Por Tomás Roque, Analista de Treinamento e Conteúdo Sênior da Avenue
06 abr 2026
No universo dos investimentos, a liquidez – a facilidade com que um ativo pode ser convertido em dinheiro – é uma variável muito importante para o investidor. Enquanto mercados tradicionais de ações e renda fixa, em geral, oferecem a possibilidade de converter tal investimento em dinheiro com um ou dois cliques, uma categoria de fundos que opera com uma lógica diferente tem ganhado tração na última década: os fundos semi-líquidos, também conhecidos como evergreen.
Esses veículos, frequentemente inseridos na categoria de investimentos alternativos, são projetados para estratégias de longo prazo. Em vez de liquidez diária, eles estabelecem janelas de resgate periódicas (trimestrais ou anuais) e limites de saque, uma estrutura que, embora pareça restritiva, é fundamental para sua tese de investimento.
Este artigo se propõe a aprofundar nesta classe de ativos, abordando sua estrutura, os mecanismos que governam sua liquidez e seus pontos de atenção.
Cabe aqui contextualizar que não estamos falando de uma experiência ou uma classe pequena dentro do universo financeiro. Quando falamos dos fundos alternativos no geral, estamos falando de mais de US$ 21 trilhões de valor total sob gestão. E o crescimento é muito expressivo: em 2005, eles representavam em torno de US$ 2,4 trilhões, ou seja, o mercado quase que se multiplicou por 10 nos últimos 20 anos. A imagem abaixo do J.P. Morgan Asset Management mostra essa evolução de uma forma gráfica.
Fonte: J.P. Morgan Asset Managemen (Mar.26)
Grande parte desse aumento se dá por conta da democratização desse tipo de ativo. Há alguns anos, ele era restrito a investidores institucionais, com aportes mínimos de US$ 1 milhão ou mais. Com o passar do tempo, as gestoras foram criando estruturas de acesso com mínimos muito mais acessíveis, como US$ 10 mil ou US$ 25 mil, permitindo que o investidor de alta renda pudesse adicionar estes fundos à sua carteira, claro, dentro da sua política de alocação e perfil de investidor, ponto extremamente importante dessa classe.
O termo evergreen é uma analogia às árvores que se mantêm verdes durante todo o ano, refletindo a natureza contínua e sem data de vencimento definida desses fundos – a melhor tradução livre para o termo seria algo “perene”. A ideia de perenidade, vinda do conceito Evergreen, nos deixa implícita a ideia de estratégias de mais longo prazo, diferentes dos fundos tradicionais, que podem ter estratégias com menor prazo e, em sua estrutura, uma maior liquidez.
A estrutura é o que permite aos gestores investir em ativos ilíquidos e de maturação mais longa, como:
Aqui é importante fazer uma diferenciação entre crédito privado no Brasil e no exterior. No primeiro, qualquer título de renda fixa não emitido pelo governo é caracterizado como crédito privado. Quando se vai para o exterior, a compreensão muda bastante. Entende-se como crédito privado empréstimos diretos a empresas, feitos por fundos ou estruturas que não são bancos, como foi explicado acima. Ter essa diferença em mente é necessária para entender tanto a classe como suas peculiaridades.
Talvez a principal característica operacional nos fundos semi-líquidos seja sua mecânica de resgate. Essa mecânica permite que a estratégia capture o prêmio de iliquidez (um potencial de retorno superior como compensação pela baixa liquidez) e que tende a proteger o investidor, mas também gera bastante dúvidas. Existem três mecanismos principais sobre liquidez e que distinguem esses fundos dos demais:
Quando um desses “gates” é acionado, apesar de assustar, nada mais é do que o funcionamento normal da estrutura do fundo. O acionamento dos limites é uma ferramenta projetada para evitar resgates que atrapalhariam o funcionamento da estratégia do fundo, e assim, descolando do seu mandato inicial.
