Coordenador do Time de Análise da Avenue Securities Gestão de Recursos

Uma vez por ano tradicionalmente investidores do mundo inteiro vão para Omaha acompanhar a Reunião Anual da Berkshire Hathaway para poderem escutar Warren Buffett, considerado por muitos, um dos maiores investidores da história apelidado em “Oráculo de Omaha”.

Embora, ao contrário dos anos anteriores, 2026 marca o primeiro ano em que Buffett não é a voz principal do evento, depois de anunciar sua transição do cargo de CEO (que durou de 1965 a 2025) para Greg Abel, que tocou por muitos anos o segmento de Energia da gigante do meio oeste americano. Nas conversas de corredor durante os dias de evento, o sentimento era: “como vai ser a Berkshire na era Abel?”.

Com isso, vamos trazer os destaques e as lições do evento intitulado “O Legado Continua” para respondermos essa pergunta.

Reprodução/Bruno Yamashita

A sucessão de Warren Buffett

Greg Abel foi anunciado pela Berkshire Hathaway como sucessor de Warren Buffett em 2021 e, no início de 2026, assumiu oficialmente o cargo de CEO. Sua trajetória dentro da empresa soma mais de 25 anos, com foco inicial nos negócios de energia e, posteriormente, como vice-presidente do conselho responsável por praticamente todas as operações do conglomerado, exceto o segmento de seguros.

Ao longo do evento, Abel fez questão de reiterar seu respeito por Buffett, mencionando o legado construído ao longo de décadas e reforçando que a cultura da Berkshire será preservada. Ainda que esteja há anos envolvido nas principais decisões estratégicas, o cuidado em transmitir continuidade foi evidente. O destaque do evento foi a participação de Buffett, que, da plateia, pegou o microfone para deixar sua mensagem final.

Ao falar sobre transições de liderança, Buffett relembra o exemplo da Apple em 2011, quando Tim Cook assumiu o comando da empresa após a saída de Steve Jobs, fundador e figura central na criação do iPhone. Ele destacou que, naquele momento, Cook não era amplamente reconhecido como seria anos depois. Nada garante que o sucesso da Apple irá reverberar para a transição da Berkshire ou de qualquer outra empresa, mas, olhando pelo retrovisor a Apple multiplicou mais de 10 vezes o seu valor de mercado entre 2011 e 2026. Ou seja, a mensagem foi: a troca de liderança, sobretudo quando envolve pessoas que marcam a história, gera incertezas e questionamentos, mas grandes empresas se preparam para esse momento. Buffett reforçou que a decisão por Abel foi 100% acertada.

Encerrando sua fala, Buffett comentou que ficou satisfeito com o retorno proporcionado pelo investimento na Apple ao portfólio da Berkshire. Mais do que isso, ressaltou que ficou ainda mais satisfeito por não ter precisado fazer nada para que esse resultado acontecesse, sinalizando que decisões bem-sucedidas já vêm sendo tomadas por outros líderes dentro da empresa.

Panorama dos negócios da Berkshire

A perspectiva de longo prazo da Berkshire faz com que questões macroeconômicas de curto prazo não sejam o foco principal das discussões. Ainda assim, surgiu uma pergunta relacionada ao impacto do recente aumento nos preços de energia.

A resposta indicou que a companhia acompanha de perto o cenário, compreende seus efeitos, mas já viveu outros choques similares no passado. A experiência acumulada permite ajustes operacionais sem a necessidade de movimentos bruscos. Mais uma vez, ficou evidente que a visão de longo prazo e a maturidade da gestão se sobrepõem a decisões reativas.

“Não vamos investir em IA só por investir”

Abel explicou que a Berkshire mantém uma postura disciplinada em relação à adoção de inteligência artificial. A empresa acompanha os avanços e avalia oportunidades, mas somente quando há ganhos claros de eficiência operacional ou escala.

