Depois de um desempenho acima da média em 2023 e 2024, o mercado de crédito global tem enfrentado um certo dilema ao longo de 2025: os retornos até aqui foram impulsionados por uma combinação quase perfeita entre o carrego oferecido pelos títulos e a compressão de spreads. Mas… e agora?
Chegamos ao limite? Os spreads estão apertados demais? Ainda há oportunidade?
Durante um evento realizado em São Paulo há duas semanas, Howard Marks, um dos maiores nomes da história do mercado de crédito, resumiu bem o momento: “high side of fair value / beginning of rich, but not in bubble territory either”. Em outras palavras, já não é a barganha de dois anos atrás, mas também não é hora de sair correndo. E, convenhamos, quando o assunto é valuation, há classes de ativos hoje bem mais caras do que crédito, o que ajuda a sustentar a atratividade dos fundos de crédito global mesmo após os expressivos retornos dos últimos 24 a 36 meses.
Janela (ainda) aberta
O fato é que o crédito global continua oferecendo um ponto de entrada interessante. Pode não ser mais o auge da distorção, mas ainda é um mercado que recompensa bem o investidor – principalmente quando comparado com o histórico de outras classes de ativos.
Vamos a alguns números:
- Estratégias de crédito high yield continuam oferecendo yields na faixa de 8% ao ano em dólares;
- Para comparação: o retorno anualizado do S&P 500 nos últimos 25 anos foi próximo de 11%, com muito mais volatilidade.
- Ou seja, o investidor de crédito pode ganhar algo próximo ao que o investidor de ações recebeu nas últimas décadas, com menos sustos no caminho.
Além disso, na comparação entre o investimento em crédito e ações, o próprio Howard Marks fez um lembrete importante: a natureza contratual do crédito é um diferencial. Se em ações o retorno vem de dividendos (decisão da empresa) ou da valorização (opinião do mercado), no crédito o retorno está pré-definido: você empresta, recebe juros e tem o capital devolvido no vencimento – salvo inadimplência. Em outras palavras, os fluxos de caixa são muito mais previsíveis.
Mas e os spreads apertados?
Sim, os spreads estão abaixo da média histórica. Mas isso não significa necessariamente que o crédito ficou “caro”:
- A qualidade do benchmark melhorou: o índice de high yield tem hoje o maior percentual de empresas com rating BB dos últimos anos (um dos ratings de maior qualidade dentro do espectro non-investment grade e longe dos ratings considerados “créditos estressados”);
- A duration caiu: com prazos médios menores, o investidor precisa de menos prêmio de risco para ser compensado;
- Mais garantias: o percentual de dívidas garantidas no mercado High Yield está próximo dos 40% – o maior percentual das últimas décadas, e significativamente acima dos ~10% visto no começo dos anos 2000. Títulos de dívida que possuam garantias associadas oferecem uma camada de proteção adicional ao investidor.
- É uma questão de oferta e demanda: com yields altos, mais investidores estão comprando crédito – e isso, naturalmente, comprime os spreads;
- Reflexo do ciclo econômico: os spreads baixos também sinalizam confiança na resiliência da economia dos EUA. Para se ter uma ideia, a chance de recessão por lá em 2025 está hoje em apenas 15%, segundo o Polly Market – chegou a ser 66% em abril!
Além disso, o cenário de juros segue favorável. As expectativas atuais apontam menos de 30% de chance de que o Fed corte os juros mais de duas vezes este ano. Isso significa que os yields elevados devem permanecer por mais tempo – o famoso “higher for longer” – o que favorece o crédito.
Rodrigo Aloi
Head de Strategy and Research na HMC Capital
Gestão ativa faz toda a diferença
Para quem ainda se sente desconfortável com os níveis atuais de spread, vale lembrar: investir em crédito global não precisa ser sinônimo de comprar o índice passivamente.
Gestores ativos como a Oaktree têm flexibilidade para evitar emissores de maior risco, buscar nichos de mercado mais atrativos e ajustar a alocação geográfica de acordo com as melhores oportunidades. Um exemplo recente: a Oaktree tem aumentado sua exposição ao crédito europeu, em detrimento dos EUA.
Mas por que Europa?
Um relatório recente da Man Group aponta diversos fatores que tornam o crédito europeu especialmente atrativo no cenário atual:
- Retornos mais altos em termos nominais: mesmo com empresas de boa qualidade de crédito, o investidor está sendo remunerado com taxas de juros mais elevadas na Europa do que nos EUA. Isso significa que, na média, é possível obter mais retorno correndo o mesmo risco.
- Valuations mais conservadores: enquanto os spreads de crédito nos EUA já voltaram a níveis historicamente apertados, na Europa muitos segmentos ainda estão sendo negociados com prêmios maiores, oferecendo um ponto de entrada mais interessante.
- Menor concorrência por ativos: a menor presença de investidores institucionais globais na Europa gera menos competição por determinados títulos, abrindo espaço para gestores ativos encontrarem boas oportunidades com menos “disputa de preço”.
- Estrutura de mercado mais “friendly” para credores: em geral, os contratos de crédito europeus oferecem proteções melhores para o investidor (as chamadas covenants), o que reduz o risco de perdas em situações de estresse.
- Cenário político e macro já embutido nos preços: enquanto os EUA ainda precificam um cenário bastante benigno, parte das incertezas políticas e macroeconômicas da Europa já está refletida nos preços – o que, paradoxalmente, pode ser um ponto positivo. O investidor é mais bem pago para correr esse risco, e surpresas positivas têm maior chance de gerar valorização dos ativos.
- Diversificação dentro da própria Europa: há uma ampla gama de oportunidades entre países, setores e estruturas de dívida. Isso permite uma gestão ativa ainda mais granular e ajustada ao perfil de risco/retorno do investidor.
Conclusão: o crédito global ainda tem muito a oferecer. Talvez estejamos mais próximos do fim do ciclo de compressão de spreads, mas isso não significa o fim da oportunidade. Com uma boa gestão e uma visão ativa, ainda é possível extrair valor – e o carrego atual continua sendo difícil de ignorar.
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