22 maio 2026
Por Daniel Haddad, Chief Commercial Officer da Avenue Securities LLC
Quando as manchetes anunciam guerras, instabilidades geopolíticas e quedas nos mercados, é natural sentir insegurança e medo. Esses eventos não afetam apenas números em uma conta bancária – eles colocam à prova nossas emoções, nosso julgamento e nossa capacidade de manter a calma. E, embora gostemos de acreditar que tomamos decisões puramente racionais, nosso comportamento nesses momentos é profundamente influenciado pela forma como o cérebro humano evoluiu.
Imagine um ancestral caminhando pela savana há milhares de anos. Ao ouvir um ruído atrás de uma árvore, sobrevivia quem ativava imediatamente o sistema de fight-or-flight (luta ou fuga). A amígdala – uma pequena estrutura em forma de amêndoa no sistema límbico – disparava uma cascata de reações: coração acelerado, respiração curta, suor nas mãos, músculos tensos e aquele conhecido frio na barriga. Essa resposta automática foi essencial para a sobrevivência da espécie.
No mundo moderno, porém, essa mesma reação pode se tornar uma armadilha. Notícias negativas sobre o mundo ou o mercado acionam a amígdala da mesma forma, gerando ansiedade, estresse e até pânico. E, sob esse estado emocional, somos frequentemente levados a decisões impulsivas, como vender investimentos no prejuízo ou interromper aportes justamente quando seria mais importante manter o planejado.
É por isso que uma carteira bem diversificada, composta por ativos de qualidade e acompanhada por um profissional qualificado, faz tanta diferença em momentos de turbulência. Um olhar externo ajuda a enxergar o quadro completo quando nossos instintos tentam nos empurrar para ações reativas. Segundo pesquisa da gestora de recursos Vanguard, a diferença de retorno anual entre investidores assessorados e não assessorados chega a pelo menos três pontos percentuais. Curiosamente, grande parte desse ganho adicional vem do papel do especialista como behavioral coach – alguém que ajuda o investidor a manter a calma tanto em crises quanto em períodos de euforia.
Também vale lembrar que um bom plano financeiro é construído para atravessar tempestades. Como nos ensina o investidor americano Howard Marks: nunca se esqueça do homem de um metro e oitenta de altura que se afogou ao atravessar um rio cuja profundidade média era de um metro e cinquenta. Se você diversificou seus investimentos e planejou o longo prazo, confie no processo.
Segundo o J.P. Morgan, um investimento de US$ 10 mil no S&P 500 no início dos anos 2000 valeria US$ 70.274 ao final de 2024. No entanto, um investidor teria perdido 54% desse retorno, acumulando US$ 32.195, caso tivesse perdido os dez melhores dias desse período de cerca de 6.300 dias. Caso tivesse perdido os 30 melhores dias, os US$ 70.274 teriam virado US$ 12.162. E mais: sete dos dez melhores dias ocorreram próximos aos piores dias, exemplificando a importância de permanecer investido e seguir o plano de aportes.
Momentos de instabilidade também evidenciam o valor da diversificação geográfica. Ter parte do patrimônio em países desenvolvidos e em ativos de alta qualidade pode ajudar a proteger a carteira. Para os Estados Unidos, instabilidade não é novidade: nas últimas décadas, o país enfrentou guerras, recessões, inflação elevada, ataques terroristas e crises políticas – e sempre emergiu mais forte, consolidando-se como hub do mercado financeiro global.
Num ambiente financeiro cada vez mais complexo e acelerado, a decisão mais sábia raramente é a mais imediata. Mantenha a serenidade, siga firme nos seus objetivos de médio e longo prazo e esteja atento às oportunidades que surgem justamente quando o medo domina o mercado. A volatilidade alta passa – e, com o comportamento adequado, você estará em uma posição melhor quando ela passar. Como diria o investidor e escritor Peter Lynch: “O órgão mais importante no investimento não é o cérebro, é o estômago”.
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