16 set 2026
No Avenue Connection 2026, Daniel Vargas (Moneda Asset Management) apresentou dados próprios mostrando por que, na leitura dele, os bonds latino-americanos em dólar pagam mais – e com menos risco de crédito do que parece.
Você já parou pra pensar que parte dos seus gastos futuros – viagem, carro, eletrônico – já é precificada em dólar, mesmo quando você paga a conta em reais? Foi esse tipo de pergunta que guiou a palestra de Daniel Vargas, gestor da Moneda Asset Management, na Trilha Cenário Global do Avenue Connection 2026. Para ele, os bonds corporativos latino-americanos em dólar formam uma das classes de ativo mais atrativas do mundo emergente hoje, segundo os 25 anos de dados de mercado que ele trouxe para sustentar esse argumento.
O recado vale tanto para quem já tem uma carteira internacional quanto para quem está pensando em dar o primeiro passo fora do Brasil: entender onde está o spread pode pesar tanto quanto entender pra onde vai o câmbio. Para uma base sobre o tema, veja 🔗 o que são bonds americanos e como funcionam e 🔗 diversificação internacional: por que e como fazer.
O ponto de partida de Vargas foi o yield. Segundo ele, os bonds corporativos latino-americanos rendem, em média, aproximadamente 7% ao ano hoje – um spread de cerca de 200 pontos-base acima dos treasuries americanos, que pagam em torno de 5%. Pode parecer pouco, mas, segundo os dados apresentados por Vargas, esse spread, mantido por 25 anos, muda o resultado de uma carteira: os bonds latino-americanos teriam acumulado mais de 400% de retorno no período, contra cerca de 300% dos corporates de outros mercados emergentes.
Ele também citou a correlação como argumento de diversificação: os bonds latino-americanos têm correlação considerada alta com ativos americanos (cerca de 0,8), mas próxima de zero, ou até negativa, com o CDI. Para quem já tem a maior parte do patrimônio em reais, é uma classe de ativo que se comporta de um jeito diferente – o que ajuda a equilibrar a carteira como um todo.
Vargas mostrou um gráfico com as principais crises que a região atravessou desde 2001: a crise argentina, a crise financeira global, a Covid-19, a crise da Dilma no Brasil e a guerra entre Rússia e Ucrânia. Em todas elas, segundo ele, o preço dos bonds caiu – e, depois, recuperou.
Em outras palavras, na leitura do gestor, o retorno depende menos do timing de compra e venda e mais de ficar posicionado na classe de ativo certa por um período longo.
Essa foi, talvez, a parte do painel mais próxima do dia a dia de quem acompanha o Connection sem ser especialista em mercado. O argumento de Vargas: quem tem dinheiro guardado também tem, mais cedo ou mais tarde, gastos em dólar. Viagem, carro, eletrônico – até uma passagem aérea dentro do Brasil embute custo em dólar, porque o avião e o combustível são precificados na moeda americana, ainda que a cobrança final seja em reais.
Para ilustrar, ele comparou os últimos cinco anos: os bonds latino-americanos como um todo teriam rendido próximo de 6% ao ano em dólar, e o CDI em dólar ficou perto de 5% ao ano – mesmo com o CDI em reais rodando em dois dígitos nos últimos anos. Vale reforçar: desempenho passado não é garantia de resultado futuro, e a comparação depende do período observado. Se esse tipo de conta te interessa, veja quanto está o dólar agora em 🔗 Dólar Hoje.
Esse foi o bloco de dados mais denso do painel, e o argumento central da tese de Vargas. Segundo os números que ele apresentou, em 30 anos de histórico, a taxa de calote no high yield latino-americano foi de 2,5% ao ano, contra 4,3% no high yield americano – quase o dobro. Ao mesmo tempo, o spread pago pelos bonds latino-americanos de high yield chegaria a 600 pontos-base, contra cerca de 500 pontos-base nos Estados Unidos.
