Por Martin Iglesias, responsável pela Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco
11 fev 2026
Há poderes que se exercem em silêncio, em salas revestidas de madeira, onde uma frase cuidadosamente escolhida pode mover trilhões de dólares e alterar o destino de nações inteiras. Os presidentes do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, são guardiões do tempo.
Talvez o símbolo mais elegante de sua independência seja o próprio calendário. Seu mandato foi concebido para atravessar ciclos políticos, permitindo decisões orientadas não pelo ruído do presente, mas pela estabilidade do futuro. O presidente eleito governa o agora. Os presidentes do Fed protegem o amanhã.
E é justamente ao observar aqueles que ocuparam essa cadeira nas últimas décadas que compreendemos como a política monetária é, acima de tudo, uma narrativa sobre confiança, crises e reconstrução.
Paul Volcker assumiu em 1979, quando a inflação corroía a confiança no dólar. Era uma inflação que não apenas encarecia bens, mas enfraquecia a própria ideia de estabilidade. Volcker teve a coragem de elevar os juros a níveis superiores a 20%, provocando uma recessão necessária. Seu gesto foi um ato de reconstrução. Seu legado foi restaurar a credibilidade da moeda e mostrar que a confiança exige disciplina.
Alan Greenspan assumiu em 1987, às vésperas de um crash que testaria sua liderança. Conduziu o Fed durante crises sucessivas e durante a ascensão da economia digital. Greenspan compreendia que estabilidade monetária era, acima de tudo, estabilidade psicológica. Seu legado foi consolidar o Fed como um estabilizador silencioso em um mundo em transformação.
Ben Bernanke chegou em 2006 como um estudioso da Grande Depressão. Quando a crise financeira de 2008 ameaçou o sistema global, ele aplicou esse conhecimento à realidade. Reduziu juros a zero e expandiu o balanço do Fed em uma escala inédita. Seu legado foi evitar que uma crise financeira se transformasse em uma depressão econômica.
Janet Yellen assumiu em 2014, em um momento de recuperação ainda incompleta. Sua condução foi marcada pela paciência e pela compreensão de que o pleno emprego fortalece não apenas a economia, mas a própria confiança social. Seu legado foi permitir que a expansão amadurecesse com estabilidade, lembrando ao mundo que a política monetária também é uma forma de proteger o tecido econômico das pessoas.
Jerome Powell enfrentou a pandemia e, logo depois, a inflação mais intensa em quatro décadas. Primeiro, garantiu liquidez para preservar o funcionamento dos mercados. Depois, elevou juros com firmeza para restaurar o equilíbrio. Sua marca foi enfatizar que a política monetária deve ser guiada pelos dados, não por convicções imutáveis. Em um mundo de incertezas, Powell lembrou que a prudência do banco central está em ouvir a realidade antes de tentar conduzi-la.
E agora surge Kevin Warsh, cujo nome foi indicado para liderar a instituição, ainda sujeito à validação pelo Senado americano, um rito que simboliza o peso e a responsabilidade do cargo.
Sua trajetória reflete uma rara convergência entre teoria e prática. Warsh é formado em políticas públicas pela Stanford University e em direito pela Harvard Law School. Atuou no Morgan Stanley, onde compreendeu o funcionamento dos mercados em sua dimensão real. Serviu na Casa Branca como assessor econômico e foi membro do Board do Federal Reserve entre 2006 e 2011, participando diretamente das decisões durante a crise financeira global.
Essa experiência múltipla lhe oferece uma perspectiva singular. Ele conhece os mercados, compreende as instituições e respeita o peso da história. Sabe que política monetária não é apenas uma equação, mas um exercício de julgamento sob incerteza.
Mas, no caso de Warsh, a história ainda será construída.
Ele assume o cargo não como uma conclusão, mas como um início. Seus predecessores também começaram como nomes e se tornaram símbolos apenas com o tempo.
Porque, no fim, os presidentes do Federal Reserve não administram apenas juros.
Eles administram algo mais delicado, a confiança.
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