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Jackson Hole e as mudanças nas expectativas de juros nos EUA

Por William Castro Alves, Estrategista-chefe da Avenue

25 ago 2025

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A SEMANA QUE PASSOU

Antes de abordar os principais indicadores da semana, vale comentar sobre o PMI, que novamente reforçou a percepção de resiliência da economia americana.

O PMI manufatureiro dos EUA, referente a agosto, surpreendeu positivamente ao alcançar 53,3 pontos, bem acima da expectativa do mercado, que era de 49,7. Já o desempenho do PMI industrial vem sendo impulsionado, principalmente, pelos investimentos em data centers. Trata-se do maior índice registrado nos últimos 39 meses, sinalizando uma vigorosa retomada da atividade industrial, com destaque para a alta nos novos pedidos — o avanço mais expressivo desde fevereiro de 2024.

O PMI composto, que inclui o setor de serviços, também superou as projeções do mercado, atingindo 55,4 pontos contra os 53,5 esperados. Esse resultado representa um pico de expansão, com o ritmo mais acelerado registrado em 2025 até o momento.

Pelo lado negativo, os dados trazem sinais claros de aceleração da inflação: tanto os custos de produção quanto os preços cobrados estão nos níveis mais altos dos últimos três anos, pressionados pelas tarifas e gargalos nas cadeias de suprimentos.

E seguindo essa perspectiva mais hawkish, de que não teria tanto espaço para cortes agressivos dadas as pressões inflacionárias e atividade resiliente, a ata do FOMC (comitê de política monetária americana) divulgada na quarta-feira (20) reforçou essa preocupação.

Em suma, o documento evidenciou divergências de opinião entre os dirigentes do Fed. Embora a maioria tenha optado por manter a taxa básica inalterada, dois governadores do Banco Central americano — Christopher Waller e Michelle Bowman — votaram contra a decisão, defendendo que o Comitê deveria iniciar a redução da taxa.

De forma geral, podemos dizer que os detalhes da ata mostram que os membros do Fed parecem mais preocupados com a evolução dos preços do que com uma desaceleração do mercado de trabalho, embora reconheçam riscos em ambas as frentes:

“Os participantes, em geral, apontaram riscos para ambos os lados do duplo mandato do Comitê, enfatizando o risco de alta para a inflação e o risco de baixa para o emprego …  a maioria dos participantes considerou o risco de alta para a inflação como o maior desses dois riscos …  e alguns dirigentes consideraram o risco de baixa para o emprego o risco mais saliente”.

Incerteza, incerteza, incerteza… Olhando para a frente, o documento também ressaltou que o nível de incerteza permanece muito elevado em relação às tarifas e aos seus impactos – seja em termos de magnitude, persistência ou do momento em que esses efeitos se farão sentir na economia.

No entanto, esse é um dado do passado, já que a ata se refere à última reunião, realizada no final de julho.

Jerome Powell em Jackson Hole

Então, na sexta-feira (22), Jerome Powell parece ter decidido tirar as incertezas do ar em seu discurso no simpósio econômico de Jackson Hole, onde estávamos presentes.

No evento, o presidente do Federal Reserve sinalizou possíveis cortes nas taxas de juros diante das incertezas econômicas. Em sua fala, Powell destacou o balanço de riscos associados ao cenário atual, ressaltando os impactos tanto sobre a inflação quanto sobre o nível de emprego.

Ainda assim, ao ponderar esses riscos, Powell sugeriu que o Fed vê a inflação como potencialmente temporária e que os riscos de desaceleração do mercado de trabalho aumentaram – fatores que podem tornar apropriado um ajuste na política monetária. Essa observação levou o mercado a entender que devemos ter um corte de juros na próxima reunião do órgão, em setembro, conforme já era aguardado e precificado nas curvas de juros.

Abaixo, outros highlights do discurso de Powell:

  • Contexto Econômico: Ele apontou “mudanças abrangentes” nas políticas de impostos, comércio e imigração, que vêm alterando o equilíbrio de riscos entre pleno emprego e estabilidade de preços, ou seja, salientando o risco para o mercado de trabalho. Esse foco foi lido como um sinal de que o Fed receia uma desaceleração mais acentuada do emprego, o que poderia levar ao início de um novo ciclo de cortes de juros;
  • Tarifas e inflação: Powell reconheceu que tarifas podem provocar aumentos de preços no curto prazo, mas afirmou não acreditar em uma inflação persistente decorrente dessas medidas. Ainda assim, destacou que os efeitos permanecem incertos;
  • Estagflação: Segundo ele, o mercado de trabalho segue forte e a economia mostra resiliência, mas os riscos negativos estão aumentando. Powell destacou que as tarifas podem reacender a inflação, o que levaria a um cenário de estagflação;
  • Juros: A taxa de referência do Fed (4,25%-4,50%) permanece restritiva, mas permite ajustes cautelosos. Esse comentário foi entendido como sinal de possíveis cortes de juros;
  • Influência de Trump: Powell evitou abordar diretamente as pressões de Trump por cortes agressivos nas taxas, reforçando a independência do Banco Central americano;
  • Revisão da Política do Fed: Powell refletiu sobre a “meta de inflação média flexível” de 2020, que não previu a alta da inflação. Reconheceu o impacto negativo da inflação elevada, especialmente para as populações mais vulneráveis, e ressaltou a importância de manter as expectativas de inflação bem ancoradas. Com isso, ele reafirmou a meta de inflação de 2%.

IMPACTOS NO MERCADO

Os impactos no mercado foram imediatos e sentidos logo cedo na sexta-feira (22).

