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Tecnologia ainda quer ser banco e bancos querem ser tecnologia?

Por Fernanda Melo, Especialista de produtos de investimentos no Itaú Unibanco.

09 fev 2026

Por diversas vezes, as big techs já flertaram com a ideia de entrar no setor financeiro. Google, Meta, Amazon e Apple já encararam essa jornada. No Brasil, a corrida vai para outra direção.  Bancos tradicionais e fintechs competem na experiência do usuário, com novos produtos, aplicativos e serviços surgindo. Por que nos Estados Unidos as empresas de tecnologia trilham outro caminho?

No Brasil, vemos os bancos buscando oferecer uma experiência mais tecnológica por desenvolvimento próprio ou adquirindo fintechs. Quando observamos o panorama global descrito na segunda edição do relatório The Future of Global Fintech, do Fórum Econômico Mundial, fica claro que o setor de tecnologia financeira passou por uma fase de expansão acelerada e agora avança para um estágio mais maduro. O relatório mostra como, entre 2020 e 2023, o crescimento das fintechs diminuiu em ritmo, mas aumentou em integração e parcerias, em vez de rupturas abruptas.

Em algum momento desse hiato, vimos empresas do setor financeiro se declarando como empresas de tecnologia. E em algum momento, as grandes empresas de tecnologia também tentaram se declarar como serviço bancário.

Fernanda Melo

Especialista de produtos de investimentos no Itaú Unibanco

O Google é sempre o caso mais emblemático. A empresa chegou a estruturar a conta Plex, uma conta digital integrada ao Google Pay que seria oferecida em parceria com grandes bancos americanos. Foi anunciada, ganhou lista de espera, chegou a ser testada internamente, e então simplesmente evaporou antes de nascer. O cancelamento expôs um impasse: para competir diretamente com bancos, o Google precisaria aceitar um nível de responsabilidade regulatória que não combina com o modelo de negócios de uma empresa de software.

A Meta tentou algo muito mais ousado: criar uma moeda global. Libra, depois renomeada Diem, prometia ser tão transformadora quanto polêmica. Não durou. Reguladores de diversos países se mobilizaram para conter o projeto, que parecia desafiar não apenas modelos bancários, mas estruturas monetárias inteiras. Em pouco tempo, o que parecia o futuro virou um estudo de caso sobre como a ambição tecnológica encontra limites quando entra no campo da política econômica internacional.

A Amazon também ensaiou seus passos. Durante anos, rumores circularam sobre uma conta bancária criada em parceria com bancos americanos. Nada se materializou. A empresa descobriu que podia alcançar resultados melhores financiando pequenos vendedores, oferecendo crédito, organizando pagamentos e usando dados para fortalecer seu próprio ecossistema.

A Apple lançou um cartão de crédito em parceria com o Goldman Sachs, criou um serviço de pagamentos dominante, um produto de crédito parcelado próprio e uma conta remunerada que acumulou bilhões de dólares em depósitos pouco depois do lançamento. Ainda assim, nada disso a transformou em banco. A Apple administra a interface, a confiança na segurança e o hábito. O banco administra a regulação.

Todas tentaram tocar o núcleo bancário, mas nenhuma avançou. As big techs não desistiram do setor financeiro. Elas apenas descobriram que, para moldar o futuro do dinheiro, não precisam sentar na cadeira de um banco. Basta controlar o ecossistema ao redor dele.

Fernanda Melo

Especialista de produtos de investimentos no Itaú Unibanco

Enquanto bancos estudam como usar modelos de IA para acelerar análises de crédito, detectar fraude e automatizar tarefas operacionais que antes exigiam horas humanas, as big techs constroem os fundamentos tecnológicos que tornam tudo isso possível.

A IA aproxima bancos e tecnologia, mas não dissolve as diferenças estruturais entre eles. Big techs usam IA para expandir fronteiras; bancos usam IA para reforçar as suas. Para empresas como Apple e Google, a IA é a engrenagem que torna invisíveis processos antes complexos, como pagamentos, identificação, autenticação ou análise de comportamento. Para os bancos, a IA opera dentro de limites rígidos, com rigor regulatório e monitoramento constante. É por isso que, quando uma big tech cria um recurso baseado em IA, ele se espalha instantaneamente por milhões de dispositivos; quando um banco faz o mesmo, a novidade chega em ondas, acompanhando aprovações, compliance e camadas de verificação.

No fim, a IA torna as diferenças mais evidentes. Ela entrega às big techs a vantagem da escala, da personalização e da velocidade. Aos bancos, oferece eficiência, segurança e melhoria operacional. E é justamente por causa da IA que as big techs perceberam que não precisam ser bancos para comandar boa parte da experiência financeira. Elas só precisam garantir que o mundo continue rodando sobre a tecnologia que elas criam.

Fernanda Peres de Melo, CFP®

Economista com uma carreira construída na interseção entre investimentos e comunicação. Buscando traduzir a complexidade financeira para o dia a dia das pessoas, Fernanda carrega mais de 10 anos de experiência no mercado financeiro, e atualmente ocupa a posição de especialista de produtos de investimentos no Itaú Unibanco.

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Fonte:

Relatório “Future of Global Fintech 2025” The Future of Global Fintech: From Rapid Expansion to Sustainable Growth – Second Edition | World Economic Forum

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