01 out 2026
Seja quem for eleito em outubro, o próximo governo começa o mandato com um desafio pesado nas mãos: o risco fiscal no Brasil. Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto, e a conta de juros em 12 meses passou de R$ 1,18 trilhão, quase 9% de tudo o que o país produz em um ano. Entender esse quadro ajuda a explicar o comportamento dos juros e do dólar, e o que isso significa para os seus investimentos.
Esse foi o tema da segunda live da série Avenue sobre as eleições de 2026, que reuniu Marcela Rocha, Chief Investment Officer (CIO) da Avenue, e Marcos Fantinatti, economista-chefe da Verde Asset. Aqui a gente resume a conversa: de onde veio o problema, por que não dá para comparar o Brasil com Estados Unidos ou Japão, quais saídas estão na mesa e o que vale acompanhar a partir de 2027.
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Pense no orçamento de uma família. Se, ano após ano, os gastos superam a renda, a diferença vira dívida. E quanto mais endividada a família, mais caro fica pegar dinheiro emprestado. Com um país, a lógica é parecida.
Como lembrou a abertura da live, o risco fiscal ajuda a explicar duas coisas que o investidor brasileiro sente na pele: os juros reais do Brasil estão entre os mais altos do mundo, e o dólar costuma subir quando cresce a preocupação com as contas públicas. Só que manter juros altos por muito tempo tem custo. Quem precisa de crédito paga mais caro, e o próprio governo vê a conta de juros da dívida crescer. Vira um ciclo difícil de quebrar.
Quer entender com mais calma essa relação entre câmbio e percepção de risco? Vale ler: Risco Brasil: o que o dólar revela sobre sua carteira.
Marcos Fantinatti lembrou que, até a crise de 2008/2009, o Brasil operava com superávits primários expressivos, ou seja, o governo arrecadava bem mais do que gastava, sem contar os juros da dívida. Nesse cenário, o fiscal não era a grande preocupação do mercado.
Depois disso, o cenário mudou. Veio o período da chamada “contabilidade criativa”, em que várias despesas foram colocadas fora do orçamento oficial. Com a economia desacelerando, o resultado positivo sumiu e, desde 2014, o país passou a registrar déficits recorrentes.
Com mais de uma década de gastos acima da arrecadação, a dívida cresceu de forma contínua até os 82,9% do PIB de hoje. “Quanto mais endividado o emissor, maior o risco de crédito percebido pelo mercado e maior a taxa de juros cobrada para financiar essa dívida”, explicou Marcos. Para ele, a trajetória atual é insustentável no longo prazo, e reformas estruturais vão precisar acontecer em algum momento.
Uma comparação comum é olhar para países desenvolvidos com dívidas de 100% ou até 200% do PIB e concluir que o Brasil está tranquilo. Os dois convidados discordam.
Marcos lembrou que o Brasil é um país emergente e, citando dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), afirmou que a dívida brasileira está entre 20 e 30 pontos percentuais acima da média dos emergentes comparáveis. Marcela Rocha acrescentou um ponto importante: o Brasil não tem o privilégio de ter sua dívida financiada amplamente por investidores globais em moeda doméstica, além de já carregar uma carga tributária elevada e uma estrutura de despesas bastante rígida.
Outro ponto da conversa foi o arcabouço fiscal aprovado em 2023. Na avaliação de Marcos, ele impõe algumas restrições, mas ainda deixa o gasto crescer mais rápido do que a economia. O PIB potencial, que é quanto o país consegue crescer sem gerar inflação, fica entre 1,5% e 2% ao ano. Os gastos avançam em ritmo maior. Resultado: o peso da despesa em relação ao PIB continua subindo.
Somando União, estados e municípios, a despesa primária (tudo o que o governo gasta, menos os juros) equivale a cerca de 39% do PIB. Boa parte dela tem reajuste automático, atrelado à inflação, ao PIB ou ao envelhecimento da população. Fechar essa conta só com mais impostos prejudicaria o crescimento e, no fim, a própria arrecadação. Marcos também chamou atenção para os subsídios, que somam entre R$ 500 bilhões e R$ 600 bilhões por ano.
Para Marcos, o ajuste precisa vir principalmente pelo lado da despesa. Somando os gastos primários (cerca de 39% do PIB) e os juros (quase 9%), o setor público mobiliza perto de metade do PIB por ano. Ele destacou duas frentes:
Marcela reforçou que, entre investidores e agentes econômicos, existe um consenso: um ajuste baseado apenas em aumento de arrecadação ou em revisões pontuais, como o combate a fraudes, sem mudança estrutural nas despesas, tende a não ter credibilidade no longo prazo.
Marcos trouxe um exemplo da história recente: entre 2017 e 2019, com o teto de gastos em vigor, o país viveu um período de inflação e juros mais baixos, efeito da política fiscal e da monetária andando na mesma direção. Hoje, segundo ele, as duas puxam para lados opostos. O fiscal estimula a demanda com gastos e programas de crédito, enquanto o Banco Central precisa manter os juros altos para segurar a inflação.
A dificuldade política é que mexer em programas significa retirar direitos percebidos por grupos específicos, o que gera resistência. Por isso, historicamente, as grandes reações no Brasil costumam vir sob pressão do mercado, quando o câmbio dispara.