A frase que resumiu essa abordagem: “Não vamos investir em IA só por investir”. Outros executivos reforçaram a visão, destacando que monitoram os desdobramentos tecnológicos e suas possíveis implicações para o futuro dos negócios, por exemplo, se a evolução de caminhões autônomos poderia afetar o negócio de ferrovias.

Alocação de capital no Japão

Em sua carta anual, Abel até comenta que Buffett investia apenas em empresas americanas. E mais recentemente, a Berkshire adquiriu cerca de 2,5% do capital da Tokio Marine (fonte: divulgação Berkshire), maior seguradora japonesa em um movimento que deixaram claro que não pretendem vender essas posições em 50 anos.

O movimento representa uma evolução em relação a outros investimentos passivos no mercado japonês. Ao investir diretamente em um player relevante do setor de seguros, a Berkshire amplia sua exposição exatamente em uma área onde possui décadas de experiência.

Posição de caixa e disciplina na alocação

Ao final do primeiro trimestre de 2026, a Berkshire Hathaway acumulava uma posição recorde de caixa, próxima a US$ 380 bilhões, majoritariamente aplicada em títulos do Tesouro americano de curto prazo.

Na entrevista tradicional com Becky Quick, da CNBC, Buffett foi transparente ao afirmar que não enxerga, neste momento, oportunidades que justifiquem o uso desse capital. A lógica segue a mesma filosofia defendida por ele ao longo de décadas e constantemente reforçada por Abel: paciência e disciplina por preços que julguem ser adequados é parte essencial da estratégia.

Valores, cultura e filosofia de investimentos

Foi interessante notar que parte relevante das perguntas girou em torno do futuro da filosofia de investimento da Berkshire. Abel reforçou que os pilares centrais continuam inalterados.

A tomada de decisão descentralizada sem burocracia, a integridade dos executivos à frente dos negócios e o foco em investimentos de longo prazo com alocação eficiente de capital seguem como pilares da companhia. Em sua carta anual de 2026, Abel cita Charlie Munger, parceiro de décadas de Buffett que faleceu em 2023 pouco tempo antes de completar 100 anos de idade, ao afirmar que “Greg irá manter a cultura da empresa”.

Como encerramento, Abel compartilhou um trecho de um depoimento de Buffett sobre integridade e reputação, referido internamente como o “hino nacional” da Berkshire: “Perca dinheiro para a empresa e entenderei. Perca um fio da nossa reputação e serei implacável”.

Aprendizados para nós, investidores

O que podemos levar de mais um evento anual da Berkshire que marca a transição oficial do comando da empresa?

Em primeiro lugar, a cultura como fator de continuidade e longevidade dos negócios. Em segundo, a importância da diversificação, tanto setorial (evidenciada pelos diferentes segmentos de atuação das subsidiárias) quanto geográfica, exemplificada pela expansão no Japão. Por fim, a disciplina, paciência e calma nos investimentos, para que movimentos de curto prazo não afetem a visão de longo prazo que nós investidores devemos ter quando falamos na proteção do nosso capital.

Warren Buffett deixou uma marca permanente no capitalismo americano. Greg Abel inicia uma nova fase da Berkshire Hathaway, com um estilo mais sério, mas alinhado aos valores que sustentaram a empresa por décadas. Toda admiração por Buffett e todo o sucesso a Abel!

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Bruno Yamashita

Com mais de 7 anos de experiência no mercado financeiro, iniciou a carreira no Bank of America Merrill Lynch, posteriormente teve passagens pelos times de Equity Research cobrindo mercados emergentes na gestora britânica Aberdeen (que conta com cerca de GBP 490 bilhões de ativos sob gestão), fez parte do time de Investment Banking do Goldman Sachs no Brasil, e foi analista de Global Equities cobrindo diversos setores como tecnologia, consumo (básico, discricionário e luxo) e saúde em um multi family office no Brasil. Atualmente, atua como analista do time de Alocação e Inteligência da Avenue. Bruno é formado em administração com ênfase em finanças pela ESPM-SP e possui a certificação CGA.

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