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Inteligência artificial e o futuro da inovação: uma conversa com Derek Glynn

Por BNP Paribas Asset Management

18 ago 2025

A tecnologia está moldando o presente e redesenhando o futuro em uma velocidade impressionante e a inteligência artificial (IA) está no centro dessa transformação. Nesta entrevista exclusiva, Daniel Morris, estrategista-chefe global da BNP Paribas Asset Management, conversa com Derek Glynn, analista sênior do setor de tecnologia da informação, sobre os avanços mais recentes em IA generativa, os impactos da inovação chinesa com o modelo DeepSeek e as implicações para investidores e empresas em todo o mundo.

Com uma análise profunda e acessível, Glynn destaca como a queda nos custos de treinamento e uso de modelos de IA está acelerando sua adoção em diversos setores, desde educação até saúde, passando por aplicações empresariais e pessoais. A conversa também aborda os investimentos crescentes em infraestrutura tecnológica, os desafios regulatórios e os potenciais beneficiários ainda subestimados pelo mercado.

Daniel Morris: Olá, hoje vou entrevistar Derek Glenn, Analista Sênior do setor de tecnologia da informação sobre o tema de inteligência artificial e tecnologias disruptivas. Sou Daniel Morris, estrategista-chefe global da BNP Paribas Asset Management.

Gostaria de iniciar refletindo que se pensarmos nas evoluções da tecnologia nas últimas décadas, o setor se tornou bastante proeminente na mente dos investidores com a chegada da Internet. Com isso, tivemos o grande impulso com a Covid, e posteriormente com a IA. Houve, também, outro impulsionador para o setor devido as tarifas do governo Trump. Outras partes do mercado que são mais direcionadas para os bens, sofreram relativamente mais com as tarifas do que a tecnologia. Ou seja, muitos ventos favoráveis. E, um desenvolvimento importante no início deste ano foi o lançamento do DeepSeek por um laboratório chinês de IA. Você poderia comentar mais sobre isso e mencionar se enxerga algum impacto no longo prazo?

Derek Glynn: Vou começar com a definição sobre a IA generativa. Ela é uma tecnologia que pode gerar conteúdo a partir de um prompt baseado em texto ou imagem. Com cada vez mais dados e o tipo certo de treinamento, a empresa DeepSeek conseguiu atingir níveis impressionantes de raciocínio avançado. Isso abriu caminho para muitos outros casos interessantes de uso da IA. Eles desenvolveram um modelo de raciocínio capaz de pensar e revisar seu funcionamento antes de responder a uma pergunta. O diferencial foi a eficiência aparente no treinamento do modelo e o baixo custo para os usuários consultarem ou fazerem perguntas. O custo do uso do modelo da DeepSeek foi de apenas uma fração em relação a um modelo comparável líder nos EUA.

A lição mais importante para mim foi que a DeepSeek destacou essa tendência dos modelos de IA se tornarem cada vez mais baratos para treinar e usar. Os preços atualmente, para modelos de consulta são, em média, cerca de um centésimo do que eram há alguns anos. Como sabemos pela economia, à medida que os preços caem, o consumo tende a aumentar. Acreditamos que a IA estará em todos os lugares. Ela estará incorporada em muitos sistemas, aplicativos e tecnologias. Ela afetará todos os setores da nossa economia. E os modelos mais eficientes desbloqueiam essa oportunidade.

DM: Além dos custos mais baixos que você mencionou, existem outros fatores que o levam a acreditar que os custos com a adoção da IA aumentarão significativamente nos próximos anos?

DG: A adoção da IA está prestes a acelerar porque estamos na intersecção de três tendências importantes. A primeira é a queda contínua no custo de processamento de consultas. A segunda é a melhoria contínua na inteligência dos modelos. A maioria dos modelos líderes agora excede o nível básico de inteligência humana em diversos testes de referência, incluindo matemática, raciocínio visual, classificação de imagens, nível de doutorado, questões científicas e muito mais. Ao mesmo tempo, as taxas de erro estão diminuindo.

