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Dólar e eleições no Brasil: o que a história mostra sobre o câmbio em anos eleitorais

02 set 2026

Resumo

Todo ano de eleição presidencial no Brasil, a mesma pergunta aparece: o dólar vai subir? A resposta certa é mais sutil do que sim ou não. O que os dados históricos mostram, ao longo de seis ciclos eleitorais, é que o real tende a se desvalorizar no período pré-eleitoral – mas, na maior parte das vezes, isso acompanha um dólar que também está se fortalecendo no mundo todo, por razões que não têm relação com a eleição brasileira isoladamente.

Entender esse padrão ajuda você a olhar para o seu próprio patrimônio com mais clareza, independentemente de quem você vai votar em outubro.

Neste artigo, você vai ver o que os dados de 2002 a 2022 revelam sobre o comportamento do dólar frente ao real em anos eleitorais, o que nesse movimento é explicado pelo cenário global e o que é genuinamente doméstico, por que o ajuste fiscal pesa mais do que o resultado das urnas, e o que tudo isso tem a ver com a forma como você organiza a sua vida financeira, dentro e fora do Brasil.

Esse não é um texto sobre política. A Avenue não indica qual candidato é melhor para o mercado nem faz qualquer tipo de previsão sobre o resultado das urnas. Este é um texto sobre um padrão histórico de mercado, e sobre como quem tem parte do patrimônio em dólar atravessa esse padrão com mais equilíbrio.

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O que os últimos seis ciclos eleitorais mostram – e o que é só a foto

Um levantamento do Banco Central, do TSE e do ICE U.S. Dollar Index mostra que, na maioria dos ciclos eleitorais desde 2002, o real se desvalorizou nos seis meses antes do 1º turno – de forma relevante em quatro dos seis ciclos. Mas esse número, isolado, é só a foto. O que importa é o que está por trás de cada retrato: na maior parte dos ciclos, essa desvalorização acompanha um dólar que também estava se fortalecendo no mundo todo, por razões que nada têm a ver com a eleição brasileira.

Veja o que aconteceu em cada ciclo, comparando o movimento do real com o comportamento do dólar globalmente (medido pelo DXY, o índice que mede a força do dólar frente a uma cesta de moedas fortes):

Elaboração: Avenue

Excluindo 2002 (um ano de fragilidade externa atípica que não se repetiu depois), o USD/BRL se moveu numa faixa parecida com a do próprio dólar global no mesmo período – sinal de que, fora aquele ano, o câmbio segue muito mais o mundo do que a política doméstica.

Fonte: Banco Central do Brasil (PTAX) via Yahoo. Desempenho passado não garante resultados futuros.

O que se repete de eleição para eleição não é a direção do dólar, nem é sempre a eleição em si. O que se repete é que, quando existe dúvida sobre a condução da política econômica, o mercado tende a precificar essa incerteza antes mesmo do resultado confirmar se ela era justificada. A proteção cambial não é uma aposta no resultado das urnas – é uma resposta à incerteza em si, e, na maior parte das vezes, ao contexto global por trás dela.

Por que a incerteza tende a aumentar no segundo semestre

O histórico mostra que o mercado tende a precificar a incerteza antes do resultado confirmar se ela era justificada. Esperar não elimina o risco, só reduz a janela para se proteger com custo baixo.

Em 2014, por exemplo, um componente doméstico ligado à incerteza da reeleição, somado a uma alta global do dólar, elevaram a desvalorização do real  daquele ano. Em 2018, foi um evento pontual – a greve dos caminhoneiros em maio – que se somou à incerteza pré-eleitoral e ao cenário externo mais turbulento.

A implicação prática: quem espera para diversificar ‘quando as coisas acalmarem’ frequentemente descobre que o melhor momento já passou.

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O ajuste fiscal: o que pesa de forma estrutural, independentemente de quem vencer

Entre todos os fatores deste artigo, o fiscal é o mais estrutural e o menos dependente de interpretação política – no fundo, é matemática de dívida pública, que qualquer governo eleito em 2026 vai precisar enfrentar a partir de 2027.

