31 jul 2026
Quando começamos a investir no exterior, uma das primeiras portas de entrada costuma ser o mercado de ETFs. Afinal, a facilidade de diversificar a carteira comprando uma única cota que, geralmente, segue um índice importante, como o S&P 500 ou o Nasdaq 100, é uma grande revolução no mercado financeiro. No entanto, à medida que nos aprofundamos no mercado internacional, nos deparamos com uma decisão. Faz mais sentido investir diretamente nos tradicionais ETFs americanos ou optar pelos UCITS ETFs (popularmente conhecidos como “ETFs Irlandeses”)?
Embora ambos os veículos compartilhem o mesmo objetivo de, em sua maioria, replicar índices de mercado, as diferenças regulatórias, tributárias e de planejamento sucessório entre os EUA e a Europa são significativas. Para o residente fiscal no Brasil, essas distinções são ainda mais importantes de serem observadas.
No artigo de hoje, faremos um comparativo completo entre essas duas estruturas, buscando evidenciar as principais diferenças relacionadas aos seus custos, fuso horário, regras de dividendos e os aspectos sucessórios que você precisa conhecer antes de montar a sua carteira.
Leia também: UCITS ETFs: O que são, como funcionam, e por que são chamados de “ETFs Irlandeses”?
Antes de compararmos, vale recapitular o que cada um significa:
Para dar uma dimensão do tamanho desse mercado europeu, os dados da European Fund and Asset Management Association (EFAMA) apontam que o total de ativos sob gestão em UCITS ETFs saltou de 1,35 trilhão de euros em 2023 para 2,17 trilhões de euros no final de 2024.
Leia ainda: ETFs americanos: o guia completo sobre Exchange Traded Fund nos EUA
A primeira diferença visível para o investidor brasileiro é o ambiente de negociação. Enquanto os ETFs americanos operam no fuso das bolsas de Nova York, os UCITS ETFs são negociados na Europa (principalmente em Londres). Isso exige atenção ao fuso horário: a Bolsa de Londres opera com uma diferença de 3 a 4 horas à frente do horário de Brasília (a depender do horário de verão), o que altera a dinâmica de negociação durante o dia.
No quesito custos, os ETFs americanos são historicamente conhecidos por suas taxas competitivas, e têm ficado cada vez mais baixas. Os UCITS ETFs tradicionalmente apresentam custos (expense ratios) ligeiramente superiores. No entanto, com a crescente competição global, essa diferença de custos tem diminuído, sendo quase imperceptível no dia a dia do investidor de longo prazo, como mostra o artigo do Banker on Wheels.
Uma diferença fundamental para o investidor brasileiro reside na forma como os dividendos são tratados:
Ao investir em empresas americanas, existe uma retenção na fonte sobre os dividendos distribuídos (withholding tax):
Para ETFs de acumulação sediados na Irlanda que investem em ações americanas, essa economia tributária de 15% ocorre internamente dentro do fundo, beneficiando o investidor brasileiro de forma indireta no valor de cota do ativo.
Esta é talvez a maior diferença entre os dois veículos, que costuma não ser muito abordada.
Para facilitar a sua visualização, estruturamos abaixo as principais diferenças de cada ativo:
| Característica | ETFs Americanos | UCITS ETFs (Irlandeses) |
| Bolsa | NYSE e NASDAQ (EUA) | Bolsas Europeias (como Londres) |
| Regulação | SEC (Estados Unidos) | Diretivas UCITS (União Europeia) |
| Ativos (2025) | Mais de 3.900 | Mais de 2.600 |
| Fuso Horário | Horário dos EUA | Horário de Londres |
| Custo | Em geral, bem baixo | Em geral, um pouco maior que os ETFs americanos |
| Retenção (Dividendos) | 30% | 15% (tratado Irlanda-EUA) |
| Distribuição | Predominantemente distribuição | Acumulação ou Distribuição |
| Diferimento Fiscal | Não | Sim (na acumulação, Lei 14.754/2023) |
| Herança (Estate Tax) | Sujeito (isenção de US$ 60 mil; alíquota podendo chegar a 40%) | Geralmente isento (non-US situs assets) |
A escolha entre investir em um ETF americano ou em um UCITS ETF passa por muitos critérios individuais, como identificar o seu perfil de investidor, definir claramente os seus objetivos, entender o perfil de risco, considerar o horizonte de investimento e a residência fiscal.
Os ETFs americanos apresentam uma gama mais ampla de possibilidades, custos de administração ligeiramente menores e elevado volume de liquidez diária. Essas propriedades técnicas são comumente associadas a estratégias de curto prazo, movimentações táticas ou alocações em nichos específicos de mercado.
Já os UCITS ETFs, especialmente os sediados na Irlanda, de acumulação, resultam no diferimento fiscal, até o momento da efetiva venda, com os dividendos sendo reinvestidos. Além disso, por conta do tratado tributário com os EUA, a retenção na fonte sobre dividendos de ativos americanos dos EUA é reduzida de 30% para 15%. Sob a perspectiva sucessória, a custódia desses ativos na Europa desvincula o patrimônio do imposto de herança norte-americano (estate tax), características que costumam alinhar-se a carteiras estruturais de longo prazo.
TARDI, Carla. Undertakings for Collective Investment in Transferable Securities (UCITS). Investopedia, 20 jun. 2024. Disponível em: https://www.investopedia.com/terms/u/ucits.asp.
EUROPEAN FUND AND ASSET MANAGEMENT ASSOCIATION. Quarterly Statistical Release: No 96, Q4 2023. Bruxelas: EFAMA, 2024. Disponível em: https://www.efama.org/sites/default/files/files/quarterly-statistical-release-q4-2024.pdf.
ETFS in Luxembourg: where do we really stand?. PwC Luxembourg Blog, 2024. Disponível em: https://blog.pwc.lu/etfs-in-luxembourg-where-do-we-really-stand/.
WHAT is UCITS and how does it affect ETFs?. ETF Stream. Disponível em: https://www.etfstream.com/education/regulation/what-is-ucits-and-how-does-it-affect-etfs.
YCHARTS. US Number of ETFs. YCharts. Disponível em: https://ycharts.com/indicators/us_number_of_etfs.
UCITS-ETFS.COM. All UCITS ETFs in one place. Disponível em: https://www.ucits-etfs.com/.
BANKER ON WHEELS. UCITS Vs U.S. ETFs: Pros And Cons For Non-US Investors. Banker on Wheels, 2024. Disponível em: https://www.bankeronwheels.com/ucits-etfs-vs-us-funds-for-non-us-investors/.
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