22 maio 2026
Quando se fala em automobilismo brasileiro, a associação com a Fórmula 1 costuma ser imediata. Faz sentido. Durante décadas, a categoria máxima do esporte a motor ajudou a moldar a identidade do país nas pistas, revelando alguns de seus maiores ídolos – de Emerson Fittipaldi a Ayrton Senna, passando por Nelson Piquet e, mais recentemente, Rubens Barrichello, Felipe Massa e Gabriel Bortoleto. Mas o mapa das corridas internacionais se ampliou, e o protagonismo brasileiro passou a ocupar novos territórios.
Um dos pilotos que melhor representa essa expansão é Felipe Nasr. Seu sobrenome, herdado do avô libanês, significa “vitória”, simbolismo que ganhou ainda mais sentido em janeiro deste ano, quando o brasiliense de 33 anos conquistou a terceira vitória consecutiva nas 24 Horas de Daytona. A tradicional prova disputada na Flórida é a principal corrida de endurance (longa duração) dos Estados Unidos e uma das mais importantes do mundo. “Uma vitória já teria sido incrível, mas três seguidas foi sensacional. É quando você percebe que realmente colocou o seu nome na história”, celebra. Com o resultado, Nasr tornou-se o terceiro piloto a vencer as 24 Horas de Daytona três vezes consecutivas, depois do norte-americano Peter Gregg, que alcançou a sequência nos anos 1970, e do brasileiro Hélio Castroneves (2021, 2022 e 2023).
Para entender a magnitude da conquista de Nasr, é preciso ter uma ideia de como funcionam as provas de endurance, palavra em inglês que significa “resistência” e define bem uma das principais habilidades que piloto e carro precisam desenvolver para se dar bem neste tipo de competição. Enquanto na Fórmula 1, um piloto dirige por no máximo duas horas, no carro que é só dele, nas corridas de resistência os carros são compartilhados com três ou quatro pilotos, que não podem deixar o motor esfriar. A competição de Daytona dura 24 horas ininterruptas, nas quais os pilotos se alternam ao volante ao longo do dia e da noite.
Mais do que velocidade, o que define o resultado desse tipo de prova é a combinação de resistência, estratégia, consistência e trabalho coletivo. “Tudo acontece em decisões pequenas ao longo da prova”, explica Nasr. Primeira produção nacional feita totalmente para o formato IMAX, dirigida pelos irmãos André e Salomão Abdala, 2DIE4: 24 Horas no Limite fez um mergulho no tema ao acompanhar o brasileiro nas 24 Horas de Le Mans, na França. O filme, lançado em 30 de abril, é narrado por Felipe e foi captado na corrida de 2024, mergulhando de forma íntima em seus medos, qualidades e erros.
A mentalidade estratégica começou a se formar cedo nele. Criado em uma família com tradição no automobilismo, Nasr iniciou a carreira aos 7 anos, no kart, e, aos 16, deixou o Brasil para competir na Europa. “Fui para a Itália muito novo. Para mim, tudo era novidade. Enxerguei aquilo como uma grande oportunidade, aprendi italiano e fui me adaptando”, lembra.
Ao longo dos anos, vivendo entre Itália, Londres e Estados Unidos, desenvolveu uma visão mais ampla da profissão. “Tive o privilégio de conhecer culturas diferentes desde cedo. Isso abriu muito a minha cabeça e virou uma vantagem competitiva. Ser piloto vai muito além de entrar no carro e acelerar, você precisa saber se comunicar com engenheiros, mecânicos, patrocinadores e equipes de diferentes países.” Nasr voltou a morar em Brasília recentemente, mas sua rotina continua dividida entre corridas e treinos nos Estados Unidos e na Europa.
Essa combinação de experiência internacional e maturidade profissional aproximou-o de seu grande sonho de infância: chegar à Fórmula 1. A meta se concretizou em 2015, quando estreou pela equipe Sauber e chamou a atenção logo na primeira corrida, com um quinto lugar no GP da Austrália, melhor resultado de um piloto brasileiro em sua corrida de estreia na categoria. Mas, como acontece com frequência no automobilismo, fatores fora da pista também pesaram. Mudanças na gestão e dificuldades financeiras da equipe limitaram o desenvolvimento do carro, e o brasileiro deixou a categoria no fim do ano seguinte, depois de 39 corridas disputadas. “Foi um choque no início, mas sabia que não podia me desesperar. Precisava analisar o mercado com calma antes de tomar a decisão seguinte.”
O período de reflexão abriu caminho para um novo capítulo na carreira. “Estava assistindo a uma corrida em Daytona e pensei: por que não tentar me tornar o maior vencedor do endurance?”, conta. E aquela não era a primeira vez que Daytona cruzava seu caminho. Em 2011, ao conquistar o título da Fórmula 3 inglesa, Nasr ganhou como prêmio a oportunidade de disputar as 24 Horas de Daytona no ano seguinte. Mesmo em uma equipe de estrutura modesta, terminou a prova em terceiro lugar. “Aquilo ficou na minha cabeça.”
Anos depois, decidiu revisitar aquela possibilidade. Ligou para a mesma equipe com a qual havia corrido anteriormente e conseguiu um teste em um circuito na Virgínia. “Foi uma das sensações mais incríveis que já tive em um carro de corrida.” A aposta se confirmou rapidamente. Em 2018, Nasr conquistou o título do IMSA, o principal campeonato de endurance dos Estados Unidos, logo em sua primeira temporada completa. Repetiu o feito em 2021 e, no ano seguinte, tornou-se piloto de fábrica da Porsche. “Eu sabia que, para me tornar um grande vencedor no endurance, precisava estar ligado a uma grande marca e a um projeto ambicioso.”
A parceria com a Porsche e a equipe Penske, uma das mais importantes do automobilismo mundial, marcou o início de um novo ciclo. Nasr participou desde os primeiros testes do carro e ajudou a construir a base técnica do projeto. “São marcas lendárias, com uma cultura de excelência muito forte. E você está unindo a cultura alemã, a cultura americana e pilotos de diferentes países. É preciso saber ouvir, observar e trabalhar em equipe.”
Essa história ainda promete muita ação. “O sonho de me tornar o maior piloto de endurance ainda continua”, diz. Entre os próximos desafios estão mais vitórias nas 24 Horas de Daytona – cinco é o recorde da prova – e o primeiro lugar nas 24 Horas de Le Mans, na França, a competição mais importante do endurance, disputada há mais de um século.
E para quem está começando a escrever a própria história no automobilismo, Nasr diz que o primeiro passo é acreditar em si mesmo. “Talento é apenas parte da equação”, afirma. “Disciplina, curiosidade e capacidade de trabalhar em equipe são essenciais em um esporte que exige evolução constante”, conclui.
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