Portanto é fundamental entender e estar ciente desse mecanismo desde o início, para não ter desalinhamento de expectativas ao realizar o investimento. Investidores acostumados com a liquidez diária dos mercados públicos podem se frustrar ao se depararem com essas restrições, evidenciando a importância de compreender plenamente a estrutura do produto antes de alocar capital.
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Abrir contaUma dúvida que pode surgir após tudo isso seria: Por que faria sentido investir nesse tipo de fundo? Para perfis mais moderados e que não necessitam de liquidez no curto prazo, essas classes de ativos trouxeram, historicamente, retornos descorrelacionados com uma parte dos mercados, além de retornos acima da média, mas com uma alta dispersão. Vou explicar isso melhor.
Antes de tudo, rentabilidade passada não significa rentabilidade futura, importante ter isso em mente. Como é possível ver no gráfico abaixo, da iCapital, os losangos são os retornos anuais nos últimos 10 anos, e todo o decorrer da linha que eles estão correspondem às faixas de retornos que eles tiveram. Traduzindo, quanto mais longa essa linha, maior a dispersão dos resultados. Em um ano pode ser -5%, no outro +20%, e assim por diante, durante o período de 10 anos.
Fonte: iCapital (mar.26)
Ainda neste gráfico, é possível ver que, historicamente, nos últimos 10 anos, quase todas as subclasses de fundos alternativos (semi-líquidos) performaram melhor que os mercados públicos de ações globais e títulos de dívidas globais. Isso mostra, de forma gráfica, como o prêmio por iliquidez e descorrelação dos mercados trouxeram retornos superiores, conforme o esperado de um investidor que aloca capital nesse tipo de estratégia.
Essa classe de fundos semi-líquidos tem crescido muito, e não é por acaso. Como vimos, são ativos que, historicamente, eram de difícil acesso, além de possuírem mínimos elevados, e conseguiram ter retornos descorrelacionados e, em certos casos, acima da média. Essas mudanças fizeram com que mais investidores do varejo e alta renda pudessem alocar parte do seu patrimônio em estratégias ainda pouco disseminadas para o público geral.
Se, por um lado, isso permite que mais pessoas invistam em veículos que trazem um prêmio de iliquidez, ou seja, buscam um retorno maior diminuindo a liquidez dos fundos, por outro, o mecanismo de janelas de resgate e limites ainda é novo para a maior parte dos investidores, podendo causar incertezas e dúvidas no decorrer da trajetória que, como os próprios fundos dizem, deveria ser de longo prazo.
Para o investidor com esse horizonte, que não precisará do capital investido para emergências e busca otimizar seu portfólio com fontes de retorno que costumam ser mais descorrelacionadas com os mercados públicos, os fundos semi-líquidos, podem ser uma possibilidade, sempre considerando o seu perfil de investidor e objetivos.
Referências
J.P. MORGAN ASSET MANAGEMENT. Guide to Alternatives. [S. l.], [20–]. Disponível em: https://am.jpmorgan.com/us/en/asset-management/adv/insights/market-insights/guide-to-alternatives/.
ICAPITAL. Alternatives Decoded – Q4-2025. [S. l.], 2025. Disponível em: https://icapital.com/ad/alternatives-decoded-q4-2025/.
INVESTOPEDIA. Understanding Evergreen Funding: A Smart Investment Approach. [S. l.], [20–]. Disponível em: https://www.investopedia.com/terms/e/evergreenfunding.asp.
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Tenha em mente que não há garantia de que qualquer estratégia será bem sucedida ou lucrativa, nem protegerá contra uma perda.
A incorporação de investimentos alternativos em um portfólio apresenta a possibilidade de perdas significativas, incluindo, em alguns casos, a perda total do valor principal investido. Além disso, alguns investimentos alternativos podem passar por períodos de extrema volatilidade e, em geral, não são adequados para todos os investidores. Estratégias de alocação de ativos e diversificação não garantem lucro nem protegem contra perdas em mercados em declínio.