20 maio 2026
“Tenho um filho argentino e dois espanhóis”, conta Ricardo Guerra, 41 anos, hoje à frente das operações do Wellhub no Brasil. Antes de assumir o cargo atual (em janeiro de 2025), ele foi figura fundamental na internacionalização da plataforma brasileira: de Buenos Aires, liderou a entrada na América do Sul e, de Madri, expandiu as operações pela Europa. Enquanto pavimentava o crescimento global da empresa, ele, ao lado da mulher, Giovanna, se tornou pai, passando adiante a verve “sem fronteiras” característica de sua carreira e da estratégia da marca. Lançado em 2012 como Gympass, o benefício oferecido a funcionários de empresas evoluiu de um passe de uso em academias para um ecossistema mais amplo, com acesso também a aulas de pilates, natação, ioga e lutas. Hoje, como Wellhub, atende cerca de 6 milhões de usuários em 18 países – crescimento que contou com a participação decisiva de Guerra.
Nascido em Brasília, o executivo se formou em administração de empresas, com ênfase em marketing, pela ESPM, em São Paulo. Logo começou a entender como o mundo corporativo atual é globalizado ao entrar, como estagiário, na multinacional Kimberly-Clark. Mais tarde, na rede de restaurantes Giraffas, conduziu a abertura de operações em Miami, semeando sua expertise em levar marcas nacionais ao exterior. A experiência mostrou a importância de uma comunicação adequada para atingir o consumidor. “No Wellhub, precisamos aprender como fazer o colaborador tomar uma decisão de mudança de vida”, explica. A adoção do Wellhub é em grande parte impulsionada internamente em cada empresa. Isso exige flexibilidade na comunicação – por exemplo, propaganda nas bandejas do restaurante dos funcionários ou no quadro de avisos da equipe – pois a abordagem precisa ser personalizada para cada perfil de consumidor corporativo.
Quando chegou ao então Gympass, há dez anos, a empresa tinha cerca de 20 mil usuários. Guerra assumiu a área de clientes, responsável por conduzir a transformação cultural dentro das empresas contratantes. Percebeu que as operações estavam muito concentradas em São Paulo e que, antes de cruzar fronteiras internacionais, precisaria percorrer o país. “Cada estado tem uma particularidade, um modo muito próprio de fazer negócio. Conhecer tantas culturas corporativas diferentes foi um aprendizado enorme.”
A vivência doméstica antecipou um padrão que se repetiria fora do país. Ao comandar a expansão para Argentina e Chile, a partir de Buenos Aires, notou a similaridade entre cidades com forte presença de multinacionais: “Às vezes, Buenos Aires, São Paulo, Madri ou Nova York são mais parecidas, do ponto de vista corporativo, do que cidades menores dentro de um mesmo país”, afirma. A temporada na Argentina trouxe desafios concretos, incluindo a barreira do idioma, que ele não dominava – e a chegada do primeiro filho, em plena pandemia de covid-19. Os resultados, porém, foram rápidos e, em um ano, as operações locais triplicaram de tamanho. Mais do que números, consolidou-se ali uma visão de gestão cosmopolita baseada na diversidade. O time reunia profissionais de várias nacionalidades, talentos locais e estrangeiros – muitos hoje ocupam cargos de liderança global na companhia.
“Com a diversidade, aprendemos a ser mais flexíveis e nos preparamos melhor para as mudanças, que ocorrem muito rápido”, defende. Ao mesmo tempo em que não há como oferecer uma solução única para diversos países e empresas de diferentes setores, também não há como propor um produto diferente a cada um. “O grande desafio da empresa global é ser escalável sem perder a capacidade de se adaptar a nuances locais.”
A expansão internacional do Wellhub seguiu, em grande parte, os passos de seus próprios clientes. Empresas multinacionais que já utilizavam o serviço em um país passaram a demandá-lo em outros locais. Foi assim no México, primeiro mercado fora do Brasil, respondendo à demanda de um cliente daqui que se estabeleceu por lá. Na Europa, houve a possibilidade de adquirir uma concorrente presente em outros países. Nos Estados Unidos, trabalharam com empresas que também tinham sede no Canadá. “A gente analisa tamanho, presença dos nossos clientes atuais, capacidade e qualidade da rede de academias e estúdios”, diz Guerra.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que o Wellhub enfrentou pouca ou nenhuma resistência ao entrar em novos territórios. Em muitos casos, já havia recomendações internas de executivos de diferentes países. Soma-se a isso o fato de operarem em um campo que se tornou prioridade global: saúde, produtividade e engajamento atravessam fronteiras e setores. “Os desafios são muito parecidos no mundo inteiro: ansiedade, depressão, retenção de talentos, custo de saúde”, lista.
Nesse contexto, a missão da empresa de promover o bem-estar no trabalho funciona como uma linguagem que, de certa forma, se conecta com a visão do próprio executivo sobre a importância do intercâmbio. Para Guerra, a convivência com diferentes culturas amplia a capacidade de adaptação e torna o pensamento mais preparado para lidar com o novo. Ele observa, porém, que muita gente, ao se mudar para outro país, acaba se fechando em círculos formados por pessoas de sua própria origem. O resultado é uma experiência limitada. “Não criar vínculos com a cultura local pode ser um grande desafio para o seu desenvolvimento pessoal, profissional e familiar”, analisa. “É importante estar disposto a se aventurar e entender discordâncias, valorizar os aprendizados, e notar também o quanto somos todos parecidos e temos necessidades semelhantes.” Lições essas que ele mesmo procurou seguir em suas experiências no exterior.
Esse senso de conexão e abertura se reflete na trajetória da própria empresa. Mesmo que esteja ganhando o mundo, o Wellhub ainda se vê em fase inicial. Tanto que a prioridade, por ora, não é uma abertura de capital, mas aprofundamento das operações existentes e a expansão em mercados onde já atua. “A internacionalização é mais fácil hoje em dia porque você consegue gerir o mundo de forma mais remota. Mas, para isso, é fundamental que sua empresa seja relevante”, alerta.
O Wellhub hoje tem:
. 6 milhões de usuários no mundo, que fizeram um total de 1 bilhão de check-ins em academias, aulas de ioga, pilates, natação e lutas, desde que a plataforma foi lançada;
. 100 mil parceiros (40% deles no Brasil), entre academias e estúdios;
. 40 mil empresas clientes globalmente, oferecendo o benefício a seus colaboradores;
. presença em 18 países, nas Américas do Sul e do Norte e na Europa.
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