29 jul 2026
Por Christopher Galvão, líder da gestão da carteira Nord Fundos
Escolher ações é difícil, e isso não é uma opinião. O SPIVA, levantamento que a S&P Dow Jones Indices publica há 25 anos, mostrou que 79% dos fundos de ações americanos dedicados a grandes empresas ficaram abaixo do S&P 500 em 2025.
Foi o quarto pior resultado da série, mas o número ruim não é exceção. Na maioria dos anos, a parcela de gestores que perde para o índice fica acima de 60%.

Diante de uma estatística dessas, a resposta do investidor americano foi pragmática. Se poucos vencem o índice, compre o índice.
Hoje, os ETFs respondem por algo próximo entre 20% e 25% da indústria de fundos nos Estados Unidos. No Brasil, esse número ainda ronda 1%. A diferença tem menos a ver com sofisticação do investidor e mais com custo, liquidez e uma cultura de alocação construída em torno do produto.
Até aqui, nada controverso. A gestão passiva funciona porque abre mão de uma disputa que a maioria perde, e cobra pouco para isso. O ponto é outro, e é bem mais silencioso. O produto que você compra hoje não é o mesmo produto que comprava dez anos atrás.
O S&P 500 é ponderado por valor de mercado. Quem vale mais, pesa mais. É uma regra simples, transparente e que não pede opinião de ninguém. Mas uma regra estável pode produzir um resultado instável, e foi exatamente o que aconteceu.
Em junho de 2025, as dez maiores empresas do índice respondiam por quase 40% dele. Uma década antes, esse número estava em torno de 20%. Para encontrar concentração parecida na série do S&P 500, é preciso voltar até meados dos anos 1960, quando um punhado de companhias industriais e de consumo carregava a bolsa americana nas costas.

Fonte: SP Global
A segunda transformação corre junto e chama atenção. Somando tecnologia, mídia e telecomunicações, esse bloco responde hoje por cerca de 47% do valor de mercado do S&P 500, segundo levantamento da Apollo com dados da Bloomberg. Em meados da década passada, rondava 25%.
O patamar atual está na mesma faixa do auge da bolha das pontocom.

Fonte: Bloomberg, Macrobond, Apollo Chief Economist. Dados consultados em 20 de julho de 2026
Ou seja, comprar o S&P 500 hoje é comprar uma carteira mais concentrada e mais tecnológica do que a de dez anos atrás. Isso não aconteceu porque alguém decidiu. Aconteceu justamente porque ninguém decidiu nada. A ponderação por valor de mercado se limitou a registrar o que subiu.
Um índice assim não é uma fotografia da economia americana. É um retrato do que vem dando certo, revisado a cada trimestre. A gestão passiva não tem opinião própria, mas reproduz com fidelidade a opinião de quem tem.
A comparação com os anos 1960 parece tranquilizadora, e é aqui que ela deixa de ser.
Em junho de 1965, as dez maiores empresas do índice também pesavam perto de 38%. Eram outras dez. Automóveis, petróleo, telefonia e grandes conglomerados industriais, com nomes como General Motors, Standard Oil de Nova Jersey, AT&T e IBM.
Seis décadas depois, esse mesmo grupo responde por cerca de 5% do S&P 500. Não houve um evento único por trás disso. Houve encolhimento, fusão, separação por decisão regulatória e, em alguns casos, desaparecimento.
Do outro lado da série, nenhuma das dez maiores de junho de 2025 fazia parte do índice quando o levantamento começou. Todas entraram depois, e a maior parte do peso que carregam hoje foi construída na última década.

A rotação continua acontecendo dentro do próprio grupo. Nvidia e Broadcom, hoje entre as maiores posições do índice, estavam longe do topo em 2015. Meta e Tesla também não figuravam ali.
A concentração de agora não é o resultado de dez empresas que se instalaram no alto da lista e ficaram. É o resultado de um topo que troca de ocupante com mais frequência do que a memória do investidor costuma registrar.
Isso corta nos dois sentidos, e é por isso que vale registrar. Serve de alívio para quem enxerga a concentração atual como um estado permanente do mercado, porque a série mostra que ela se desfaz. E serve de alerta para quem trata as líderes de hoje como líderes definitivas, porque a série mostra exatamente a mesma coisa.
Vale ampliar a lente, porque aqui está a parte que costuma passar batido.
O bom desempenho das bolsas nos últimos anos não veio de um país, veio de um tema. O avanço da Coreia do Sul se explica em boa medida por memória e semicondutores, com Samsung e SK Hynix à frente. No Japão e na China, a liderança também se concentrou em tecnologia. Nos Estados Unidos, a história é conhecida.
Isso tem uma implicação prática desconfortável. O investidor que diversifica geograficamente, comprando Estados Unidos, Ásia e mercados desenvolvidos, pode estar comprando quatro endereços diferentes e um único fator de risco. Diversificação de bandeira não é a mesma coisa que diversificação de exposição.
Nada disso transforma o S&P 500 em um ETF setorial. Comparado a um fundo de semicondutores como o SMH, o índice continua muito mais equilibrado, com 500 empresas, onze setores e peso relevante em bancos, saúde, consumo e energia.
Para o investidor que busca exposição à tecnologia com menos volatilidade e menos dependência de um único elo da cadeia, o índice amplo tende a ser uma alternativa a considerar, dependendo do perfil e dos objetivos de cada carteira.
O que mudou foi a calibragem. O investidor que já carrega um ETF de tecnologia ou de semicondutores e acrescenta S&P 500 imaginando que está equilibrando a carteira está, na prática, reforçando parte da mesma aposta. Não é um erro, desde que seja uma escolha. O problema aparece quando a exposição é somada pelo nome do produto e não pelo conteúdo dele.
A visão estrutural sobre os Estados Unidos segue construtiva. Vantagem competitiva, capacidade de inovação e profundidade de mercado continuam sendo argumentos difíceis de refutar, e a revolução tecnológica em curso faz parte dessa tese, não é um risco paralelo a ela. Para investidores com horizonte de longo prazo e perfil compatível, investir na bolsa americana via ETF permanece uma alternativa eficiente.
Mas alocação de longo prazo não é sinônimo de alocação desatenta. O índice se transformou nos últimos dez anos e vai se transformar nos próximos dez, talvez até mesmo em uma direção que ninguém está antecipando agora.
Acompanhar essa mudança não é tentar prever o topo do ciclo nem sair correndo do que vem funcionando. É apenas manter atualizada a resposta para uma pergunta simples, que é quanto de cada coisa você realmente tem.
Fontes e referências
Tenha em mente que os indivíduos não podem investir diretamente em nenhum índice, e o desempenho do índice não inclui custos de transação ou outras taxas, o que afetará o desempenho real do investimento. Os resultados individuais do investidor variam. O desempenho passado não garante resultados futuros.
Os investimentos mencionados podem não ser adequados para todos os investidores.
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