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A bandeira estrelada ainda tremula

Por Martin Iglesias, responsável pela Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco

01 jul 2026

Aos 250 anos, os Estados Unidos voltam a responder à pergunta que acompanha sua história e seus mercados

Na madrugada de 14 de setembro de 1814, em meio à Guerra de 1812, Francis Scott Key testemunhava o intenso ataque britânico ao Forte McHenry, em Baltimore, um episódio inserido em um contexto de tensões comerciais e marítimas.

Quando o dia clareou, a bandeira dos Estados Unidos ainda permanecia erguida.

Talvez a pergunta de Francis Scott Key também possa ser dirigida aos mercados: depois de guerras, depressões, crises financeiras e revoluções tecnológicas, a bandeira do chamado excepcionalismo americano ainda tremula?

Martin Iglesias

Responsável pela Recomendação de investimentos do Itaú Unibanco

Aquela visão inspirou o poema que daria origem ao hino nacional dos Estados Unidos, The Star-Spangled Banner. Seus versos terminam com uma pergunta que, em tradução livre, diz:

“Dizei-me: aquela bandeira estrelada ainda tremula sobre a terra dos livres e a casa dos valentes?”

Não é uma afirmação triunfal. É uma pergunta feita depois de uma longa noite de incerteza. Talvez seja justamente por isso que esses versos sejam tão poderosos. A bandeira não simboliza apenas uma vitória. Representa aquilo que permanece de pé quando ainda não sabemos qual será o desfecho.

Em 4 de julho de 2026, os Estados Unidos completarão 250 anos de independência. E talvez a pergunta de Francis Scott Key também possa ser dirigida aos mercados: depois de guerras, depressões, crises financeiras e revoluções tecnológicas, a bandeira do chamado excepcionalismo americano ainda tremula?

Recentemente, a resposta pareceu menos evidente. A política de tarifas, as ameaças de retaliação comercial, as preocupações fiscais e a polarização política fizeram investidores questionarem a previsibilidade das instituições americanas. Recursos começaram a procurar outros mercados e a expressão “fim do excepcionalismo americano” reapareceu nas análises.

A dúvida era legítima. O erro seria imaginar que ela era inédita.

A história dos Estados Unidos também é a história das vezes em que se anunciou que sua melhor fase havia terminado. Isso ocorreu durante a Guerra Civil, na Grande Depressão, depois do lançamento do Sputnik, na crise do petróleo, no colapso da bolha da internet, em 2008 e nos primeiros meses da pandemia.

O que sustentou a economia americana não foi a ausência de crises. Foi sua capacidade de financiar a inovação seguinte.

Essa história começou cedo. Em 1792, apenas dezesseis anos depois da Declaração de Independência, 24 corretores firmaram o Acordo de Buttonwood, considerado a origem da Bolsa de Valores de Nova York. Antes das telas, dos algoritmos e das negociações em microssegundos, havia uma árvore, alguns homens e um compromisso de negociar segundo regras comuns.

Daquele embrião surgiria o mais profundo mercado de capitais do mundo.

A bolsa americana tornou-se uma gigantesca máquina de financiar futuros. Ajudou a construir ferrovias que costuraram um território continental. Depois financiou o telégrafo, o telefone, o aço, a eletricidade e o petróleo. Sustentou os automóveis, a aviação e a indústria farmacêutica. Mais tarde, colocou capital por trás dos semicondutores, dos computadores, da internet, da biotecnologia e da computação em nuvem. Agora, mobiliza somas extraordinárias para a inteligência artificial.

Nem todas as empresas sobreviveram. Houve euforia, fraudes, desperdício e bolhas. Mas a força do sistema nunca foi escolher antecipadamente um vencedor. Foi permitir que milhares de ideias fossem testadas.

A bolsa não preservou necessariamente as empresas. Preservou a capacidade de criar novas empresas.

E então veio Ormuz.

A guerra e a interrupção de uma das rotas energéticas mais importantes do planeta fizeram o petróleo subir, elevaram as expectativas de inflação e trouxeram novamente o temor de uma desaceleração global. O choque geopolítico se somou às tarifas. De um lado, o mundo questionava a liderança política e comercial dos Estados Unidos. De outro, passava a testar sua resistência econômica.

Foi justamente nesse teste que o mercado voltou a enxergar aquilo que havia começado a esquecer. A posição americana como grande produtora de energia reduziu sua vulnerabilidade relativa. Sua economia absorveu melhor o choque do petróleo. O ecossistema de inteligência artificial continuou atraindo investimentos, o dólar recuperou força e o capital voltou aos ativos americanos.

Começou-se então a falar em uma espécie de “excepcionalismo americano 2.0”. Não a crença ingênua de que os Estados Unidos sejam invulneráveis, mas o reconhecimento de que, quando o mundo enfrenta uma crise, sua economia, sua moeda e seus mercados ainda possuem uma capacidade singular de reorganizar expectativas.

Isso não significa que as ações americanas sempre superarão as demais ou que o dólar jamais perderá espaço. Diversificar continua sendo prudente, porque nenhuma bandeira tremula para sempre sem enfrentar ventos contrários.

Quando Francis Scott Key escreveu os versos que dariam origem ao hino, ele não perguntou se a noite havia sido fácil. Perguntou se, depois das explosões, da fumaça e da incerteza, a bandeira ainda estava lá.

As tarifas levantaram a dúvida. Ormuz submeteu a economia ao teste.

E, quando o amanhecer chegou, o mercado viu o capital retornar, a inovação avançar e a economia americana reafirmar sua liderança.

A bandeira havia se inclinado e fora encoberta pela fumaça. Muitos imaginaram que talvez não voltasse a aparecer.

Mas, aos 250 anos, sobre a bolsa que ajudou a financiar ferrovias, eletricidade, aviões, computadores, internet e inteligência artificial, a resposta voltou a surgir no horizonte:

Sim, a bandeira estrelada ainda tremula, não porque os ventos deixaram de soprar contra ela, mas porque, há 250 anos, os Estados Unidos aprenderam a transformar crises em reinvenção, capital em inovação e incerteza em futuro.

Fontes e referências utilizadas

National Archives dos Estados Unidos, para a adoção da Declaração de Independência em 4 de julho de 1776 e as comemorações de seus 250 anos; Smithsonian Institution e National Museum of American History, para o bombardeio ao Forte McHenry, a bandeira avistada em 14 de setembro de 1814 e a origem de The Star-Spangled Banner; New York Stock Exchange, para o Acordo de Buttonwood, firmado por 24 corretores em 1792; e Reuters, para os efeitos recentes das tarifas americanas, da guerra e das interrupções no Estreito de Ormuz, assim como para a recuperação do dólar e a retomada do debate sobre o excepcionalismo econômico americano.

Martín Iglesias

Martín Iglesias

Especialista líder de recomendação de investimentos do Itaú Unibanco

Tem trinta anos de mercado, é responsável pela Recomendação de investimentos do Itaú Unibanco e membro da rede ANBIMA de Educação para Investidores. Pós-graduado em Finanças e Banking EAESP/FGV, Mestre em Economia pela EESP/FGV, onde leciona há vinte anos nos cursos de pós-graduação. É especialista em investimentos e finanças comportamentais. É autor dos livros “Investimentos: um livro de segredos e conselhos” e “4 dimensões de uma vida em equilíbrio”, “Investimentos: textos para nunca mais esquecer”, “Finanças Comportamentais e Arquitetura de Escolhas” e “Viajando nos Investimentos”. É colunista do íon e conteudista do Podcast Itaú Inversiones Colômbia.

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