20 maio 2026
Preparar crianças e adolescentes para um mundo que já não cabe dentro das fronteiras de um único país virou uma das grandes conversas da educação. A ideia de “educação global” aparece quando a escola deixa de ser apenas um lugar de transmissão de conteúdo e passa a formar repertório, pensamento crítico, autonomia e habilidades socioemocionais – justamente porque a vida adulta será cada vez mais interconectada, diversa e dinâmica. É nesse contexto que o ensino bilíngue ganha força no Brasil. Segundo o Censo Escolar (Inep), o país já tem mais de 1.500 escolas bilíngues. Além disso, cresce também o interesse por trilhas de educação internacional mais estruturadas. Um exemplo é o International Baccalaureate (IB), fundação educacional sem fins lucrativos sediada na Suíça, com programas reconhecidos mundialmente e foco em pensamento crítico, autonomia e mentalidade global. Hoje, o Brasil tem 84 escolas IB, número que representa um aumento de 75% em cinco anos e 190% em dez anos, segundo a instituição.
Para Antonieta Megale, diretora acadêmica da Maple Bear Brasil, oferecer educação global significa preparar estudantes para compreender e interagir com um mundo social, cultural e economicamente interdependente. “O mercado de trabalho e as oportunidades acadêmicas exigem habilidades para dialogar com diferentes culturas e realidades”, diz. A rede canadense, presente em 37 países, soma 228 escolas em operação e dez em implantação no Brasil em 2026, com alunos da educação infantil ao ensino médio.
Um ponto central é entender que educação bilíngue não é só falar inglês. Kevin Sorger, presidente da Organização das Escolas Bilíngues Internacionais, explica que a imersão consistente nas duas línguas tende a ampliar a capacidade de resolução de problemas e até o desempenho em áreas como matemática e ciências. “Para além de aprender um segundo idioma, a educação bilíngue desenvolve pensamento crítico, flexibilidade cognitiva, autonomia e a facilidade de transitar entre culturas diferentes”, enumera Vanessa Bocchi, coordenadora de internacionalização do Colégio Marista Arquidiocesano (SP). Sabrina Steyer, dean of student life e líder de career and college counseling da Avenues São Paulo, vai na mesma direção: educação global hoje exige mudanças estruturais, com protagonismo do aluno e aprendizagem conectada à vida real. O bilinguismo vira base para o aluno se sentir pertencente ao mundo: “aprender e viver em duas línguas constrói uma identidade mais flexível, confiante e conectada”, conclui.
Um dos conceitos que ajudam a compreender essa transformação é o de Educação para a Cidadania Global (Global Citizenship Education – GCED), defendido pela Unesco. A proposta parte da ideia de que a escola precisa formar estudantes capazes de entender desafios globais, como desigualdades sociais e mudanças climáticas, e agir de forma responsável diante deles. Para Rafael Silva, diretor da Cubo Global School (unidade Golf Barra), que tem três endereços no Rio de Janeiro e quase mil alunos, esse tipo de formação envolve conhecimento sobre o mundo e seus problemas, desenvolvimento de competências como capacidade analítica e diálogo intercultural e, por fim, a construção de valores e atitudes, como empatia e responsabilidade coletiva.
Segundo ele, essa visão ajuda a explicar onde escolas com propostas mais contemporâneas se diferenciam das tradicionais instituições bilíngues ou internacionais. Durante muitos anos, o principal diferencial destas era o idioma. Hoje, no entanto, o inglês passa a ser uma ferramenta para investigar e compreender o mundo. Modelos educacionais mais recentes combinam aprendizagem baseada em projetos, interdisciplinaridade, cultura digital e discussões sobre desafios globais. “Na prática, o estudante não apenas aprende conteúdos em inglês, mas investiga problemas reais, dialoga com diferentes culturas e desenvolve soluções coletivas”, explica.
Essa mudança se reflete nas expectativas das famílias. Há alguns anos, o interesse por escolas bilíngues estava muito associado à vantagem competitiva do inglês para o mercado de trabalho. Hoje, o que muitas famílias buscam é uma formação mais ampla, capaz de preparar os filhos para lidar com tecnologias emergentes, compreender diferentes culturas e participar de debates globais. “Decidimos mudar a Beatriz para uma escola com uma grade real em inglês, que abre portas para ela ser o que quiser quando crescer, tanto no Brasil quanto no mundo. Além disso, acreditamos em uma educação que leva em consideração soft skills tão essenciais nos dias de hoje, sem deixar de lado a individualidade de cada criança”, explica o coordenador de desenvolvimento de software Petrus Abib, brasiliense radicado no Rio de Janeiro.
É a mesma lógica que orientou a decisão da psicóloga Ângela Avelar, que viveu por nove anos com o marido nos Estados Unidos, de buscar escolas bilíngues/internacionais para os filhos Laura, 14 anos, e George, 12. “Com a vivência de educação que eles têm, já estão mais preparados para ganhar o mundo”, acredita. Essa escolha é, afinal, um investimento no futuro.
Nem sempre a opção pela escola bilíngue tem como meta a inscrição em uma universidade fora do país. Mas, cada vez mais, ela é, sim, uma opção para os estudantes brasileiros. Felipe Fonseca, fundador da Daqui pra Fora (consultoria que desde 2001 já preparou mais de 4.500 estudantes para graduação no exterior), resume o que mais pesa: base acadêmica sólida, domínio do idioma do país de destino, preparo para exames exigidos e um currículo de atividades extracurriculares coerentes. Ele destaca que uma coisa é falar inglês, outra é conseguir pensar criticamente, argumentar e compreender nuances culturais no outro idioma. Amauri Bordini, da Crimson Education, reforça que universidades internacionais – especialmente as mais competitivas – avaliam o candidato de forma holística: histórico escolar, cartas, atividades, redações e entrevistas. “O que mais faz diferença ao longo dos anos é o compromisso do jovem com esse propósito e a construção de uma narrativa coesa e autêntica, com visão de longo prazo”, diz.
A história de Rafael, filho da empresária Luciana Marchione, mostra como a preparação é construída em camadas. Depois de morar dois anos na Colômbia e dois no Chile, ele voltou ao Brasil com o desejo de estudar fora. A família então estruturou uma jornada: Rafael fez High School (serviço oferecido pelo Colégio Marista Arquidiocesano em parceria com escolas norte-americanas), passou a se envolver em atividades valorizadas lá fora e “montou” um currículo real ao longo do tempo – simulações da ONU (com certificados), olimpíadas, liderança como presidente do grupo de teatro e participação em projetos da escola. Luciana destaca que a assessoria especializada foi decisiva para entender processos seletivos, escolher universidades com estratégia, visitar instituições e organizar a preparação para provas específicas. Hoje, Rafael se prepara para estudar na Espanha, em um modelo de graduação com possibilidade de dupla titulação.
Dicas para orientar o estudante:
Começar o quanto antes: Histórico escolar forte e atividades extracurriculares coerentes com a futura área fazem diferença para as universidades estrangeiras. Deixar para o fim do ensino médio é tarde demais.
Dominar o idioma em que será o curso: Nível intermediário não é suficiente. É preciso pensar e produzir na outra língua naturalmente.
Avaliar o grau de maturidade emocional: Morar em um país diferente, longe da família e dos amigos, requer autonomia e habilidade para administrar a rotina diária.
Buscar apoio da escola ou de uma mentoria especializada: Os processos e prazos de cada universidade variam e um apoio externo pode fazer a diferença.
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