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Impasse no Estreito de Ormuz, lucros fortes inflação em alta

Por William Castro Alves, Estrategista-chefe da Avenue

27 abr 2026

A semana que passou

Conflito no Oriente Médio

Na semana passada os holofotes continuaram voltados para o frágil cessar-fogo entre EUA, Israel e Irã, que precisou ser estendido pelo presidente americano, Donald Trump, após o fracasso das negociações em Islamabad. O Estreito de Ormuz permaneceu sendo o ponto mais crítico do conflito, com desdobramentos de ambos os lados: o Irã atacou navios, disparou tiros de advertência e impôs restrições, enquanto os EUA mantiveram bloqueio naval aos portos iranianos, com Trump ordenando que a Marinha atirasse em barcos iranianos próximos que colocassem minas ou tentassem bloquear o canal. Essas ações geraram forte alta nos preços do petróleo e interrupções no transporte marítimo.

As tensões diplomáticas persistem com sinais mistos. Em uma das pontas, o Irã acusa os EUA de violarem o cessar-fogo e informa não ter pressa para um acordo, enquanto na outra, Trump, afirma ter “controle total” do Estreito de Ormuz, e usa o período de trégua para reabastecimento dos seus estoques militares. No Líbano, o cessar-fogo com o Hezbollah se mantém de forma geral, mas com incidentes isolados. No balanço semanal, foi uma semana marcada por impasses nas conversas de paz e risco elevado de retomada dos confrontos diretos. Diante dos recentes desdobramentos, o cenário segue volátil com impactos diretos nos mercados globais de energia.

Fonte: Reuters, 18/abr/2026

Economia

Na terça-feira (21), o Census Bureau, divulgou os dados de vendas no varejo dos EUA referentes a março de 2026. O relatório destacou um avanço significativo de 1,7% no total das vendas em relação a fevereiro (revisado para +0,7%), superando a expectativa de mercado de +1,4%, além de registrar alta de 4,0% na comparação anual, com o acumulado do primeiro trimestre em +3,7%. O resultado foi impulsionado principalmente pelo salto de 15,5% nas vendas de postos de gasolina, devido à alta dos preços do combustível; enquanto o varejo “core” (excluindo itens voláteis como automóveis, construção e gasolina) subiu cerca de 0,7%, também acima do esperado.

Fonte: The Daily Shot 22/abr/2026

A leitura obtida revela a resiliência do consumidor americano, que continua sustentando a atividade econômica apesar de juros ainda elevados e incertezas geopolíticas. No entanto, o forte componente de preços de energia sugere que parte do avanço é inflacionário, de modo que não necessariamente reflete aumento de volume real de consumo – o que pode reforçar a cautela do Fed quanto ao ritmo de corte de juros ao longo de 2026.

PMI’s – atividade melhora, mas inflação preocupa

O indicador composto (Composite Output Index) saltou de 50,3 em março, para 52,0 em abril — o maior nível em três meses e acima da expectativa de 50,6. O dado sinaliza uma recuperação moderada da atividade econômica no início do segundo trimestre, após quase sofrer estagnação em março, devido ao conflito no Oriente Médio, conforme mostra o gráfico a seguir          .

De acordo com Chris Williamson, economista-chefe de negócios dat S&P Global Market Intelligence:

A retomada no crescimento da produção empresarial em abril é uma boa notícia após a quase estagnação observada em março; no entanto, ao longo dos últimos três meses, registramos a expansão mais fraca da produção desde o início de 2024 — cenário pelo qual a guerra no Oriente Médio é diretamente responsável.

