Por Martin Iglesias, responsável pela Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco
13 fev 2026
Em 18 de janeiro de 1772 nascia David Ricardo, um dos pilares do pensamento econômico clássico. Poucos economistas conseguiram formular uma ideia tão simples e, ao mesmo tempo, tão poderosa quanto a teoria das vantagens comparativas. Na essência, Ricardo mostrou que o comércio internacional não é um jogo de soma zero. Mesmo países menos eficientes podem prosperar se se especializarem naquilo que fazem relativamente melhor.
O comércio foi tratado como um vetor quase automático de crescimento e estabilidade. O mundo parecia ter se tornado definitivamente ricardiano.
Os últimos anos trouxeram choques que Ricardo não chegou a ver, mas que colocaram seus pressupostos sob tensão. Pandemia, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias produtivas, disputas tecnológicas e reindustrialização forçada mudaram o debate. Países passaram a aceitar menos eficiência em troca de segurança. A lógica da especialização passou a conviver com a lógica da resiliência. O comércio continuou essencial, mas deixou de ser neutro.
É nesse ambiente que o preço do dinheiro volta a falar mais alto. E, no sistema financeiro global, poucos preços são tão simbólicos quanto o do dólar.
A dinâmica recente do câmbio americano pode ser bem resumida por uma ideia conhecida como o Dollar Smile, formulada por Stephen Jen. A intuição é elegante. O dólar tende a se fortalecer nos extremos do ciclo global. Quando o mundo vai mal, o dólar sobe por ser reserva de valor, ativo de liquidez e refúgio. Quando os Estados Unidos vão bem demais em relação ao resto do mundo, o dólar também sobe, atraindo capital por diferencial de crescimento e juros. Ele só perde força nos momentos intermediários, quando o crescimento global é mais equilibrado e o apetite a risco se espalha.
O sorriso do dólar é, na prática, a tradução financeira das tensões que Ricardo não precisou enfrentar. Em um mundo integrado, mas fragmentado politicamente, o capital reage menos à eficiência pura e mais à percepção de risco relativo. O dólar deixa de ser apenas moeda e passa a ser termômetro do ciclo global.
Isso ajuda a entender por que previsões lineares sobre câmbio costumam falhar. O dólar pode se valorizar mesmo com déficits fiscais elevados. Pode subir em recessões e também em expansões. O que importa não é o estado absoluto da economia americana, mas sua posição relativa no ciclo global e o nível de incerteza do sistema.
Para os mercados, essa lógica tem implicações diretas. Quando o mundo se aproxima do lado esquerdo do sorriso, ativos defensivos ganham espaço, a volatilidade sobe e moedas emergentes sofrem. Quando o mundo se desloca para o lado direito, ações americanas, tecnologia e renda fixa em dólar tendem a atrair fluxos. Apenas no meio do sorriso surgem janelas mais claras para risco global, diversificação cambial e valorização de mercados fora do eixo central.
O ciclo atual parece oscilar entre esses pontos. Não estamos em um colapso global, mas também estamos longe de uma expansão sincronizada e tranquila. O resultado é um dólar resiliente, mercados sensíveis a narrativas e uma precificação de risco que muda rapidamente.
Talvez a principal lição, ao revisitar Ricardo em fevereiro, seja reconhecer que a economia global continua se apoiando no comércio e na especialização, mas opera hoje sob um grau de incerteza muito maior. Nesse ambiente, preços financeiros, especialmente o câmbio, acabam carregando mais informação do que modelos tradicionais conseguem capturar.
O sorriso do dólar não invalida Ricardo. Ele apenas lembra que, entre teoria e realidade, existe o ciclo. E é nele que os mercados vivem.
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