Por Andressa Castro, Economista-chefe da BNP Paribas Asset Management Brasil.
11 fev 2026
A economia dos Estados Unidos entra em 2026 sob a combinação de choques institucionais, estímulos fiscais robustos e divergências incomuns entre atividade e mercado de trabalho — um cenário que moldará as expectativas para política monetária, inflação, crescimento e risco para os ativos americanos ao longo do ano. O mercado acionário tende a se beneficiar da expansão econômica, da redução tributária, da menor regulação e do avanço dos investimentos em Inteligência Artificial (IA). Já o dólar, que permaneceu relativamente estável frente a outras moedas desde meados de 2025, deverá refletir forças opostas: enquanto o crescimento doméstico tende a beneficiá‑lo, a redução do diferencial de juros e as incertezas institucionais e geopolíticas podem contribuir para sua depreciação e maior volatilidade.
Desde o quarto trimestre de 2025, a economia americana apresenta uma configuração atípica, caracterizada por atividade robusta e mercado de trabalho enfraquecido. As causas dessa divergência ainda não estão plenamente esclarecidas. No âmbito da atividade, o consumo tem sido impulsionado majoritariamente por famílias de maior renda, beneficiadas pelos ganhos no mercado acionário e pelo consequente efeito riqueza. Por sua vez, o enfraquecimento do mercado de trabalho decorre da redução da oferta de trabalhadores, influenciada pela limitação da imigração, e da menor demanda por mão de obra, evidenciada pela queda no volume de contratações.

Fonte: BLS, BEA; Elaboração: BNPPAM Brasil
Para 2026, projeta‑se aceleração no consumo e nos investimentos, resultando em crescimento do PIB americano superior a 2%, alinhado às estimativas do Federal Reserve. Tal expansão será sustentada pela ampliação dos estímulos fiscais associados ao One Big Beautiful Bill Act, pelo afrouxamento das condições financeiras e pela dissipação dos efeitos das tarifas de importação implementadas em 2025. Adicionalmente, é esperado que os investimentos em IA comecem a gerar ganhos mais substantivos de produtividade e elevação do produto potencial no médio-prazo. Esse cenário é considerado particularmente favorável ao desempenho do mercado acionário.
O Federal Reserve iniciou seu ciclo de cortes de juros em outubro, com o objetivo de reduzir o grau de restrição monetária. Com a taxa atualmente situada entre 3,50% e 3,75%, o mercado busca estimar o espaço remanescente para reduções adicionais ao longo do ano. A precificação atual aponta para dois cortes adicionais de 25 pontos‑base em 2026, enquanto a mediana das projeções dos membros do FOMC indica apenas um corte para esse ano. O comitê tem adotado postura prudente, sinalizando sua preferência pela pausa, para a avaliação de novos dados referentes à atividade, ao mercado de trabalho e à inflação.

Fonte: Federal Reserve; Elaboração: BNPPAM Brasil
O cenário é desafiador: a atividade permanece forte enquanto o mercado de trabalho demonstra fragilidade, e a inflação, embora em trajetória de desaceleração, segue acima da meta de 2%, com o núcleo do PCE registrando 2,8% de variação anual na última leitura divulgada. Esse contexto intensifica a divergência entre os dois pilares do mandato dual do Fed — pleno emprego e estabilidade de preços — e acentua a dispersão de expectativas dentro do próprio comitê sobre o nível adequado da taxa ao final do ano.
A divergência entre as avaliações sobre a política monetária tem desencadeado respostas de natureza política. O Presidente Donald Trump tem criticado publicamente a condução da política monetária, chegando a sugerir a demissão de Jerome Powell, o que culminou em acusações formais do Departamento de Justiça contra o presidente do Fed por suposto gasto excessivo na reforma da sede da instituição. Simultaneamente, Trump apresentou à Suprema Corte um pedido para demitir a diretora Lisa Cook, sob alegação de fraude hipotecária.
Essas tentativas de interferência suscitam dúvidas sobre a futura indicação para a presidência do Fed, dado que o mandato de Powell expira em maio. Há preocupação de que o próximo nomeado possa ceder a pressões políticas por cortes de juros, conduzindo o comitê a calibrar a taxa em patamar inferior ao justificado tecnicamente. Para os mercados, o risco reside no possível acentuamento da inclinação da curva de juros, com a ponta curta pressionada artificialmente para baixo e a longa refletindo expectativas de inflação mais elevada e deterioração institucional.
Outro vetor de incerteza decorre das decisões imprevisíveis do governo Trump no âmbito da política externa, envolvendo tanto questões tarifárias quanto disputas geopolíticas. Após um ano marcado por sucessivas alterações tarifárias, 2026 se inicia com interferências na Venezuela e ameaças de imposição de tarifas a países europeus como parte da tentativa de adquirir a Groenlândia.
Embora alguns desses episódios já tenham sido parcialmente mitigados, o padrão observado aponta para um ano de elevada volatilidade para os ativos americanos. Se, por um lado, o governo buscou encerrar o conflito entre Israel e Hamas e incentivar negociações entre Rússia e Ucrânia, por outro, sinalizou possibilidade de intervenções no Irã, na Colômbia e em Cuba, além de interesse em retomar o controle do Canal do Panamá.
Assim, 2026 tende a ser um ano marcado por expansão econômica, mas também por volatilidade. O desafio central será navegar entre oportunidades geradas pelo ciclo de crescimento e pelas transformações tecnológicas, ao mesmo tempo em que se monitora atentamente a evolução do quadro institucional americano. A depender de como esses vetores se desenrolarem, o ano poderá consolidar uma trajetória de prosperidade sustentada ou revelar vulnerabilidades que hoje se encontram parcialmente encobertas por estímulos e otimismo financeiro.
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