06 jun 2026
Warren Buffett costuma dizer que, quando recebe um memorando de Howard Marks no e-mail, essa é a primeira coisa que abre e lê. É um elogio raro vindo de um homem que leu praticamente tudo o que já se escreveu sobre investimentos no último século. E é também uma pista sobre quem é Howard Marks e porque vale a pena conhecer o que ele tem a dizer. Cofundador da Oaktree Capital, uma das maiores gestoras do mundo especializadas em crédito, Marks construiu uma reputação de quatro décadas escrevendo aos seus clientes memorandos longos, detalhados e desconcertantemente honestos sobre o que está acontecendo nos mercados. Em 2011, ele compilou a essência desse pensamento em um livro que se tornou referência obrigatória para investidores de todos os níveis: O Mais Importante para o Investidor.
O livro não é um manual técnico. Não ensina a ler balanços nem a montar uma carteira. O que ele faz, com uma clareza incomum, é desmontar a forma como a maioria das pessoas pensa sobre investimento e reconstruir uma forma mais honesta, mais realista e, no fim, mais útil de enxergar o mercado. Para o investidor que está começando essa jornada — especialmente quem quer entender como os mercados realmente funcionam antes de colocar dinheiro em qualquer coisa — há poucos livros mais valiosos. Vale menos pela técnica e mais pela lente. E é sobre essa lente que quero falar.
A primeira lição que Marks entrega, logo no capítulo de abertura, é talvez a mais importante do livro inteiro: existe uma diferença fundamental entre o pensamento de primeiro nível e o que ele chama de pensamento de segundo nível. Pensar em primeiro nível é dizer “essa é uma boa empresa, vou comprar”. Pensar em segundo nível é perguntar: se essa é uma boa empresa, todos os outros investidores já sabem disso, e o preço já reflete esse consenso?
A implicação prática dessa ideia é incômoda para quem está começando. Se você compra o que todo mundo considera bom, pelo preço que todo mundo está pagando, o melhor que pode acontecer é ter um desempenho médio. Para ganhar acima do mercado, não basta estar certo — é preciso estar certo em algo em que a maioria está errada. E isso não tem nada a ver com inteligência ou com acesso a informação privilegiada. Tem a ver com estar disposto a pensar de forma diferente quando todos ao seu redor pensam igual. É um exercício psicológico muito mais difícil do que parece.
A segunda grande lição de Marks talvez seja aquela com o maior poder de mudar decisões práticas no dia a dia. Ela está resumida em uma frase que aparece diversas vezes ao longo do livro: nenhum ativo é tão bom que não possa se tornar um mau investimento se for comprado a um preço alto demais, e nenhum ativo é tão ruim que não possa ser um bom investimento se for comprado a um preço baixo o suficiente.
Essa afirmação destrói uma ideia muito comum entre investidores iniciantes: a de que existem “ações boas” e “ações ruins”. Não existem. O que existe são bons preços e maus preços para determinadas empresas. O exemplo mais didático que Marks usa é o das chamadas Nifty Fifty — cinquenta empresas americanas consideradas excepcionais nas décadas de 1960 e 1970, com nomes como IBM, Xerox e Kodak. Eram, de fato, empresas excepcionais. O problema é que os investidores pagaram por elas preços tão altos que, quando o mercado corrigiu no início dos anos 1970, quem havia comprado no topo perdeu cerca de 90% do capital. As empresas não eram ruins. O preço é que era.
O investidor que entende essa lição para de perguntar “essa empresa é boa?” e começa a perguntar “essa empresa está barata em relação ao que ela vale?”. Essa mudança de pergunta é simples, mas reorganiza toda a forma como se olha para o mercado.
Uma das contribuições mais originais de Marks em O Mais Importante para o Investidor é a forma como ele trata o conceito de risco. A academia clássica define risco como volatilidade — ou seja, a amplitude das variações de preço de um ativo ao longo do tempo. Marks discorda frontalmente dessa definição, e o argumento dele é simples: ninguém nunca recusou um investimento porque o preço oscila no trimestre. As pessoas recusam investimentos porque têm medo de perder dinheiro permanentemente.
