22 set 2026
O Avenue Connection 2026 reuniu, no mesmo Palco Principal, três conversas que pareciam falar de coisas bem diferentes: um velejador que já cruzou o Atlântico remando, um narrador que passou mais de cinco décadas rodando o mundo e um capitão que ergueu a Copa do Mundo carregando o país nas costas. Juntas, porém, essas três conversas contam uma única história sobre memória, carreira e legado internacional.
Amyr Klink e a filha Marina Helena Klink mostraram como a gestão de risco de uma travessia oceânica se parece, ponto por ponto, com o planejamento de uma carreira ou de um patrimônio. Galvão Bueno contou como mais de cinco décadas de estrada pelo mundo ensinam a se reinventar, inclusive fora do microfone, com um negócio de vinhos na Itália. E Cafu, o capitão com mais participações na braçadeira da Seleção Brasileira, explicou por que o maior legado de uma carreira quase nunca é o troféu que ela deixa.
As três conversas aconteceram no palco principal do evento, reservado aos nomes mais aguardados da programação, e ilustraram bem o conceito de Geração Global: o de brasileiros que constroem e cuidam do próprio patrimônio sem fronteiras.

Amyr Klink não pretendia entrar para o Guinness Book. Ele só analisou, com cuidado, por que outros navegadores tinham falhado antes dele numa travessia do Atlântico Norte. “Não eram ondas de 15 metros, cansaço ou tubarões”, contou. “Eram falhas de preparação simples.” Esse hábito, aprender com o erro dos outros antes de correr o próprio risco, se tornou o método que sustentou décadas de viagens.
Esse mesmo raciocínio apareceu quando a família passou a embarcar junto. Klink lembra do dia em que, numa tempestade na Antártica, avisou às crianças a bordo que não voltaria para resgatar a própria filha caso ela caísse no mar naquelas condições. O choque funcionou como uma lição prática de gestão de recursos escassos, e o resto da tripulação passou a entender, sem precisar de um segundo aviso, por que cada regra do barco existia.
A parte financeira também não ficou de fora. Klink trabalhou dois anos em um banco, numa época de inflação de três dígitos no Brasil, e chama a experiência de uma bruta lição de vida. Foi esse aprendizado, mais do que qualquer talento natural para o mar, que sustentou projetos que levavam entre 8 e 10 anos para se pagar.
Marina Helena, a filha mais jovem, seguiu essa mesma lógica ao decidir trocar uma carreira no mercado financeiro pela medicina. “Não foi uma mudança movida por paixão”, contou, “e sim uma mudança muito planejada. Eu fiz contas, sabia quantos anos eu poderia parar e quanto dinheiro eu ia deixar de ganhar.” O próprio Amyr resume o que disse à filha antes de apoiar a escolha: “Antes de ser feliz, você precisa ser independente.”
🔗 Leia a cobertura completa do painel: Geração Global: as lições de risco e planejamento da família Klink

Galvão Bueno soma mais de cinco décadas circulando o mundo, entre coberturas de Copa do Mundo, Olimpíadas e Fórmula 1. Ele resume o que aprendeu com uma frase que herdou de um dos seus mestres na televisão brasileira, o Boni: “Amanhã sempre pode ser melhor.” A frase, segundo ele, vale tanto para um erro na narração quanto para qualquer outra área da vida.
Viver fora também significa aprender, na prática, a se adaptar. Galvão morou oito anos em Mônaco e viajou por dezenas de países, da comida ao idioma, do protocolo às regras locais. “Você vai se adaptando”, resume. “Isso é a vida da gente no dia a dia.”
A parte menos conhecida da vida internacional de Galvão é a vinícola que construiu na Itália, a Bueno Wines Itália. Ele descreve o processo em três fases:
Quase 20 anos depois, o negócio soma mais de 20 rótulos entre Brasil e Itália, com prêmios internacionais.
🔗 Leia a cobertura completa do painel: Galvão Bueno: memórias e ensinamentos da voz que marcou o esporte brasileiro

Antes de vestir a braçadeira de capitão da Seleção Brasileira pelo maior número de vezes na história do time, Cafu foi dispensado nove vezes por diferentes clubes. “O medo de perder tira a vontade de ganhar”, resume. “Se você tiver medo de arriscar, não vai para lugar nenhum.”
A liderança que exerceu dentro de campo, segundo ele, nunca teve relação com técnica. “O líder é exemplo”, afirmou. “Sejam líderes por exemplo, não líderes técnicos.” Para Cafu, liderar significa ser o elo entre pessoas (entre treinador e jogador, entre jogador e família) e se preparar antes mesmo de a oportunidade aparecer. “Eu me preparei sem saber que ia jogar a final da Copa do Mundo de 94”, contou. “Mas foi porque eu me preparei.”
O maior legado de Cafu, no entanto, não está nos quatro Mundiais que disputou. Hoje ele está entre os atletas que mais sustentam projetos sociais no mundo, incluindo iniciativas que já chegaram a Moçambique, levando alimentação regular a crianças em situação de vulnerabilidade, e ao sertão alagoano, onde um projeto ligado ao futebol já impactou mais de 12 mil famílias com acesso à água potável.
🔗 Leia a cobertura completa do painel: A mentalidade do capitão: o que Cafu ensina sobre liderança em ambientes de pressão extrema
Nenhuma das três conversas girou, de fato, em torno de investimentos. Mas as três seguiram o mesmo roteiro: entender o risco antes de correr, aprender com o erro (o próprio ou o de outros) e transformar preparo em decisão, não em impulso. É esse raciocínio que sustenta o conceito de Geração Global defendido pela Avenue: uma geração de brasileiros que já pensa, planeja e se movimenta sem fronteiras, com ou sem passaporte carimbado.
A boa notícia é que esse tipo de preparo pode ser aprendido antes da urgência, do mesmo jeito que Amyr Klink aprendeu com o erro dos outros antes de qualquer tempestade real.
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