Fundamentalmente, a combinação desses dois fatores reforça essa terceira dinâmica, que é uma ampliação no número e no tipo de casos de uso para IA. É importante ter em mente que esta é uma tecnologia de propósito geral: ela impactará todos os aspectos da economia e também pode melhorar nossa vida pessoal em muitas áreas. Os casos de uso da IA na educação e assistência técnica são bem compreendidos. Mas, existem também os casos de uso particular da IA, como o uso para terapia ou companhia. Muitas pessoas não têm acesso a médicos ou especialistas, ou podem não ter horários para consultas disponíveis ou o custo muito alto. Dito isso, a IA provavelmente não é um substituto perfeito, mas em alguns casos, pode ser melhor do que nada. Ela está melhorando a qualidade de vida de muita gente. Esse é um exemplo importante porque destaca as várias maneiras de usá-la, bem como qual é o alcance e a aplicabilidade geral da IA.

Resumindo, é uma combinação de, custo mais baixo, mais inteligente e de propósito geral que deverá aumentar ao longo do tempo dado que deverá ter uma maior adoção da IA. Para colocar alguns dados em torno disso, a empresa McKinsey fez uma pesquisa no ano passado onde eles descobriram que 78% das empresas adotaram IA em uma ou mais funções ou departamentos. Isso é 55% acima dos 55% de alguns anos atrás. No entanto, apenas 16% das empresas adotaram a IA em cinco ou mais departamentos. Esses dados sugerem que ainda é cedo, e que as empresas estão começando a experimentar a IA, mas ela ainda não se espalhou por toda a organização. Olhando para o futuro a longo prazo, estou mais animado com a IA em diferentes fatores de forma física, como robótica ou óculos de realidade aumentada. Haverá muito mais casos e adoção da IA quando esses sistemas tiverem capacidades físicas e acesso a informações em tempo real sobre o mundo ao nosso redor.

DM: O que você acabou de falar realmente mostra que ainda não vimos nada. Agora, ao mesmo tempo, um debate importante entre os investidores é em torno da magnitude dos gastos, em particular dos principais provedores de serviços em nuvem. Como você vê essa tendência se desenvolvendo nos próximos anos?

DG: O avanço feito pela DeepSeek fez com que alguns questionassem o ritmo e a trajetória das despesas e dos investimentos em tecnologia porque a DeepSeek foi muito eficiente no seu treinamento de modelos: eles essencialmente fizeram mais com menos. Nossa visão é que os investimentos para os principais provedores de serviços em nuvem e em uma empresa líder de mídia social continuarão a crescer. Isso pode ocorrer em “ondas” de alto investimento, seguidas por períodos de adaptação, mas, no geral, a tendência deve ser maior. Para 2025, estimamos um crescimento anual de mais de 40%, para quase 290 bilhões de dólares. A maior parte desse gasto é na construção de datacenters e no equipamento dessas instalações com servidores e unidades de processamento gráfico.

É mais desafiador prever o ritmo dos investimentos, mas acreditamos que continuaremos a ver um crescimento anual, embora provavelmente a um ritmo menor do que os 40% esperados para 2025. No geral, ainda há uma corrida armamentista de IA se desenrolando entre essas empresas de tecnologia de megacapitalização. A IA é uma oportunidade muito grande e ainda emergente, e é provável que haja um risco maior de perdê-la do que se investir demais. Portanto, achamos que as empresas deverão investir com isso para garantir seu próprio futuro.

Há também um debate sobre até que ponto os provedores de serviços em nuvem podem obter um retorno aceitável sobre esse investimento. Nossa visão tem sido bastante consistente, pois acreditamos que eles estão bem-posicionados. Não acredito que estejam gastando demais e têm muitas maneiras de monetizar esses investimentos. Gosto de dizer que todos os caminhos na IA levam aos três grandes provedores de serviços em nuvem. Eles fornecem o armazenamento, a computação e têm o acesso mais amplamente disponível às unidades de processamento gráfico. Para que as empresas aproveitem a IA, elas também estão desenvolvendo aplicativos que usufruam da tecnologia.

