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De Smoot-Hawley aos dias atuais: o eco de um mundo mais maduro

Por Martin Iglesias, responsável pela Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco

11 nov 2025

Há ecos na história que assustam mais pelo som do que pelo impacto. Quando o governo americano anunciou, no chamado Liberation Day, a nova rodada de tarifas sobre produtos importados, o mercado reagiu como quem ouve o primeiro trovão de uma tempestade antiga. Analistas falaram em repique inflacionário, retração da atividade e uma nova guerra comercial. A lembrança era inevitável: Smoot-Hawley, a lei de 1930 que elevou tarifas, provocou retaliações e ajudou a transformar uma recessão em depressão.

Mas, desta vez, o som ecoou e logo se dissipou. A inflação americana mal se moveu, o desemprego continua baixo e o consumo segue firme. O impacto das tarifas foi muito menor do que se temia — e isso diz muito sobre como a economia global aprendeu a funcionar em meio às turbulências.

Em 1930, o comércio internacional era rígido e dependente. As exportações americanas despencaram porque os parceiros responderam com suas próprias tarifas. Hoje, o cenário é outro. A economia é mais flexível, integrada e tecnológica. As empresas reagiram rapidamente, ajustando fornecedores e estoques, e absorveram parte dos custos em suas margens para preservar competitividade. Aparentemente, empresas da China, do México, do Vietnã e da Coreia também reduziram margens de lucro para não perder espaço no mercado americano. Preferiram cortar preços a ver sua participação encolher. O resultado foi um amortecimento mútuo: o choque de preços se diluiu entre produtores, distribuidores e consumidores.

A tecnologia também cumpriu um papel silencioso. A automação e o avanço da inteligência artificial elevaram a produtividade e reduziram a sensibilidade dos preços a choques externos. Mesmo com custos pontualmente mais altos, os ganhos de eficiência vêm compensando parte das pressões, limitando o repasse aos consumidores. O Federal Reserve, por sua vez, manteve a comunicação firme e a política monetária calibrada, evitando que o temor de inflação se transformasse em expectativa. E o consumidor americano, sustentado por renda e emprego, respondeu com naturalidade: continuou comprando, ajustando escolhas, mas sem pânico.

O eco de Smoot-Hawley serviu como teste de maturidade. Mostrou que a economia global aprendeu a absorver choques e redirecionar fluxos. O comércio internacional de 2025 é um organismo adaptável, no qual cada ruído encontra um contrapeso. O Liberation Day não libertou os Estados Unidos do comércio mundial — libertou o debate econômico do medo de repetir o passado. As tarifas de hoje soam como as de ontem, mas ecoam em um mundo que aprendeu a corrigir o curso antes de sair da rota.

O S&P 500 também mostrou essa maturidade. Caiu nas primeiras horas do anúncio, mas logo recuperou terreno e renovou máximas históricas. Os investidores distinguiram ruido de tendência. Entenderam que, por trás das tarifas, há uma economia com amortecedores e empresas capazes de se ajustar sem perder direção. O eco de Smoot-Hawley ainda ressoa, mas desta vez não como um aviso de crise — e sim como prova de que o mundo amadureceu o suficiente para ouvir o passado sem temer o seu retorno.

Martín Iglesias

Especialista líder de recomendação de investimentos do Itaú Unibanco

Tem trinta anos de mercado, é responsável pela Recomendação de investimentos do Itaú Unibanco e membro da rede ANBIMA de Educação para Investidores. Pós-graduado em Finanças e Banking EAESP/FGV, Mestre em Economia pela EESP/FGV, onde leciona há vinte anos nos cursos de pós-graduação. É especialista em investimentos e finanças comportamentais. É autor dos livros “Investimentos: um livro de segredos e conselhos” e “4 dimensões de uma vida em equilíbrio”, “Investimentos: textos para nunca mais esquecer”, “Finanças Comportamentais e Arquitetura de Escolhas” e “Viajando nos Investimentos”. É colunista do íon e conteudista do Podcast Itaú Inversiones Colômbia.

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