Ele também citou o rating médio (BB- na América Latina, contra B+ nos Estados Unidos) e a alavancagem média das empresas (citada como 3x na região, contra 5,5x nos Estados Unidos) como sinais adicionais de qualidade de crédito, segundo sua leitura. Vale lembrar: rating, spread e taxa de calote olham pra trás – não garantem nada sobre o futuro de um crédito específico.
Vargas também falou sobre gestão de risco dentro da carteira, um ponto sensível para investidores brasileiros que já compraram crédito corporativo de forma concentrada.
A lição, segundo ele: a diversificação entre muitos emissores – e não a aposta concentrada em um nome só – é o que sustenta o retorno de uma carteira de crédito ao longo do tempo, mesmo quando alguns créditos individuais vão mal. É um princípio que vale além dos bonds: veja 🔗 diversificação internacional para entender como aplicar essa lógica em outras classes de ativo.
Depois de explicar como a gestora administra risco dentro da carteira, Vargas detalhou onde a Moneda prefere concentrar essas apostas hoje. Por país, ele citou preferência por Brasil, México e Colômbia – Chile, seu país de origem, e Peru ficaram de fora, não por falta de qualidade de crédito, mas porque, na leitura dele, o yield pago pelas empresas desses dois países é baixo demais para compensar o esforço de análise. Por setor, a preferência recai sobre indústria e infraestrutura: aeroportos, companhias aéreas, pedágios e a cadeia de fornecedores da Petrobras.
Foi assim, segundo ele, com a Argentina: um país que muita gente evita, mas que teria sido o destaque histórico de desempenho da gestora desde os anos 2000. Sobre o Brasil, Vargas comentou de forma breve o cenário eleitoral de 2026 – apresentado como opinião pessoal dele, e não como recomendação – de que o país tende a estar em uma situação mais favorável daqui a quatro anos, independentemente de quem for eleito, porque o mercado tende a pressionar por ajustes de rota quando necessário.
O painel de Daniel Vargas resume bem o espírito da trilha Cenário Global do Connection 2026: olhar pro mundo não como destino distante, mas como parte de como você já constrói e cuida do seu próprio patrimônio – ideia que também está no centro da Geração Global, tema deste ano do evento. Bonds corporativos latino-americanos em dólar são só um exemplo, entre várias classes de ativo internacionais, dessa conversa mais ampla.
Se a ideia de ter parte do patrimônio em dólar te interessou, comece pelo básico: baixe, de forma gratuita, o 🔗 Patrimônio à prova de câmbio e entenda o que o estudo da FGV mostra sobre dolarização de patrimônio.
Leia também: 🔗 Bonds: o que são e como investir nos títulos americanos?
Por que os bonds corporativos latino-americanos pagam mais que os do resto do mundo?
Porque, segundo o palestrante, a região carrega um spread de crédito mais alto sobre os treasuries americanos – hoje perto de 200 pontos-base -, ligado em parte à percepção de risco da América Latina, e não necessariamente à qualidade real das empresas.
Ter bonds latino-americanos é mais arriscado do que ter high yield americano?
Não necessariamente, segundo a leitura do gestor. Pelos dados apresentados no painel, a taxa histórica de calote das empresas latino-americanas de high yield seria menor do que a das americanas, o que ajudaria a explicar o spread mais alto como remuneração de risco, e não só como desconto por instabilidade.
Por que manter parte do patrimônio em dólar, se o CDI está em um patamar atrativo?
Porque parte dos gastos futuros de quem vive no Brasil – viagem, eletrônico, até parte do transporte – já é precificada em dólar. Ter uma fatia do patrimônio na mesma moeda ajuda a acompanhar esse custo se o real perder valor, independentemente do que acontece com o CDI no momento.
Essa conversa vale só para quem já investe em crédito internacional?
Não. A lógica de diversificação e de olhar o patrimônio em mais de uma moeda vale para qualquer pessoa que está começando a pensar em ter uma vida financeira sem fronteiras, não só para quem já aloca em bonds especificamente.
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