Marcela lembrou que, no momento, a valorização das commodities e o diferencial de juros (o chamado carry trade) têm amortecido essa pressão sobre o câmbio. Ao mesmo tempo, já aparecem sinais de desaceleração da atividade. Para Marcos, isso deixa o debate mais complexo, mas não inviabiliza a solução: se governo e Congresso sinalizarem compromisso com a sustentabilidade da dívida, o Banco Central ganha espaço para cortar juros, com efeito sobre a atividade em dois a três trimestres. Já se a resposta à desaceleração for mais gasto, cresce o risco de desancoragem fiscal, isto é, de o mercado perder a confiança de que as contas vão se equilibrar.
Para quem quer saber se o país está andando na direção certa, Marcos listou os sinais que merecem atenção:

E se o ajuste não vier? Para Marcos, ele acontece de um jeito ou de outro: “O ajuste fiscal é inevitável – ocorrerá por planejamento ou por reação a uma crise.” Com regras permissivas, a dívida continua crescendo, o prêmio de risco (o “extra” que o mercado cobra para emprestar ao país) sobe e os juros ficam mais caros. Como o país já está no vermelho mesmo com o PIB crescendo, uma queda de arrecadação por desaceleração tende a ampliar o déficit e exigir revisões mais duras lá na frente.
Na parte final da live, Marcela trouxe a conversa para a carteira. Para ela, o quadro fiscal brasileiro reforça a importância de diversificar internacionalmente e de manter parte do patrimônio em moeda forte. Ela organizou o raciocínio em três pontos:
Vale lembrar que investir lá fora também tem riscos. O câmbio oscila nos dois sentidos: se o real se valorizar, o patrimônio em dólar perde valor quando convertido de volta. Os mercados internacionais também passam por quedas, e cada classe de ativo tem a sua própria volatilidade. Por isso, a ideia não é trocar um risco por outro, e sim distribuir a exposição de acordo com seus objetivos, seu prazo e seu perfil.
É aqui que a pauta fiscal encontra a vida global. Para muita gente, ter uma parte do patrimônio em dólar pode ser uma forma de não depender de um só cenário, de uma só moeda e de um só ciclo econômico, seja para investir, estudar fora, viajar ou planejar o futuro da família.
Se você quer dar os primeiros passos, estes conteúdos ajudam:
Como montar carteira em dólar: passo a passo para diversificar globalmente.
Dolarização de patrimônio: o primeiro passo para uma alocação internacional com propósito
O recado da live é que o risco fiscal no Brasil é um desafio estrutural, que vai muito além de quem vencer a eleição. Existem caminhos técnicos claros, como lembrou Marcos, mas eles dependem de escolhas políticas difíceis e de tempo para mostrar resultado.
Na visão de Marcela, em vez de tentar prever o próximo movimento do dólar, faz mais sentido olhar para o patrimônio de forma global e planejada. Como resumiu a apresentadora no encerramento: diversificar independe do cenário de curto prazo.
A série continua: a terceira live acontece na quarta-feira, 7 de outubro, ao meio-dia, com William Castro Alves e o professor William Eid. Para não perder, inscreva-se no canal Avenue no YouTube. Se você perdeu o evento deste ano, vale conferir os 9 insights que marcaram o Avenue Connection 2026. E, para entender o caminho completo, confira o guia Como investir no exterior sendo brasileiro.
É a chance de o governo não conseguir equilibrar suas contas e manter a dívida em uma trajetória sustentável. Quando essa preocupação cresce, o mercado passa a cobrar juros mais altos para financiar o país, e o câmbio tende a ficar mais pressionado.
Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto de 2026. Em 12 meses, a despesa com juros passou de R$ 1,18 trilhão, quase 9% do PIB.
Porque o Brasil é um país emergente. Na live, os convidados lembraram que a dívida brasileira já está acima da média de países emergentes comparáveis e que o país não tem a dívida financiada amplamente por investidores globais na própria moeda. Além disso, a carga tributária já é alta e boa parte das despesas é rígida.
É a regra para as contas públicas aprovada em 2023, que limita o crescimento das despesas. Na avaliação de Marcos Fantinatti, da Verde Asset, ela funciona como uma “âncora fraca”, porque ainda permite que o gasto cresça mais rápido do que a economia.
De forma indireta, mas relevante. Ele ajuda a explicar por que os juros no Brasil ficam altos por mais tempo e por que o dólar costuma subir quando a desconfiança com as contas públicas aumenta. Isso mexe com o custo do crédito, com a inflação de itens ligados ao dólar e com o desempenho de diferentes classes de ativos.
Não. Investir lá fora reduz a dependência de um só país e de uma só moeda, mas traz outros riscos: o câmbio oscila nos dois sentidos e os mercados internacionais também passam por quedas. Por isso, a decisão faz mais sentido dentro de um planejamento que considere seus objetivos, seu prazo e seu perfil.
Novas regras fiscais que mostrem estabilização da dívida em três a quatro anos, menos despesas fora do orçamento, alinhamento entre os Poderes sobre o impacto fiscal das decisões e indicadores como arrecadação, resultado primário e dívida bruta.
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