Essa redefinição tem consequências imediatas para quem está começando. Primeira: você para de confundir “ativo que balança muito” com “ativo arriscado”. Um imóvel pode nunca ter cotação visível e ainda assim ser um péssimo investimento. Uma ação pode balançar muito no curto prazo e ser uma escolha excelente no horizonte de cinco anos. Segunda consequência, e essa é talvez a mais importante: risco não é medido pelo que aconteceu, mas pelo que poderia ter acontecido. Um investimento que deu certo pode ter sido temerário — apenas teve sorte. Um que deu errado pode ter sido prudente — apenas atravessou um cenário adverso que era improvável. Julgar a qualidade de uma decisão apenas pelo resultado é um erro clássico, e Marks dedica páginas bonitas a explicar por quê.
Se existe um tema que atravessa o livro inteiro e serve de eixo para tudo o mais, é o dos ciclos. Marks insiste em uma ideia que parece óbvia, mas é sistematicamente ignorada pelos investidores: mercados não se movem em linha reta. Economias, lucros corporativos, crédito e — principalmente — a psicologia coletiva dos investidores se movem em ondas. Expansão, euforia, excesso, contração, pânico, recuperação. O mesmo ciclo se repete há séculos, com roupagens diferentes, mas com uma estrutura idêntica.
A parte mais poderosa dessa análise é o ciclo de crédito, ao qual Marks dedica atenção especial. A sequência é sempre a mesma: a economia vai bem, os credores se sentem seguros, emprestam mais e cobram menos, os padrões de concessão afrouxam, o capital acaba chegando a devedores que nunca deveriam recebê-lo. Quando as primeiras perdas aparecem, o movimento inverte com violência: crédito seca, inadimplência dispara, empresas quebram, o pânico reforça o pânico. Os piores empréstimos são feitos nos melhores momentos — essa é a frase que Marks cita e que resume tudo.
Essa lição explica a crise imobiliária americana de 2008 com precisão cirúrgica, mas também explica os ciclos de crédito brasileiro, os ciclos das empresas de tecnologia nos anos 2000, as bolhas de mercados emergentes dos anos 1990 e qualquer crise financeira que virá nas próximas décadas. Para o investidor iniciante, a implicação prática é enorme: o nível de otimismo do ambiente é um sinal importante. Quando ninguém está preocupado, é hora de você ficar.
Marks é muito enfático em um ponto: a maior fonte de erros nos investimentos não está nos números, está no investidor. Ganância, medo, inveja, impaciência, a tentação de fazer o que “todo mundo está fazendo”, o excesso de confiança depois de alguns acertos. Essas forças funcionam o tempo todo e afetam todos os investidores, até os mais experientes. A diferença entre quem constrói patrimônio no longo prazo e quem não constrói não é quem domina mais técnica, é quem controla melhor a própria psicologia.
O livro dedica vários capítulos a essa questão, explorando o que ele chama de “pêndulo” — o movimento oscilatório da psicologia coletiva do mercado, que passa muito pouco tempo no centro e muito tempo nos extremos. Euforia leva a depressão, depressão leva a euforia, e o investidor que consegue reconhecer em que ponto do pêndulo está consegue agir na direção oposta da multidão nos momentos certos.
O Mais Importante para o Investidor é um livro que envelhece bem porque trata de coisas que não mudam. As tecnologias mudam, os produtos financeiros mudam, as regulações mudam, mas o comportamento humano diante do dinheiro permanece estável há séculos. E é sobre esse comportamento que Marks constrói toda a sua filosofia.
Para o investidor iniciante que está começando a diversificar patrimônio e a entender como o mercado funciona, as lições centrais de Howard Marks se traduzem em três perguntas simples que você pode carregar para qualquer decisão: Estou pensando diferente do consenso, ou estou apenas repetindo o que todo mundo já sabe? O preço que estou pagando faz sentido em relação ao valor real do ativo? E o ambiente ao meu redor está eufórico demais ou pessimista demais?
Se você conseguir responder essas três perguntas com honestidade antes de cada decisão, você já aplicou 80% do que Marks tem a ensinar. O outro vinte por cento vem com o tempo — e com a leitura do livro inteiro, que continua sendo um dos melhores investimentos que um investidor iniciante pode fazer com algumas horas do seu fim de semana.
Referências
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