10 jun 2026
Em 2 de junho de 2026, a Avenue recebeu Luis Stuhlberger, CEO e CIO da Verde Asset Management, para uma conversa sobre o cenário global. Stuhlberger – gestor do Fundo Verde há 30 anos e um dos nomes mais respeitados do mercado financeiro brasileiro – compartilhou sua leitura sobre os três temas que, em sua avaliação, estão dominando os preços dos ativos no mundo hoje: a guerra entre EUA e Irã, o avanço da inteligência artificial e o problema fiscal das economias desenvolvidas.
A seguir, os principais pontos da conversa. Caso prefira, é só assistir ao papo completo no Youtube da Avenue.
Sobre a Verde Asset Management: Fundada em 2015 como continuidade de uma trajetória iniciada na Hedging-Griffo em 1989, a Verde AM tem R$ 15 bilhões sob gestão, distribuídos em cinco estratégias: Multimercado Brasil, Previdência, Multimercado e Ações Globais, Crédito e Ações Brasil. O Fundo Verde, flagship da casa, completou 30 anos em 2027.
O conflito entre Estados Unidos e Irã foi o ponto de abertura da apresentação de Stuhlberger. Para ele, a dinâmica atual é de uma guerra em que ambos os lados narram vitórias para pressionar a negociação – mas cujas exigências são estruturalmente incompatíveis no curto prazo.
Do lado americano, as exigências incluem restrição dura ao programa nuclear iraniano, remoção do estoque enriquecido, fim do apoio a grupos proxy e livre navegação no Estreito de Ormuz. Do lado iraniano, a demanda é pela saída militar americana da região, fim do bloqueio naval, alívio de sanções e desbloqueio de ativos congelados.
Stuhlberger avaliou que o mercado subestima sistematicamente riscos geopolíticos – um padrão histórico que se repete. Segundo ele, dois fatores explicam por que o S&P 500 voltou a bater recordes apesar da guerra:
O mercado foi redirecionado pela combinação de alívio nas tensões geopolíticas com resultados positivos de empresas de inteligência artificial, que reviram lucros para cima em velocidade e magnitude que Stuhlberger descreveu como rara.
Os líderes hoje no poder – incluindo Rússia, Coreia do Norte e Irã – são, por mais paradoxal que pareça, atores racionais que calculam as consequências de uma escalada total. Na visão de Stuhlberger, eles pensarão muitas vezes antes de apertar um botão irreversível.
O gestor trabalha com um cenário de trégua antes do início da Copa do Mundo, em junho de 2026. A lógica é política: a guerra é o evento com menor índice de aprovação popular de qualquer conflito americano recente, segundo dados de Gallup e UCSB. A aprovação à Guerra do Irã (2026) ficou abaixo de 45% – menor que a de Kosovo (1999), Grenada (1983) e a intervenção na Líbia (2011). Para comparação, a Segunda Guerra Mundial teve aprovação próxima de 100%.
Fonte: UCSB, Gallup (apud Verde AM, junho 2026)
Segundo Stuhlberger, uma trégua – mesmo que não definitiva – poderia gerar um mini bull market de curto prazo. Ele pontuou, porém, que o preço do petróleo dificilmente voltará a US$ 60 mesmo com cessar-fogo: repor os estoques consumidos durante o conflito levará anos.
Um dos pontos mais detalhados da apresentação foi a distinção entre os dois motores dos juros longos americanos. Para Stuhlberger, o mercado frequentemente confunde as causas – e isso leva a leituras equivocadas sobre o risco inflacionário.
O raciocínio de Stuhlberger é que há uma inflação da guerra – concentrada no petróleo e bens industriais, refletida nas expectativas de curto prazo (inflação implícita de 1 ano chegou a 3,5%) – mas que os fatores estruturais de longo prazo permanecem deflacionários: inteligência artificial e ganhos de produtividade, envelhecimento da população e a Ásia como grande exportadora de deflação global.
A pressão real nos juros longos, portanto, não vem da inflação – vem do lado fiscal. Os governos estão emitindo mais dívida para financiar gastos com defesa e medidas de alívio ao choque do petróleo, e o mercado está exigindo prêmio maior para absorver esse papel.
Fonte: Haver Analytics; Goldman Sachs; BofA; Deutsche Bank; JP Morgan (apud Verde AM, junho 2026)
Os dados apresentados mostram que, desde o início do conflito com o Irã, as taxas de 10 anos subiram de forma relevante em todos os grandes mercados desenvolvidos – EUA, Alemanha, Reino Unido, Japão e Canadá. A taxa nominal de 10y daqui a 10 anos (10y10y forward) chegou a 5,93% nos EUA, e as TIPS (equivalente americano das NTN-B) com prazo longo ficaram em níveis de juro real de 3% a 3,5% – significativamente altos para um país com o perfil dos Estados Unidos.
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Se há um tema em que Stuhlberger foi mais enfático, foi o fiscal. Em sua avaliação, a irresponsabilidade fiscal coletiva das democracias é o maior risco estrutural da geração – acima da guerra, acima do valuation do mercado acionário, acima da inflação.
O gestor usou uma analogia para descrever a dinâmica política que alimenta o problema:
A consequência prática: a dívida pública como percentual do PIB dos países desenvolvidos está em níveis só vistos após a Segunda Guerra Mundial – e crescendo. França com dívida próxima a 100% do PIB, Itália, Reino Unido, Japão e EUA em trajetórias insustentáveis no longo prazo. A diferença em relação ao pós-guerra, segundo Stuhlberger, é que antes havia um inimigo externo claro que justificava o endividamento. Desta vez, o problema é estrutural e endógeno.
