15 set 2026
O mundo mudou de eixo. Depois de décadas em que a economia e a cooperação internacional davam o tom das relações entre os países, agora é a segurança que passou a organizar o jogo geopolítico, entre Estados Unidos e China, no Oriente Médio e também no tabuleiro doméstico brasileiro, às vésperas das eleições de 2026.
Foi esse o pano de fundo do painel “O Tabuleiro Global e a Urna Brasileira: Geopolítica, Risco Brasil e Eleições 2026”, no Main Stage do Avenue Connection 2026, com Alberto Pfeifer, especialista em estratégia internacional e geopolítica, e Marcela Rocha, Chief Investment Officer da Avenue Gestão de Recursos. Os dois conectaram a disputa de poder entre grandes potências ao dia a dia de quem já pensa e investe sem fronteiras.
Neste artigo, você entende: por que a ordem multilateral perdeu força, como o conflito no Oriente Médio pode chegar até a sua carteira, onde o Brasil se encaixa nesse novo tabuleiro e o que observar nas eleições brasileiras além do nome de quem vai vencer.

Segundo Pfeifer, o giro começou a ganhar força há cerca de 25 anos, quando os Estados Unidos revisaram sua doutrina de segurança nacional após o 11 de setembro de 2001, e se consolidou nos últimos anos. “Hoje o mundo é um mundo calcado na visão unilateral de uma disputa hegemônica entre Estados Unidos e China, no qual a ordem multilateral perde eficácia”, resumiu.
Na leitura do especialista, os dois países disputam a hegemonia por caminhos diferentes: os americanos priorizam a projeção de poder pelo mundo, enquanto a China busca garantir o próprio abastecimento, de energia a alimentos. O episódio recente das cúpulas do BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai foi citado como sinal de que outros países já buscam alternativas ao poder americano.
O painel também passou pelo conflito entre Estados Unidos e Irã, que já dura mais de seis meses, e por seus efeitos práticos: o tensionamento em dois estreitos estratégicos, Hormuz, por onde passa boa parte do petróleo do Golfo, e Bab-el-Mandab, porta de entrada para o Canal de Suez. Segundo Pfeifer, uma escalada nesses pontos pode pressionar custos logísticos e inflação global, uma combinação prejudicial para o crescimento: preços mais altos e economia mais lenta.
Já a corrida tecnológica, sobretudo em inteligência artificial e, mais adiante, em computação quântica, apareceu como a peça que pode decidir quem sai na frente na disputa entre as duas potências. “A chave para entender quem vai dar o passo dianteiro é a inteligência artificial”, afirmou o especialista, lembrando que o acesso à energia barata e a minerais críticos também pesa nessa equação.
Para Pfeifer, o Brasil reúne vantagens pouco comuns nesse cenário mais fragmentado: é exportador líquido de petróleo, domina tecnologia para agricultura tropical e tem grande disponibilidade de água, um recurso cada vez mais estratégico. “O Brasil tem todo o potencial para se inserir de uma maneira mais positiva nesse mundo”, disse.
Mas o painel também apontou dois pontos de atenção que vêm de fora para dentro. O primeiro é a doutrina americana que trata todo o continente como zona de prioridade dos Estados Unidos, o que exige cautela em qualquer aproximação assimétrica com a China. O segundo é a expansão do crime organizado brasileiro para fora das fronteiras do país, o que passou a ter repercussão direta no ambiente de negócios, com organizações classificadas pelos Estados Unidos como organizações terroristas estrangeiras.
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Ao entrar no cenário doméstico, Pfeifer chamou atenção para a arquitetura do processo eleitoral brasileiro: cada eleitor vota até seis vezes no primeiro turno, somando todos os cargos. Na visão do especialista, o resultado da eleição presidencial dependerá menos de quem vence a corrida e mais da composição do Congresso e dos governos estaduais, já que boa parte da agenda econômica e de segurança pública passa por esses dois níveis.
Segurança pública, um tema estadual por definição, surgiu como preocupação inédita nesse ciclo eleitoral, ao lado do custo de vida. Segundo o especialista, entre 20% e 25% da população brasileira convive hoje com territórios sob influência do crime organizado, um dado que ajuda a explicar por que o tema ganhou tanto peso na disputa.
A leitura dos dois especialistas reforça um princípio que já é familiar para quem acompanha o Connection: em um mundo com mais fricções geopolíticas, diversificar geograficamente deixa de ser só uma estratégia de rentabilidade e passa a ser também uma forma de reduzir a dependência de um único cenário econômico e político.
Isso não significa prever o próximo evento geopolítico, ninguém consegue, mas sim montar uma carteira menos dependente de um único país ou moeda para atravessar os períodos de maior incerteza.
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O painel deixou um recado direto para quem já pensa em vida global: a fragmentação geopolítica não é um evento pontual, é um novo normal, e o Brasil tem cartas relevantes para jogar nesse tabuleiro, mesmo com a incerteza das urnas em 2026. Entender esse contexto é parte do trabalho de quem quer preservar o patrimônio das incertezas locais, indo além das fronteiras do país.
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