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O petróleo mudou. E os Estados Unidos também

Por Martin Iglesias, responsável pela Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco

10 abr 2026

Em outubro de 1973, motoristas americanos enfrentaram algo que parecia inconcebível para a maior economia do planeta: filas quilométricas em postos de gasolina. A razão era geopolítica. Em resposta ao apoio ocidental a Israel durante a Guerra do Yom Kippur, países árabes produtores de petróleo reduziram drasticamente a produção e impuseram um embargo às exportações para os Estados Unidos e seus aliados. O preço do petróleo quadruplicou, a inflação disparou e a economia global entrou em turbulência.

O choque energético ajudou a produzir um dos períodos mais difíceis da história econômica americana moderna: a estagflação, combinação rara de crescimento fraco e inflação elevada.

Martin Iglesias

Responsável pela Recomendação de investimentos do Itaú Unibanco

A crise voltaria poucos anos depois. Em 1979, a Revolução Iraniana derrubou o xá e interrompeu parte relevante da produção do país. O resultado foi mais uma disparada de preços e um novo choque inflacionário que atingiu duramente os Estados Unidos. Naquele momento, o país estava profundamente vulnerável. A produção doméstica americana havia atingido seu pico em 1970, enquanto o consumo crescia rapidamente. A economia americana dependia cada vez mais do petróleo importado do Oriente Médio e, quando o fluxo de petróleo diminuiu, o impacto foi imediato. O choque energético ajudou a produzir um dos períodos mais difíceis da história econômica americana moderna: a estagflação, combinação rara de crescimento fraco e inflação elevada.

Cinco décadas depois, o petróleo voltou ao centro da geopolítica. O fechamento do Estreito de Ormuz, uma das passagens marítimas mais importantes do mundo para o transporte de energia, provocou forte reação nos mercados. O preço do petróleo subiu rapidamente e a volatilidade dominou o noticiário financeiro. O temor é compreensível. Cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente passa por essa rota estratégica, e uma interrupção prolongada sempre levanta a lembrança das grandes crises energéticas do século passado.

Mas os Estados Unidos de hoje não são os mesmos de 1973. A primeira grande mudança veio da tecnologia. A revolução do shale transformou radicalmente o mapa energético global. A combinação de perfuração horizontal e fraturamento hidráulico permitiu explorar reservas que antes eram consideradas economicamente inviáveis. Em pouco mais de uma década, os Estados Unidos passaram de grande importador para o maior produtor de petróleo do planeta. Hoje o país produz mais petróleo do que Arábia Saudita ou Rússia e, talvez mais importante, tornou-se exportador líquido de petróleo e derivados. Essa transformação altera profundamente a vulnerabilidade americana a choques externos. Nos anos 1970, uma interrupção no fluxo de petróleo do Oriente Médio significava escassez imediata. Hoje, o impacto aparece primeiro nos preços globais, não no abastecimento doméstico.

A segunda mudança importante é a diversificação da produção mundial. Durante boa parte do século XX, a oferta global era dominada por um pequeno grupo de países do Oriente Médio. Atualmente, a produção é muito mais distribuída, com participação relevante da América do Norte, da América do Sul e de outras regiões. Esse novo equilíbrio reduz o risco de que uma interrupção localizada provoque um choque sistêmico na economia global. A terceira mudança é institucional. As crises dos anos 1970 levaram os países desenvolvidos a criar mecanismos de proteção que simplesmente não existiam antes. Entre eles estão as reservas estratégicas de petróleo. Os Estados Unidos mantêm um dos maiores estoques estratégicos do mundo, capaz de liberar milhões de barris por dia em situações de emergência. Essas reservas funcionam como um amortecedor temporário em momentos de disrupção no mercado.

Por fim, há uma transformação silenciosa, mas extremamente relevante: a economia americana se tornou menos intensiva em energia. Desde os anos 1970, avanços tecnológicos, ganhos de eficiência e a crescente importância do setor de serviços reduziram significativamente a quantidade de energia necessária para produzir cada unidade de riqueza. Em outras palavras, a economia moderna consegue produzir mais com menos petróleo.

Nada disso significa que o choque atual seja irrelevante. O fechamento de uma rota logística tão importante naturalmente provoca pressão sobre preços e aumenta a incerteza nos mercados. Mas significa que os Estados Unidos de hoje estão muito mais preparados para lidar com esse tipo de evento do que estavam meio século atrás. A história energética das últimas décadas produziu uma ironia curiosa: o país que simbolizava a vulnerabilidade energética do mundo se transformou, silenciosamente, em um dos pilares da estabilidade do mercado global de petróleo. E isso muda profundamente a forma como devemos interpretar as crises do petróleo no século XXI.

Martín Iglesias

Martín Iglesias

Especialista líder de recomendação de investimentos do Itaú Unibanco

Tem trinta anos de mercado, é responsável pela Recomendação de investimentos do Itaú Unibanco e membro da rede ANBIMA de Educação para Investidores. Pós-graduado em Finanças e Banking EAESP/FGV, Mestre em Economia pela EESP/FGV, onde leciona há vinte anos nos cursos de pós-graduação. É especialista em investimentos e finanças comportamentais. É autor dos livros “Investimentos: um livro de segredos e conselhos” e “4 dimensões de uma vida em equilíbrio”, “Investimentos: textos para nunca mais esquecer”, “Finanças Comportamentais e Arquitetura de Escolhas” e “Viajando nos Investimentos”. É colunista do íon e conteudista do Podcast Itaú Inversiones Colômbia.

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