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Sob nova direção

22 maio 2026

Fazia frio naquela manhã de março em Austin, a capital do Texas, nos Estados Unidos, quando um Jaguar I-Pace elétrico saiu da rodovia e entrou na pequena rua do hotel onde eu estava hospedado. Ainda que já tenha visto de tudo em mais de dez anos atuando como jornalista do setor automotivo, senti um frio na barriga: era minha primeira vez em um veículo autônomo – no caso, um táxi da Waymo, subsidiária do grupo Alphabet (leia-se Google).

Mas o susto de não ver ninguém ao volante passou logo nos primeiros minutos do caminho até o centro da cidade, onde acontecia o South by Southwest (SXSW), um dos maiores eventos de inovação do mundo. Austin dispõe de um razoável serviço de transporte público e de patinetes elétricos, mas o que leva as pessoas a todos os cantos por lá são veículos da Uber e da Lyft – a última, ainda sem operação no Brasil. E foi em um desses deslocamentos via Uber, aplicativo parceiro da Waymo na cidade, que pude viver de perto a experiência de andar em um carro autônomo.

O temor de estar completamente nas mãos da máquina desaparece tão logo você se dá conta de como a coisa toda funciona. Pelo app, o usuário define o ponto A e o ponto B – onde o táxi-robô deve buscá-lo e onde vai abrir a porta para o desembarque. A partir daí, o carro recorre ao seu sistema de navegação para encontrar o passageiro. Ele é composto por um software que simula o ambiente real em um modelo virtual, por meio do qual o carro entende o trajeto. Sensores e câmeras espalhados pela carroceria atuam como seus olhos: indicam o tráfego à frente, a sinalização, os obstáculos.

Numa jornada iniciada há mais de uma década, o “motorista” da Waymo soma mais de 200 milhões de milhas (321,9 milhões de quilômetros) de experiência de direção no mundo real. Seus usuários não precisam saber dirigir e experimentam um dos níveis mais avançados de automação disponíveis hoje: podem se sentar, escolher a música e a temperatura, relaxar ou até trabalhar durante o percurso. O serviço da Waymo já está disponível em outras cidades norte-americanas, como Orlando, Miami, Los Angeles, Houston, Dallas e São Francisco – e segue com planos de expansão, inclusive internacional, em locais como Londres e Tóquio.

A Zoox, da Amazon, também começou um programa-piloto em setembro, em Las Vegas. De forma gratuita, o serviço já desembarcou em São Francisco, com seus táxis-robôs sem volantes, em formato que lembra uma caixa. Nos Estados Unidos, há ainda experiências em curso como a da Avride, que iniciou testes em parceria com a Uber em Dallas, e a operação do Robotaxi da Tesla, testado em Austin desde junho de 2025.

Na China, o avanço é especialmente acelerado devido à parceria público-privada que impulsionou o desenvolvimento de softwares de navegação. Empresas como a Baidu, com o serviço Apollo Go, expandem frotas autônomas em grandes centros urbanos, permitindo que passageiros experimentem esse formato de mobilidade nas principais cidades do país. Wuhan, Pequim, Xangai, Shenzhen e Chongqing inclusive criaram zonas específicas para testes e operação comercial de veículos 100% autônomos.

Seja como for, andar em veículos autônomos é um barato do ponto de vista do passageiro. O trânsito das grandes cidades consome tempo, energia e atenção. Dirigir exige foco constante, paciência e disposição para lidar com congestionamentos, imprudência de outros motoristas, perigos na via e uma série de riscos constantes. É nesse cenário que os carros autônomos surgem como uma proposta capaz de melhorar a experiência urbana: retirar do motorista a obrigação de conduzir, transformando o deslocamento em um momento útil – e, por que não, divertido.

David Wong, consultor da Alvarez & Marsal no Brasil, destaca que a Inteligência Artificial deve aprimorar ainda mais os sistemas de navegação, fundamentais para a direção autônoma mais segura e eficiente – não apenas em aplicações comerciais, mas também nos modelos destinados aos consumidores finais. “O software está revolucionando este tipo de direção, proporcionando modelos virtuais mais precisos para o controle do carro, melhorando o nível de segurança e ajudando o veículo a superar a complexidade de um trânsito caótico, por exemplo”, comenta.

Onde andar sem motorista

Os serviços de veículos autônomos já operam comercialmente ou em fase avançada de testes em algumas cidades do mundo. Veja onde:

ESTADOS UNIDOS: Phoenix (Arizona), São Francisco e Los Angeles (Califórnia) têm robotáxis comerciais da Waymo.

CHINA: Wuhan, Pequim e Chongqing: a Baidu, com o serviço Apollo Go, opera frotas de robotáxis em zonas delimitadas de grandes centros urbanos.

SINGAPURA: Há projetos-piloto de mobilidade autônoma em distritos planejados, com forte apoio governamental.

EMIRADOS ÁRABES UNIDOS: Dubai e Abu Dhabi estão testando a integração de veículos autônomos ao plano de mobilidade inteligente das cidades.

EUROPA: Países como Alemanha e Reino Unido realizam testes avançados, com autorização para operação em condições específicas, especialmente em rodovias e áreas controladas.

“O principal gargalo era a capacidade de o carro analisar o terreno de forma autônoma. Com a IA, a tecnologia voltou a avançar”

Milad Kalume Neto

Consultor automotivo

IMPACTO REAL

Para idosos, pessoas com deficiência ou quem não dirige, os carros autônomos ampliam o acesso à mobilidade. Há ainda a expectativa de redução de acidentes graves, já que a maioria deles decorre de erro humano. Sistemas automatizados não se distraem, não sentem sono, não bebem e operam com monitoramento constante do ambiente. Pelo menos é assim na teoria, aponta o consultor automotivo Milad Kalume Neto, da K.Lume.

“No começo do desenvolvimento da tecnologia autônoma, o principal gargalo era o nível de confiança do carro, ou seja, sua capacidade real de analisar o terreno de forma autônoma. Isso gerou percalços, alguns projetos e testes foram suspensos. Mas, com a chegada da IA, a tecnologia voltou a avançar”, diz.

O volante pode não desaparecer amanhã – mas, para muitos usuários, e para mim também, ele já deixou de ser essencial.

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Redação Avenue

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