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O som das alternativas

Por Martin Iglesias, responsável pela Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco

28 maio 2026

Os mercados financeiros convivem, vez ou outra, com fenômenos curiosos. Um deles parece estar acontecendo agora. Ao mesmo tempo em que os juros de longo prazo americanos permanecem elevados, as bolsas seguem renovando máximas históricas. Durante muito tempo, muitos analistas acreditaram que essas duas coisas dificilmente poderiam coexistir. Afinal, juros mais altos normalmente pressionam o valuation das empresas e reduzem a atratividade relativa das ações. Mas o mercado resolveu lembrar aos investidores que relações financeiras raramente são mecânicas.

Nos últimos anos, especialmente após a crise de 2008, grande parte da valorização dos ativos esteve associada à liquidez abundante e aos juros extremamente baixos.

Martin Iglesias

Responsável pela Recomendação de investimentos do Itaú Unibanco

O mais interessante é que a recente alta das bolsas americanas não parece ter ocorrido apenas por expansão exagerada de múltiplos. Em muitos casos, aconteceu justamente o contrário. Apesar da valorização dos índices, o P/E de parte relevante do mercado americano hoje é menor do que há um ano. Isso porque o “E” da fórmula, o lucro das empresas, cresceu de forma ainda mais intensa do que os preços das ações.

Esse talvez seja um dos pontos centrais do cenário atual. Nos últimos anos, especialmente após a crise de 2008, grande parte da valorização dos ativos esteve associada à liquidez abundante e aos juros extremamente baixos. Surgiu até uma expressão famosa naquele período: TINA, sigla para “There Is No Alternative”. Não havia alternativa às bolsas. Durante muito tempo, o mercado parecia ouvir apenas um único instrumento tocando. Quase toda a atenção, quase todo o capital e quase toda a busca por retorno caminhavam na mesma direção.

Hoje, o ambiente parece diferente.

Os títulos públicos americanos voltaram a oferecer yields relevantes em praticamente toda a curva. Pela primeira vez em muitos anos, a renda fixa internacional voltou a representar uma alternativa concreta para investidores globais. E, ainda assim, as ações americanas seguem encontrando suporte na força dos resultados corporativos, na resiliência do consumo e no avanço tecnológico, especialmente ligado à inteligência artificial.

Talvez estejamos entrando em um período raro de “abundância de alternativas”.

Durante muito tempo, investidores precisavam escolher entre crescimento ou renda, entre segurança ou potencial de valorização. Agora, ao menos temporariamente, o cenário parece mais equilibrado. Os mesmos fatores que mantêm os juros elevados, como crescimento econômico resiliente e expansão nominal da economia americana, também ajudam a sustentar os lucros corporativos.

Isso não significa ausência de riscos. Juros elevados continuam desafiando setores da economia, a inflação ainda exige atenção dos bancos centrais e parte importante da alta das bolsas permanece concentrada em poucas gigantes de tecnologia. Mas talvez o ponto mais importante seja outro.

Depois de mais de uma década em que o investidor praticamente precisava assumir risco para buscar retorno, o mercado parece voltar lentamente a um ambiente em que diferentes classes de ativos conseguem coexistir de maneira mais equilibrada. Bonds voltam a pagar juros relevantes. A renda fixa recupera parte de sua função histórica dentro dos portfólios. E, ao mesmo tempo, empresas americanas continuam demonstrando capacidade impressionante de adaptação, inovação e crescimento de resultados.

Talvez o investidor global esteja descobrindo que os mercados se parecem menos com uma disputa entre instrumentos isolados e mais com uma orquestra. Há momentos em que os violinos parecem dominar o palco. Em outros, os metais ganham força. Mas a riqueza da música raramente nasce de um único som. Surge justamente da convivência entre diferentes timbres, ritmos e intensidades.

Durante anos, a liquidez abundante fez com que praticamente apenas um instrumento pudesse ser ouvido com clareza. Agora, outros sons voltam lentamente a ganhar espaço. Bonds recuperam relevância. A renda fixa volta a oferecer rendimento real. E as ações seguem sustentadas pela força dos lucros corporativos e da inovação tecnológica.

Talvez a verdadeira mudança dos mercados globais não esteja em descobrir qual ativo tocará mais alto nos próximos meses. Talvez esteja no retorno de algo que parecia esquecido: a possibilidade de construir portfólios mais equilibrados, diversificados e harmônicos, em um mundo aonde o capital voltou, finalmente, a ouvir o som das alternativas.

Fontes e referências utilizadas

As reflexões apresentadas neste texto foram elaboradas a partir de dados públicos de mercado e indicadores econômicos amplamente acompanhados por investidores globais. Foram utilizadas informações de resultados corporativos e valuation compiladas pela FactSet e Bloomberg, dados da curva de juros americana disponibilizados pelo U.S. Treasury e pelo Federal Reserve Economic Data (FRED), além de estatísticas macroeconômicas do Bureau of Labor Statistics (BLS) e do Bureau of Economic Analysis (BEA). O conceito de “TINA” (“There Is No Alternative”) foi amplamente discutido em relatórios de estratégia global de instituições como BlackRock e Morgan Stanley ao longo do período de juros próximos de zero entre 2019 e 2022.

Martín Iglesias

Martín Iglesias

Especialista líder de recomendação de investimentos do Itaú Unibanco

Tem trinta anos de mercado, é responsável pela Recomendação de investimentos do Itaú Unibanco e membro da rede ANBIMA de Educação para Investidores. Pós-graduado em Finanças e Banking EAESP/FGV, Mestre em Economia pela EESP/FGV, onde leciona há vinte anos nos cursos de pós-graduação. É especialista em investimentos e finanças comportamentais. É autor dos livros “Investimentos: um livro de segredos e conselhos” e “4 dimensões de uma vida em equilíbrio”, “Investimentos: textos para nunca mais esquecer”, “Finanças Comportamentais e Arquitetura de Escolhas” e “Viajando nos Investimentos”. É colunista do íon e conteudista do Podcast Itaú Inversiones Colômbia.

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