E, finalmente, eles estão começando a usar a IA internamente para impulsionar eficiências. Os desenvolvedores de software estão se tornando muito mais produtivos, às vezes em até 30 a 40%, porque a IA os ajuda a completar o código automaticamente enquanto o escrevem. Também é importante ter em mente que essas empresas tendem a ter isso como principal negócio. Elas geram alto fluxo de caixa, para que possam financiar essas despesas de capital. Isso também está alavancando a IA. Há muitas maneiras de monetizar a tecnologia no que se refere ao hardware da equação. As empresas de semicondutores e equipamentos para semicondutores permanecem bem-posicionadas. Eles estão possibilitando o uso contínuo e melhorado dessa tecnologia, fornecendo os chips, o equipamento, a rede, o hardware necessário no treinamento e uso da IA.

Essa tendência provavelmente é bem compreendida e estamos cientes dos potenciais riscos de curto prazo relacionados a tarifas e controles de exportação. Estamos em um ambiente de mercado que exige uma análise cuidadosa desses fatores de risco. No geral, a IA representa uma oportunidade de crescimento secular e deve impulsionar tendências financeiras mais fortes nos próximos anos para muitos players.

DM: Você vê a IA como uma oportunidade de crescimento e destaco aqui dois pontos comentados por você. Se olharmos as expectativas de ganhos para o setor no ano passado, ele tem estado em uma tendência de alta bastante constante em contraste com muitos outros setores. Outro ponto, quando você menciona investimento de capital, é a importância que isso tem para a economia dos EUA. Se você observar o crescimento no primeiro trimestre, houve uma fraqueza notável na demanda do consumidor, mas isso foi compensado em grande parte pelo investimento empresarial. Uma grande parte desse investimento empresarial ocorreu nos setores de tecnologia e software. Então, para encerrarmos, minha última pergunta é se existem outros possíveis beneficiários da IA generativa que podem ser subestimados pelo mercado?


DG: Empresas de alta qualidade, com dados proprietários e poucos concorrentes, estão bem-posicionadas para se beneficiar da IA generativa, mas isso ainda é subestimado pelos investidores. Esses tipos de negócios podem ser encontrados em qualquer setor, mas são particularmente prevalentes no setor de soluções de informação. As empresas podem liberar todo o potencial desses dados com a IA desenvolvendo novos produtos, como ferramentas de análise preditiva, por exemplo, o que pode impulsionar a receita bruta.

A segunda maneira pela qual essas empresas podem se beneficiar é aumentando a produtividade internamente ou reduzindo custos. A IA é excelente para automatizar fluxos de trabalho, por exemplo, em áreas como atendimento ao cliente, vendas e desenvolvimento de aplicativos. As empresas com poucos concorrentes podem optar por usar a IA em departamentos como estes. É uma oportunidade para eles expandirem suas margens. E, finalmente, esse possível benefício pode sinalizar em uma ampliação de negócios nos mercados. Não serão apenas as empresas de tecnologia e semicondutores de grande capitalização que devem se beneficiar da IA generativa, esperamos que haja diversos outros negócios, incluindo aqueles que operam fora do setor de TI.

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BNP Paribas Asset Management

A BNP Paribas Asset Management é a gestora de recursos do BNP Paribas, grupo financeiro líder na Europa com atuação global. Com mais de € 600 bilhões de euros sob gestão, presença em 30 países e uma equipe com mais de 3.300 profissionais, a gestora oferece soluções de investimento diversificadas, cobrindo múltiplas classes de ativos. A gestora possui uma abordagem integrada de investimento responsável com foco na geração de retornos sustentáveis de longo prazo.

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