25 ago 2025
Por Christopher Galvão, Analista de Fundos na Nord Investimentos
Em setembro de 2024, o Banco Central dos EUA (Federal Reserve) iniciou um processo de flexibilização monetária com um corte de juros agressivo de 0,50 ponto percentual, levando a taxa para o intervalo de 4,75% a 5%.
A medida aumentou as esperanças do mercado sobre um ambiente de juros mais baixos, como efeito da desaceleração da atividade econômica e da inflação.
Na época, inclusive, o mercado discutia uma possível recessão nos EUA e, dessa forma, aprovou o movimento do Fed.
No entanto, poucos meses depois, vimos uma reaceleração dos dados de atividade, especialmente no mercado de trabalho. Consequentemente, um ciclo prolongado de queda de juros não se materializou, e o último corte aconteceu em dezembro de 2024, alcançando o atual patamar de 4,25% a 4,50% a.a.

[Fonte: Bloomberg. Elaboração Nord Investimentos]
No entanto, recentemente todos foram surpreendidos com a última divulgação do Payroll, o principal dado de mercado de trabalho americano.
O Payroll de julho mostrou a criação de 73 mil vagas, abaixo das expectativas de 104 mil. No entanto, o que mais chamou a atenção não foi o resultado de julho abaixo do esperado e sim as fortes revisões para baixo dos meses anteriores. Junho foi revisado de 147 mil para 14 mil, enquanto maio passou de 144 mil para 19 mil.

[Fonte: Zerohedge]
O Payroll costuma mostrar revisões dos meses anteriores, mas não nessa magnitude, o que chamou a atenção do mercado.
Essas revisões estão relacionadas à metodologia do dado. O Payroll precisa compilar os dados do relatório em menos de duas semanas, o que exige que empresas e famílias respondam rapidamente às pesquisas. Dessa forma, as companhias ainda têm mais dois meses para responder e, conforme as respostas chegam ao relatório, os dados são revisados.
Além disso, hoje o relatório tem uma menor quantidade de respostas. No dado mais atual, apenas 58% das empresas pesquisadas enviaram suas respostas a tempo. Dez anos atrás, essa taxa era de 83%.
Para completar, essas revisões de maio e junho foram ocasionadas principalmente pelas revisões nas vagas públicas, especialmente nas redes de educação.
O Payroll, portanto, mudou a interpretação sobre a resiliência nos empregos criados. Dessa forma, o número de vagas do Payroll passou a acompanhar os dados mais fracos que o ADP (outro dado importante sobre mercado de trabalho) já vinha apresentando nos últimos meses.

[Fonte: Bloomberg. Elaboração Nord Investimentos]
Como consequência, hoje o mercado precifica 90% de probabilidade de corte de juros de 0,25 p.p. na próxima reunião do Fed, em setembro.
Para os próximos 12 meses, o mercado precifica um ciclo de corte de 1,15 p.p., o que levaria a taxa para patamares mais próximos do nível neutro de aproximadamente 3%.

[Fonte: Bloomberg. Elaboração Nord Investimentos]
Apesar do fraco número de vagas do Payroll, o relatório continua apontando para um desemprego próximo das mínimas históricas, em uma taxa de 4,2%.

[Fonte: Bloomberg]
Na minha visão, mesmo que as vagas do Payroll continuem em níveis mais baixos, a taxa de desemprego tende a permanecer baixa, em razão da menor oferta de mão de obra como reflexo das maiores restrições à imigração.
Já temos visto, inclusive, novas quedas na taxa de participação.

[Fonte: Bloomberg. Elaboração Nord Investimentos]
Ou seja, a economia como um todo está realmente desacelerando, mas não para um cenário de recessão.
A manutenção da taxa de desemprego a níveis historicamente baixos demanda atenção para os salários e, consequentemente, para a inflação.
O último dado de inflação ao consumidor, medido pelo CPI de julho, mostrou uma alta do núcleo de 0,32%, o maior resultado desde janeiro (0,45%) — mas em linha com as expectativas.
Os últimos dados de CPI (inflação ao consumidor) vêm apresentando números mais fracos. No entanto, ao separarmos a parte mais resiliente da inflação da parte mais volátil, vemos uma diferença importante. O Fed de Atlanta calcula o “sticky-price CPI”, que representa a parcela da inflação que demora mais para reagir. Além disso, calcula o “flexible CPI”, a parcela mais volátil.
Enquanto o núcleo do flexible CPI apresenta uma queda de 2,8% nos últimos 3 meses (anualizado), o núcleo do sticky CPI acelerou e acumula uma alta de 3,8%.

Uma das principais atenções na inflação continua sendo os preços de Shelter (aluguel e serviços habitacionais), que possuem o maior peso no cálculo do índice e ainda acumula uma alta de 3,64% nos últimos 12 meses, apesar do processo em curso de desaceleração gradual.

Mas o principal ponto de atenção para a inflação de curto prazo ainda está por vir nos próximos meses, com os efeitos das tarifas, que, inclusive, começam a apresentar os primeiros sinais sobre os preços de bens.
O próprio Federal Reserve, inclusive, aumentou sua projeção de inflação para este ano de 2,7% para 3%. Além disso, de acordo com as projeções do Fed, a inflação seria de 2,4% em 2026 e só alcançaria a meta em 2027.
Ou seja, no momento, o Fed se encontra em uma situação difícil: cortar juros mesmo em meio a um choque das tarifas sobre a inflação?
O discurso de Jerome Powell, presidente do Fed, no Jackson Hole, no último dia 22 de agosto mostra que sim: o Fed está aberto a iniciar os cortes de juros.
Powell reconheceu os riscos de alta da inflação devido às tarifas, mas considera mais provável ser um choque transitório. Além disso, ressaltou que a mudança no balanço de risco pode justificar um ajuste nos juros.
Como um todo, Powell passou a adotar uma postura mais dovish, ou seja, direcionada a juros mais baixos.
Na minha visão, o Fed tem espaço para ir com cautela no processo de corte de juros. Caso os efeitos secundários do choque das tarifas na inflação não se apresentem como um ponto de atenção, a autoridade monetária poderia acelerar o processo de flexibilização monetária.
Tudo isso é cena dos próximos capítulos.
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