A dívida bruta do governo geral está em 81,9% do PIB (junho de 2026), partindo de um piso de 51,5% em dezembro de 2013. Para estabilizar a dívida no nível atual, seria preciso um superávit primário de 2,1% do PIB ao ano – hoje o resultado primário é um déficit de 1,2% do PIB, um esforço de cerca de 3,3 pontos percentuais. Esse número não é fixo: ele sobe ou desce com o crescimento econômico e os juros, não com o resultado da eleição.

Independentemente de quem for eleito em 2026, o próximo mandato começa com a mesma régua. É esse ajuste – e não o resultado das urnas – que pesa de forma estrutural sobre o valor da moeda e dos investimentos em reais pelo caminho.

Fonte: Banco Central, IFI/Senado (RAF nº 113).

O risco não nasce e nem termina com a eleição

É importante entender que a volatilidade política brasileira não está restrita ao calendário eleitoral. Desde a redemocratização em 1985, o Brasil teve oito presidentes. Dois sofreram impeachment (Fernando Collor e Dilma Rousseff) e um enfrentou um escândalo que quase o derrubou (Michel Temer). Em 2016, após o impeachment de Dilma, o Brasil chegou a ter três presidentes diferentes em um intervalo de apenas 24 horas.

Essa imprevisibilidade estrutural, que vai além do calendário eleitoral, ajuda a explicar por que trocas de ministros, mudanças na presidência do Congresso e decisões regulatórias inesperadas também podem gerar volatilidade em qualquer momento, eleitoral ou não.

Um exemplo recente: em maio de 2025, o governo publicou decreto elevando o IOF sobre remessas ao exterior – o Congresso suspendeu o decreto, e o STF o restabeleceu. Em menos de dois meses, essa alíquota mudou quatro vezes. Quem estava com planos de organizar parte do patrimônio no exterior teve esses planos alterados de um dia para o outro, por uma decisão tomada sem aviso prévio.

Outro episódio ilustra bem como um evento político pontual, e não necessariamente eleitoral, pode mover o mercado em questão de horas: em 18 de maio de 2017, uma única reportagem política fez o Ibovespa cair quase 9% em um único pregão, a maior queda em fechamento em cerca de nove anos. O dólar disparou 8% frente ao real no mesmo dia, a maior alta diária em 14 anos, e a negociação chegou a ser temporariamente suspensa por circuit breaker. Não foi uma eleição. Foi um único dia.

O que o risco-país tem a ver com isso

Uma forma de entender por que o mercado reage tão fortemente a esses episódios é observar o Risco-Brasil, medido pelo CDS de 5 anos – o custo que o mercado exige para se proteger de um eventual calote do governo brasileiro. Em 2025, esse indicador chegou a 214 pontos no início do ano, recuando para cerca de 116 pontos em maio de 2026, o menor nível do atual governo. Mesmo assim, historicamente, a simples proximidade do calendário eleitoral tende a reintroduzir pressão sobre esse indicador.

O Brasil também carrega nota de crédito “especulativa” pelas três principais agências globais: S&P e Fitch classificam o país em BB e BB-, respectivamente, e a Moody’s em Ba1, todas abaixo do grau de investimento. Para dar uma dimensão prática: países como Chipre, Botsuana e Cazaquistão, dificilmente associados a solidez financeira no imaginário do brasileiro médio, têm nota de crédito melhor que a do Brasil. O Paraguai foi promovido ao grau de investimento em dezembro de 2025.

Isso não é uma crítica ao Brasil – é o retrato dos fundamentos estruturais que as agências de risco enxergam no país, e que ajudam a explicar por que o câmbio brasileiro tende a ser mais sensível a episódios de instabilidade política do que o de economias com fundamentos mais sólidos.

Leia também: Risco cambial: por que a dolarização pode ser sua aliada

Diversificação não é fuga, é construção

Ter parte do patrimônio em dólar não é uma aposta contra o Brasil, e não é sobre prever quem vai ganhar a eleição. É a mesma lógica que leva qualquer investidor consciente a não concentrar 100% dos ativos em um único país.

