Por Aquiles Mosca, CEO da BNP Paribas Asset Management no Brasil
17 set 2025
Você está diante de um exame em que há questões de múltipla escolha. Em uma das perguntas você marcou alternativa C. Porém, ao reler a prova antes de entregá-la ao examinador você ficou na dúvida de mudar ou não essa resposta. Algo lhe diz que a alternativa B pode ser a correta. O senso comum diz que, diante de uma situação como essa, não se deve mudar a resposta, uma vez que na maioria dos casos o instinto que levou à primeira escolha estaria geralmente correto. Um estudo feito por pesquisadores a Universidade de Illinois (Justin Krueger – 2002) apontou essa como a principal razão para 75% dos estudantes manterem suas respostas originais, apesar de terem dúvida.
Nesse estudo, os alunos foram orientados a marcar as respostas para as quais enfrentaram o dilema de alterá-las ou não. Um exame dos dados revelou que, quando decidiram por alterar suas respostas, tal mudança resultou na maioria dos casos em acertos. Em apenas em 25% dos casos a mudança de resposta gerou erro. Com números tão contundentes, como explicar a resistência que temos de rever nossa posição inicial? Por que a maioria acredita que a mudança as prejudicará, quando na verdade, na maior parte do tempo, é algo que as beneficia?
A resposta para essa pergunta está na forma como percebemos e processamos o resultado de uma mudança de posição e suas consequências. Os pesquisadores do estudo acima apontam que o pesar associado a uma mudança que se mostra equivocada é pior que aquele observado quando o aluno erra sem mudar sua resposta original. Além disso, foi observado que mudanças que resultaram em erros são lembradas com mais frequência e intensidade que alterações que geraram acertos. Esse fenômeno está na raiz da chamada aversão ao arrependimento, segundo o qual a maioria de nós buscará evitar o constrangimento do arrependimento e a responsabilidade por resultados negativos. Queiramos ou não, a decisão de agir, ou seja, de alterar o status quo, está associada a um grau maior de responsabilidade.
Os trabalhos Thomas Gilovich (2003) indicam que os maiores arrependimentos são aqueles relacionados a coisas que deixamos de fazer, como não ter passado muito tempo com os filhos, não se reconciliar com um parente que faleceu etc. Repare que esses são arrependimentos que levam tempo para se formar, diferentemente daquele que pode surgir no mercado financeiro com uma mudança de aplicação, cujo efeito pode ser imediato. Nesse aspecto, os pesquisadores mostram que no curto prazo, o maior remorso ocorre com erros associados a uma atitude proativa, ao passo que no longo prazo o maior pesar parece estar relacionado à inação, ou a coisas que deixamos de fazer.
Antes de concluir essa “viagem” com um conselho para o investidor é importante lembrar que a cautela pode ser tanto uma força positiva como negativa. Na realidade atual de cenário econômico e político incertos, tanto interna como externamente, o custo de não se tomar uma atitude parece ter mais custos que benefícios. Lembre-se que não decidir é, em si, uma decisão. Dado que atrasar e empurrar com a barriga são hábitos bem cultivados no Brasil, quando levamos em conta os argumentos anteriores, o mais provável é que esses fatores já estejam resultando em perdas, ou ganhos não aproveitados, pela maioria dos investidores brasileiros, principalmente se incluirmos nesse espectro oportunidades de investimento no exterior.
No mínimo, o investidor consciente deve questionar-se se uma parcela crescente de suas aplicações não deveria estar sendo direcionada ao exterior, onde os recursos encontrarão uma diversificação mais ampla, inclusive em setores e empresas que sequer existem no mercado financeiro brasileiro, e que lideram a transformação tecnológica global, como inteligência artificial, veículos elétricos, biotecnologia serviços de streaming, etc.
Aquiles Mosca é CEO da BNP Paribas Asset Management no Brasil. É professor de finanças comportamentais e gestão de ativos. Autor dos livros “Investimentos sob medida” e “Finanças Comportamentais”, é diretor da Anbima, onde é responsável pela Rede de Educação de Investidores.
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