Fonte: S&P Global Market Intelligence, 23/abr/2026

Kevin Warsh no senado americano

O indicado por Trump para ocupar a cadeira de presidente do Fed, Kevin Warsh, também ocupou os destaques da semana passada com suas declarações durante uma sabatina no Senate Banking Committee. Confira a seguir os destaques de sua fala:

Finanças pessoais e ataques de alguns senadores: sofreu forte pressão de democratas (especialmente de Elizabeth Warren) sobre sua riqueza estimada entre US$ 130 e US$ 200 milhões e falta de disclosure (prática de tornar públicas informações relevantes sobre a organização) detalhado de mais de US$ 100 milhões em ativos. disparando neste cenário — e não apenas os da energia, mas os de uma ampla variedade de bens e serviços. O quadro geral da inflação é, agora, o mais preocupante em quase quatro anos.”

Fonte: Reuters.com 21/abr/2026

A audiência durou cerca de 2h30 e foi marcada por debates acalorados, mas que não trouxe grandes novidades sobre cortes imediatos de juros, muito menos gerou fortes impactos no mercado. De modo geral, Warsh, conseguiu responder as perguntas, mostrando preparo, e buscou defender sua independência, assim como a do Fed, apesar da indicação do presidente americano.

Resultados dessa semana

Números em destaque

Até a última sexta-feira (24), com a temporada ainda no início, aproximadamente 17% a 20% das empresas do S&P 500 já haviam divulgado seus balanços do 1º trimestre de 2026 (Q1 2026). Os relatórios entregues revelaram que:      

Entre os resultados divulgados podemos destacar 3 essa semana:

Tesla (TSLA): a empresa reportou EPS ajustado de US$ 0,41 (acima da expectativa em torno de US$ 0,37  US$ 0,39) e receita de US$ 22,39 bilhões (levemente abaixo do esperado). As margens brutas melhoraram significativamente, contudo para IA. As ações tiveram reação volátil, refletindo otimismo com o futuro da IA, apesar de entregas modestas de veículos.

Intel (INTC): talvez esse seja o resultado que mais chamou atenção na semana. O lucro por ação ajustado foi de US$ 0,29 (contra superando a baixa expectativa de apenas US$ 0,01) e receita de US$ 13,6 bilhões (bem acima dos US$ 12,4 bilhões esperados), impulsionado por forte demanda em Data Center/AI e Foundry. O guidance para o 2º trimestre também veio acima do consenso, fazendo as ações subirem mais de 20% no after-hours (após o encerramento do pregão regular) – sinal positivo para o setor de semicondutores.

Boeing (BA): A companhia reduziu significativamente as perdas, reportando prejuízo ajustado de US$ 0,20 por ação (melhor do que a expectativa em torno de US$ 0,68 e US$ 0,83) e receita de US$ 22,2 bilhões (acima do esperado). As entregas comerciais subiram para 143 aviões, um aumento na receita de 14%. Além disso, a organização mostrou progresso na estabilização da produção, com backlog recorde, o que ajudou o sentimento no setor industrial.

Em resumo, a temporada de resultados está começando de forma positiva, com as empresas entregando mais lucro e receita do que o mercado esperava. Inclusive, a surpresa em relação aos relatórios tem gerado efeito nas estimativas de crescimento futuro para lucros e receitas, com analistas elevando suas expectativas, o que reforça a força das companhias americanas – mesmo em um ambiente de juros elevados, inflação persistente e tensões geopolíticas. Fato que os números ainda podem ser ajustados no decorrer das próximas semanas (a temporada termina entre maio e junho), mas o cenário atual  é construtivo e ajuda a sustentar o sentimento positivo no mercado de ações.

Importância dos resultados corporativos

Nunca é demais lembrar a força que os resultados corporativos exercem sobre as ações e mercado de renda variável como um todo. Se no curto prazo as ações reagem às nuances e sabores de notícias que geram volatilidade, no médio e longo prazo, é a lucratividade da empresa subjacente, que influencia a movimentação dos preços. Nesse sentido, o gráfico do Goldman Sachs é bastante relevante,, inclusive, para ajudar a compreender a performance resiliente da bolsa americana, mesmo diante de um cenário de estresse geopolítico. A resposta é que a performance deriva da continuidade de uma percepção e expectativa de crescimento com os lucros corporativos, conforme o gráfico abaixo ajuda a compreender.