A NYSE e a Nasdaq respondem juntas por mais de 40% do valor acionário mundial – a maior concentração de qualquer país no mundo. O mercado americano tem setores inteiros que não existem na B3, como big techs, empresas de inteligência artificial e biotecnologia, crescendo independentemente do ciclo político brasileiro. Enquanto isso, na B3, commodities e bancos respondem por cerca de 40% a 50% do índice – a mesma concentração de vinte anos atrás.

Reconhecer que a incerteza eleitoral e a imprevisibilidade política brasileira tendem a pressionar o real não é sobre prever quem vai ganhar a eleição. É sobre reconhecer que quem já tem parte dos recursos em moeda forte atravessa esse período com mais equilíbrio, independentemente do resultado nas urnas.

O cenário político não está nas suas mãos. A composição do seu patrimônio, sim.

🔗 Como funciona investir no mercado americano a partir do Brasil

Conclusão

Os dados de seis ciclos eleitorais mostram um padrão: não é que o dólar sempre suba nas eleições brasileiras, e quando sobe, na maior parte das vezes isso acompanha um dólar que também está se fortalecendo no mundo todo – não a eleição brasileira isoladamente. O que pesa de forma estrutural, independentemente de quem vencer, é o ajuste fiscal que o próximo governo vai precisar enfrentar, além de episódios pontuais como a mudança do IOF em 2025, que podem acontecer a qualquer momento, eleitoral ou não.

Para quem organiza a vida com um olhar mais global, entender esse padrão é parte de tomar decisões financeiras com mais equilíbrio e menos dependência de um único cenário.

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FAQ

O dólar sempre sobe em ano de eleição no Brasil?

Não necessariamente. Em três dos seis ciclos eleitorais analisados (2002, 2014, 2022), o dólar subiu com força. Nos outros três (2006, 2010, 2018), o movimento foi de estabilidade ou até valorização do real. O que se repete não é a direção, é o aumento da incerteza – e boa parte da alta do dólar, quando ocorre, é explicada pelo comportamento do dólar no mundo todo, não só pela eleição brasileira.

Se eu esperar o resultado da eleição para decidir, eu perco alguma coisa?

Historicamente, o mercado tende a precificar a incerteza antes do resultado confirmar se ela era justificada. Esperar não elimina o risco, apenas reduz a janela para se proteger com um custo mais baixo.

Ter parte do patrimônio em dólar é uma aposta política?

Não. O argumento fiscal e o padrão de choques cambiais valem independentemente de quem for eleito – é gestão de risco patrimonial, não previsão eleitoral.

Por que o Brasil tem nota de crédito pior que países menos conhecidos, como Chipre ou Cazaquistão?

A nota de crédito reflete os fundamentos estruturais que as agências de risco enxergam: nível de dívida pública, trajetória fiscal e histórico de estabilidade política. O Brasil está classificado como “grau especulativo” (BB pela S&P), abaixo do grau de investimento mínimo.

O que é o Risco-Brasil (CDS)?

É o custo que o mercado exige para se proteger de um eventual calote do governo brasileiro. Quanto maior o CDS, maior a percepção de risco do país pelos investidores globais.

Diversificar em dólar significa estar “contra” o Brasil?

Não. É a mesma lógica de qualquer estratégia de diversificação de portfólio: não concentrar todo o patrimônio em um único país, moeda ou classe de ativos.

Disclaimers

O investimento internacional envolve riscos especiais, incluindo flutuações cambiais, diferentes padrões de contabilidade financeira e possível volatilidade política e econômica. Desempenho passado não garante resultados futuros. Este material possui caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento.

Oferta de serviços intermediada por Avenue Banco de Investimentos. Avenue Securities Banco de Investimento S.A. (“Avenue Banco de Investimentos”) é um banco de investimentos, devidamente autorizado pelo Banco Central do Brasil (“BCB”) e pela Comissão de Valores Mobiliários (“CVM”). Veja todos os avisos importantes: https://avenue.us/termos/.

A Avenue Securities LLC é membro da FINRA e da SIPC. Oferta de serviços intermediada por Avenue Securities Banco de Investimento S.A. Veja todos os avisos importantes sobre investimento: https://avenue.us/termos/.

Redação Avenue

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