Podemos destacar:

  • Os yields dos títulos de dívida americanos cederam diante da perspectiva de redução das incertezas quanto a cortes de juros nas próximas reuniões.

Fonte: investing.com, em 22/ago/2025

  • Como reflexo direto, o índice dólar cedeu e a moeda americana também apresentou queda frente ao real. A perspectiva de yields menores nos EUA ajuda a explicar esse movimento de curto prazo. Veja abaixo os gráficos intraday de ambos: índice dólar (DXY) e o USD/BRL.

Fontes: DXY e USD/BRL, em 22/ago/2025

  • Renda variável: Os investidores foram às compras após as quedas dos últimos dias, resultando em um movimento de alta na sexta-feira (22). Abaixo, a fotografia do desempenho das empresas do S&P 500.

Fonte: Finviz.com, em 22/ago/2025 – variação diária

Mas esse foi o movimento observado na última sexta-feira (22) … A tabela abaixo compila o desempenho ao longo da semana:

Rotation na Renda Variável

Em resumo, na semana de 18 a 22 de agosto, o mercado de ações dos EUA manteve a sua trajetória de alta. O Dow Jones Industrial Average subiu mais de 800 pontos, atingindo um fechamento recorde, impulsionado pelo discurso do presidente do Fed. O S&P 500 e o Nasdaq também registraram ganhos, subindo aproximadamente 0,9% e 0,8%, respectivamente, embora tenham apresentado uma leve queda no final da semana devido à realização de lucros e preocupações relacionadas ao sentimento do consumidor.

Além do desempenho dos principais índices, chamou a atenção uma rotação interessante entre setores na renda variável. O gráfico abaixo ilustra o desempenho semanal do S&P 500 (preto), Dow Jones (vermelho), Nasdaq (azul) e Russell 2000 (laranja):

A SEMANA QUE SE INICIA…

Agenda

Nesta semana teremos a divulgação de dados importantes, entre eles:

  • Confiança do confiança do consumidor, na terça-feira (26);  
  • Primeira revisão do PIB dos EUA referente ao 2T25, na quarta-feira (27);
  • PCE, principal indicador de inflação acompanhado pelo Fed em suas decisões de política monetária.

Abaixo, a agenda completa de eventos econômicos para os próximos dias.

RESULTADOS CORPORATIVOS

Na semana que passou, tivemos a divulgação de diversos resultados de empresas do setor de varejo. Vale lembrar que fazemos um acompanhamento completo dos principais balanços já publicados, disponível na página Resultados Corporativos Archives – Avenue Connection.

Até o momento, 475 das 500 empresas do S&P 500 divulgaram os seus números (95%), sendo que 69% delas superaram as estimativas de receita e 81% superaram as previsões de lucro por ação. Esses números, melhores do que os esperados pelo mercado, impulsionaram várias revisões para cima acerca dos lucros futuros das empresas do S&P 500.

O gráfico abaixo mostra que os analistas vêm aumentando as estimativas de lucros para o trimestre atual (3T25) no ritmo mais acelerado dos últimos quatro anos.

Fonte: The DailyChart on X, em 19/ago/2025

Para esta semana, teremos a divulgação do tão aguardado resultado da Nvidia (NVDA), atualmente considerada a maior empresa dos EUA, com valor de mercado superior a US$ 4 trilhões, e um expoente no crescente mercado de inteligência artificial.

O que esperar dos resultados de Nvidia?

A empresa irá divulgar seus números do segundo trimestre fiscal de 2026 (algo equivalente ao segundo trimestre de 2025 no ano calendário) no dia 27 de agosto, após o fechamento do mercado. Segundo o consenso de mercado, espera-se mais um desempenho robusto, novamente impulsionado pela demanda por IA. As projeções apontam para uma receita de aproximadamente US$ 45,8 bilhões e um lucro por ação (LPA) de US$ 1,00, superando a própria estimativa da Nvidia, que está em US$ 45 bilhões (±2%).

O segmento de data centers, alimentado pela adoção da arquitetura Blackwell, deve ser o principal motor dos resultados, com analistas projetando um aumento de 73% na receita desse segmento em relação ao mesmo período do ano anterior, atingindo cerca de US$ 39 bilhões. Apesar dos desafios trazidos pelos controles de exportação dos EUA sobre os chips H20, que podem ter resultado em uma perda de receita estimada em US$ 8 bilhões, o segmento de jogos da Nvidia deve apresentar um crescimento de 48% na receita, alcançando US$ 3,8 bilhões no trimestre.

Além dos números, há grande expectativa em relação à conferência de resultados, especialmente quanto às projeções da empresa para os próximos trimestres, considerando o atual cenário de guerra tarifária e o otimismo em torno da expansão do mercado de IA.

Além do resultado da Nvidia, teremos ainda os seguintes anúncios:   

Vale lembrar que fazemos um acompanhamento completo dos diversos balanços já divulgados em nossa página: Resultados Corporativos Archives – Avenue Connection.

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Aquele abraço!

William Castro Alves

Estrategista-chefe da Avenue Securities

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William Castro Alves

William Castro Alves

Estrategista-Chefe da Avenue

Formado em economia pela UFRGS – RS. Em 2004, iniciou sua carreira na Solidus Corretora, com passagens pelo Koliver Merchant Bank e Banco Alfa. Foi sócio, analista-chefe e um dos principais porta-vozes da XP Investimentos. Também foi sócio e líder de gestão da VGR Gestão de Recursos. Possui as certificações Series 7 e 24. É estrategista-chefe, sócio e porta voz da Avenue desde 2018.

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