Fonte: The Daily Shot 22/abr/2026

Impactos no mercado

Seguimos os dias vivendo aquilo que chamo nas lives e textos que escrevo de “playbook de guerra” – em que as notícias do conflito no Oriente Médio continuam influenciando o curto prazo do mercado. Portanto, agora vale uma retrospectiva dos eventos que impactaram o mercado na última semana (entre 20 e 24 de abril).

O mercado de ações americano teve performance mista e cautelosa na última semana, após os recordes da semana anterior, também refletindo a incerteza originada pelas negociações entre os EUA e Irã, e o retorno das tensões no Oriente Médio. Apesar disso, o S&P 500 se manteve próximo aos 7.000-7.100 pontos, indicando resiliência resultante do otimismo de longo prazo envolvendo lucros corporativos e IA, embora o tom geral tenha sido de consolidação após o forte rally recente. Por sua vez, setores defensivos sofreram mais com o medo de inflação persistente.

No mercado de juros, os yields (rendimentos) dos títulos do Tesouro dos EUA subiram, com o rendimento de 10 anos passando de aproximadamente 4,26%, no dia 20, para 4,34%. Esse aumento representou perdas nos preços dos bonds, impulsionadas por tensões geopolíticas renovadas no Oriente Médio – o bloqueio intermitente no Estreito de Ormuz e o aumento dos riscos de inflação devido aos preços elevados do petróleo. Os yields de 2 anos também avançaram, refletindo expectativas sobre a chance do Fed manter as taxas mais altas por mais tempo.

Nos mercados de commodities, o petróleo foi o destaque com forte volatilidade e alta, pressionado pelas interrupções no Estreito de Ormuz e pelas negociações estagnadas entre EUA e Irã. Com isso, o ativo registrou oscilações no WTI em torno de US$ 94 e US$ 97 por barril, enquanto o Brent frequentemente acima de US$ 100, chegando a US$ 106.

Nos ativos de refúgio, o ouro caiu, influenciado por temores inflacionários e dólar mais forte. A prata teve movimento similar com leve pressão baixista, enquanto o cobre ganhou destaque positivo pelos déficits estruturais de oferta, sendo um dos poucos ativos em alta consistente.

A semana que se inicia

Para a última semana do mês (de 27 de abril a 1º de maio de 2026), o mercado de ações deve manter o foco principal nos resultados corporativos. A temporada de balanços do 1º trimestre de 2026 estará em plena velocidade, com mais de 200 empresas do S&P 500 divulgando números incluindo as big techs: Microsoft, Alphabet, Amazon, Apple e Meta ; além de grandes nomes conhecidos fora do setor de tecnologia como Visa, Coca-Cola, Starbucks, Mastercard, Eli Lilly, Exxon, Chevron, entre outras.

No lado econômico, a agenda é mais leve no início da semana e ganha peso no final:

● Terça-feira (28): divulgação dos preços de imóveis Case-Shiller e confiança do consumidor;
● Quarta-feira (29): relatório de pedidos de bens duráveis;
● Quinta-feira (30): PIB avançado do 1º trimestre e os dados de renda pessoal — números que podem influenciar as expectativas sobre inflação e juros do Fed.

Resultados

Abaixo o calendário completo de resultados corporativos.

Acompanhe a cobertura completa dos resultados na página: Resultados Corporativos Archives – Avenue Connection.

William Castro Alves
@willcastroalves
Aquele abraço!
Estrategista-chefe da Avenue Securities

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William Castro Alves

William Castro Alves

Estrategista-Chefe da Avenue

Formado em economia pela UFRGS – RS. Em 2004, iniciou sua carreira na Solidus Corretora, com passagens pelo Koliver Merchant Bank e Banco Alfa. Foi sócio, analista-chefe e um dos principais porta-vozes da XP Investimentos. Também foi sócio e líder de gestão da VGR Gestão de Recursos. Possui as certificações Series 7 e 24. É estrategista-chefe, sócio e porta voz da Avenue desde 2018.

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