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Rumo ao exterior

20 maio 2026

Quem viajava para o exterior há três décadas certamente se recorda da logística para trazer produtos importados raros nas prateleiras brasileiras – desde perfumes franceses até câmeras fotográficas, passando por azeites italianos e uísques escoceses.

Hoje, o mesmo smartphone e os mesmos chocolates suíços com frequência estão disponíveis em São Paulo, Nova York ou Lisboa. A indústria e o consumo se conectaram. No entanto, enquanto o cotidiano se tornou global, o planejamento financeiro de muitos investidores ainda permanece restrito a uma única moeda e jurisdição.

Mas, atualmente, desponta um movimento de brasileiros, enfim, se abrindo para o exterior com a intenção de preservar o patrimônio. Com essa mudança de atitude, o investidor passa a integrar sua vida financeira ao sistema global, não mais só ao local. Não se trata, aqui, de uma “fuga de capitais” motivada por um susto momentâneo. “Esse movimento pressupõe uma duração mais longa. O sujeito não tira o dinheiro porque a bolsa caiu, com a intenção de voltar depois. Ele decide estabelecer patrimônio fora”, explica William Eid Junior, professor titular de finanças da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, e diretor do Centro de Estudos em Finanças da mesma faculdade (o FGVcef).

Para muitos, a alocação de capital fora do país ainda é vista como um movimento sofisticado ou associado a maior risco. Mas não é o que mostra o estudo O impacto cambial no consumo dos brasileiros e a necessidade de diversificação internacional, elaborado por Eid Junior e outros pesquisadores do FGVcef, publicado em outubro de 2024. A motivação é objetiva: o câmbio influencia diretamente o custo de vida, do preço do pão (feito com trigo importado) aos combustíveis. Segundo a pesquisa, entre 10% e 25% da cesta do brasileiro é impactada pelas variações cambiais. “O estudo mostrou que o brasileiro, de forma geral, deve ter um mínimo de 16% de sua carteira alocada em ativos no exterior apenas para proteger seu poder de consumo. Para famílias de alta renda, esse percentual sobe mais um ou dois pontos”, afirma.

Especialistas em alocação estabelecem um paralelo com a política macroeconômica: assim como o Banco Central mantém reservas internacionais para reduzir a vulnerabilidade do país a choques externos, o investidor pode (e deve) utilizar ativos em moeda forte como instrumento de proteção patrimonial. A lógica desloca o dólar de uma posição associada à especulação cambial para um papel de gestão de risco. Ao começar a investir no exterior, o brasileiro quebra um padrão histórico de concentrar os ativos no país.

Investidores de economias menores, como Chile e Paraguai, segundo Eid Junior, mantêm parcelas relevantes do patrimônio fora de seus próprios países – em geral acima de 30% ou 40% – e, mesmo nos Estados Unidos, a exposição internacional costuma girar em torno de um quarto das carteiras. Esse comportamento, conhecido como home bias (viés doméstico), reflete a preferência por investir no próprio mercado, ainda que ele represente uma fração limitada do universo global de ativos listados. A ampliação do acesso a produtos internacionais e o avanço da educação financeira vêm reduzindo gradualmente essa concentração – afinal, diz Eid Junior, a resistência a olhar para o exterior frequentemente decorre de desconhecimento.

Investidores de economias menores, como Chile e Paraguai, por exemplo, mantêm parcelas relevantes do patrimônio no exterior – frequentemente acima de 30% ou 40%

O perfil de quem busca investir fora do país também está se ampliando. Se antes a alocação internacional estava restrita a grandes patrimônios, hoje inclui profissionais que recebem em moeda estrangeira, famílias que planejam educação no exterior para os filhos, investidores interessados em setores pouco representados na bolsa brasileira ou quem busca instrumentos como corporate bonds (títulos de dívida emitidos por empresas estrangeiras).

Levantamento recente da Avenue indica que a exposição global nas carteiras vem aumentando. Se, há poucos anos, a alocação média no exterior girava entre 5% e 10% e levava tempo para atingir 20%, hoje é comum que investidores iniciem suas carteiras globais já com 20% de exposição e avancem para patamares superiores a 30%, independentemente do perfil de risco. A tendência sugere uma mudança importante na forma como o investidor brasileiro distribui os riscos. Os Estados Unidos seguem como principal destino desses recursos, tanto pela solidez e liquidez do mercado quanto pela possibilidade de acessar, a partir dele, ativos do resto do mundo. A Europa também aparece como alternativa relevante, especialmente para investidores que buscam previsibilidade regulatória e estabilidade institucional.

Segundo Eid Junior, que vive em Portugal e acompanha de perto o fluxo de brasileiros que transferem residência e patrimônio para o exterior, a busca por outros mercados está associada à previsibilidade regulatória, estabilidade institucional e proteção jurídica. A proximidade do ciclo eleitoral de 2026 adiciona um impulso extra nesse movimento, já que, historicamente, períodos pré-eleitorais no Brasil costumam registrar aumento da volatilidade cambial e incertezas fiscais. A exposição a ativos no exterior tende a reduzir a sensibilidade a esses movimentos domésticos. Porém, essa decisão exige planejamento.

Em vez de tentar antecipar movimentos pontuais do mercado nacional, a discussão passa a girar em torno da preservação do poder de compra em moeda forte e da diversificação geográfica de riscos. Esse processo consolida-se menos como reação episódica e mais como uma estratégia estrutural de alocação de capital em um ambiente econômico globalizado.

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Esse material não foi produzido e não conta com a participação, conhecimento ou endosso do Banco Central do Brasil.

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Redação Avenue

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