O agravante é o aumento do gasto com defesa. A lição da guerra EUA × Irã – que atacar com drones ficou extremamente barato, mas se defender ficou extremamente caro – implica que os países desenvolverão mais capacidade defensiva. Na época da Guerra Fria, os EUA gastavam 6% do PIB em defesa. Hoje estão em torno de 3,5%, e a pressão é para subir.
Fonte: NATO Report 2025; Haver Analytics (apud Verde AM, junho 2026)
O impacto direto: 27 países já anunciaram medidas fiscais para aliviar o choque do petróleo, e o gasto com defesa na Europa – que havia subido com a guerra da Ucrânia – deve acelerar ainda mais. Mais fiscal significa mais dívida, mais emissão de títulos, e mais pressão sobre os juros longos.
Fonte: Haver Analytics (apud Verde AM, junho 2026)
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Uma das perguntas da moderação da Avenue foi direta: como justificar bolsas americanas em recordes com todo esse cenário macro incerto? A resposta de Stuhlberger foi também direta.
Primeiro, ele minimizou o risco inflacionário de longo prazo: salários, aluguéis e bens de serviço estão sob controle, e a Ásia segue como grande exportadora de deflação. Segundo, questionou se o múltiplo atual do S&P 500 é realmente excessivo:
A ressalva veio logo em seguida: o maior risco para as empresas de tecnologia e IA não é a guerra nem o fiscal – é a competição. O maior inimigo do capitalismo, na frase de Stuhlberger, não é a crise, é a competição, que eventualmente reduz margens. Mas no curto prazo, a revisão de lucros das empresas de IA foi, segundo ele, “uma das mais fortes e inesperadas num intervalo tão curto de tempo que eu vi na vida”.
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A guerra provocou um movimento incomum no mercado de ouro: países com pressão cambial – principalmente Turquia e Rússia – venderam reservas em ouro para sustentar suas moedas, interrompendo temporariamente a tendência de acumulação que vinha desde 2022.
Stuhlberger avaliou que a demanda estrutural de bancos centrais por ouro permanece intacta. Uma pesquisa do Goldman Sachs com 29 bancos centrais (conduzida em abril de 2026) mostrou que mais de 65% esperam aumentar suas reservas em ouro nos próximos 12 meses. O ouro já havia superado o dólar como principal reserva dos bancos centrais antes da guerra – um movimento sem precedentes históricos recentes.
Fonte: World Gold Council; Goldman Sachs Central Bank Survey, abril 2026 (apud Verde AM, junho 2026)
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Stuhlberger dedicou atenção especial às eleições de meio de mandato americanas (midterms), marcadas para novembro de 2026. A combinação de guerra impopular e queda de aprovação de Trump cria, segundo ele, um risco real para o controle republicano do Congresso.
Os dados de popularidade mostram Trump com aprovação em torno de 39% – significativamente abaixo da média dos últimos quatro presidentes para o mesmo período de mandato, segundo pesquisas do UCSB e Gallup. Em guerras impopulares, a perda de assentos nas midterms tende a ser expressiva. O mercado de apostas (Kalshi) apontava, na data da live, 45% de probabilidade de “blue wave” – democratas vencendo tanto House quanto Senado.
Fonte: UCSB; Gallup; Kalshi (apud Verde AM, junho 2026)
Para Stuhlberger, o resultado das midterms importa porque, se o Partido Republicano perder a Câmara e o Senado, Trump mantém o poder de governar por executive orders, mas perde a capacidade de fazer novas leis – o que muda o campo de ação do governo para os dois anos restantes de mandato.
A pergunta mais relevante para o investidor, Stuhlberger respondeu com clareza estrutural:
O raciocínio é que, num ambiente de dívida crescente e pressão sobre o valor das moedas fiduciárias, ativos que representam participação em empresas reais ou em reservas de valor físico tendem a preservar poder de compra melhor do que títulos de renda fixa de longa duração – especialmente quando os juros reais já subiram para níveis historicamente elevados.
Stuhlberger foi cuidadoso em não descartar um cenário de austeridade fiscal: “Não estou dizendo que é impossível. Mas, de todas as perguntas que foram feitas, o meu maior problema é o lado fiscal.” Em outras palavras, não é uma previsão de colapso – é uma identificação de onde está o risco mais subestimado.
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A live de Stuhlberger com a Avenue entregou uma leitura de mercado densa, com três camadas de risco bem separadas: uma de curto prazo (a guerra e seus efeitos imediatos sobre inflação e juros), uma de médio prazo (as eleições americanas e o cenário geopolítico) e uma de longo prazo (o problema fiscal estrutural das democracias desenvolvidas).
A mensagem central não é catastrofista – é de atenção calibrada. O mercado americano de ações continua com fundamentos sustentados por lucros crescentes e produtividade. O risco inflacionário de longo prazo é menor do que parece. Mas o problema fiscal acumulado pelos governos desenvolvidos, amplificado agora pelo aumento do gasto com defesa, é, na avaliação do gestor, o risco mais subestimado e mais duradouro do cenário atual.
Para o investidor brasileiro, a reflexão adicional é que o Brasil – com seu próprio problema fiscal e juros estruturalmente altos – não é uma ilha segura nesse ambiente. A diversificação internacional, em ativos reais e em mercados com fundamentos diferentes, segue como parte central de qualquer estratégia de preservação patrimonial de longo prazo.
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