Por Martin Iglesias, responsável pela Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco
13 ago 2026
Adicione como fonte preferencial no GoogleEm 1849, o porto de São Francisco parecia viver uma cena improvável. Navios chegavam quase diariamente trazendo milhares de pessoas em busca de ouro. Muitos marinheiros sequer esperavam o desembarque das mercadorias. Abandonavam suas embarcações e partiam imediatamente para as minas da Califórnia. Em poucos meses, centenas de navios permaneceriam ancorados e vazios na baía, formando uma impressionante “floresta de mastros”. A cidade, que pouco antes era um pequeno povoado de cerca de mil habitantes, transformava-se rapidamente em um dos lugares mais movimentados do planeta.
Quase dois séculos depois, multidões continuam chegando ao mesmo lugar. A diferença é que agora trazem computadores, algoritmos, projetos de inteligência artificial e sonhos de construir a próxima empresa revolucionária. Mudaram as ferramentas. Mudou a riqueza procurada. Mas a extraordinária capacidade daquela região de atrair talentos, capital e inovação permanece praticamente intacta.
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Há lugares que parecem destinados a enriquecer mais de uma vez. A Califórnia é um deles.
Tudo começou em janeiro de 1848, quando James Wilson Marshall encontrou pequenas pepitas de ouro nas águas do rio American, próximo ao Forte de Sutter. A descoberta espalhou-se lentamente nos primeiros meses, mas, ao longo de 1849, tornou-se conhecida em praticamente todo o mundo. Milhares de pessoas venderam seus bens, deixaram empregos e atravessaram continentes na esperança de encontrar fortuna.
A maioria jamais a encontrou.
Curiosamente, poucos garimpeiros enriqueceram de fato. A riqueza mais duradoura ficou com aqueles que vendiam pás, picaretas, botas, roupas, alimentos, hospedagem, transporte e serviços financeiros. A história econômica costuma lembrar Levi Strauss, que chegou à Califórnia para vender tecidos aos garimpeiros e acabou criando uma das marcas mais conhecidas do mundo. Em toda corrida do ouro existe uma velha lição de investimentos: muitas vezes os melhores negócios não estão na mineração, mas na infraestrutura que torna a mineração possível.
Essa infraestrutura transformou completamente a Califórnia.
São Francisco deixou de ser um porto distante para tornar-se um importante centro financeiro do Oeste americano. Bancos surgiram para custodiar o ouro extraído das minas, conceder crédito aos comerciantes e financiar novos empreendimentos. A Wells Fargo nasceu nesse ambiente de intensa atividade econômica. Poucos anos depois, a Bolsa de Valores de São Francisco ajudaria a financiar empresas de mineração, ferrovias e outros projetos de infraestrutura. O ouro não apenas criou fortunas individuais. Criou instituições, atraiu capital e lançou as bases de uma economia moderna.
As décadas passaram. As minas se esgotaram. O brilho do ouro diminuiu.
Seria natural imaginar que a prosperidade também desapareceria.
Mas aconteceu exatamente o contrário.
Ao sul de São Francisco, uma região conhecida durante décadas por seus pomares de frutas começou lentamente a mudar de vocação. Incentivada pela Universidade de Stanford, pela presença de engenheiros altamente qualificados e por investidores dispostos a financiar novas ideias, aquela área tornou-se o berço da indústria de semicondutores. O principal componente desses chips era o silício, elemento químico que acabaria emprestando seu nome à região mais inovadora do planeta: o Vale do Silício.
Se a primeira corrida trouxe garimpeiros, a segunda trouxe engenheiros.
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Empresas de eletrônica deram lugar aos computadores pessoais. Os computadores abriram caminho para a internet. A internet criou espaço para os smartphones. E estes, por sua vez, ajudaram a construir o ambiente tecnológico que hoje impulsiona a inteligência artificial.
É interessante perceber que a Califórnia venceu sucessivas revoluções econômicas sem realizar uma nova descoberta mineral. O recurso natural responsável por sua prosperidade deixou de estar debaixo da terra. Passou a estar entre universidades, laboratórios, fundos de venture capital e empresas capazes de transformar conhecimento em inovação.
Joel Mokyr, um dos maiores historiadores da economia contemporânea, utiliza a expressão “conhecimento útil” para explicar por que algumas sociedades conseguem crescer durante séculos enquanto outras permanecem estagnadas. A Califórnia talvez seja o melhor exemplo dessa ideia. Sua maior riqueza já não pode ser medida em toneladas de ouro nem em quilômetros de ferrovias. Ela nasce da combinação entre educação, pesquisa científica, empreendedorismo, segurança jurídica, disponibilidade de capital e uma cultura que aceita o risco como parte do processo de inovação.
Hoje, essa transformação impressiona também pelos números. Se fosse um país independente, a Califórnia seria a quarta maior economia do mundo, superando economias tradicionais como a do Japão. É um resultado extraordinário para uma região cuja projeção internacional começou com uma corrida do ouro há menos de duzentos anos.
Talvez estejamos assistindo agora à terceira grande corrida da Califórnia.
A primeira foi em busca do ouro.
A segunda, em busca do silício.
A terceira parece ser uma corrida em busca do conhecimento capaz de desenvolver os melhores modelos de inteligência artificial.
Naturalmente, nem todas as empresas sobreviverão. Como ocorreu em outras revoluções tecnológicas, haverá exageros, decepções e projetos que desaparecerão pelo caminho. Mas a história mostra que grandes ciclos de inovação costumam deixar um legado muito maior do que as empresas que fracassam. Deixam infraestrutura, conhecimento acumulado, novos mercados e ganhos permanentes de produtividade.
Para quem investe, talvez essa seja a principal lição da história da Califórnia. A riqueza muda de forma ao longo do tempo. No século XIX, ela era medida em barras de ouro. No século XX, em fábricas, semicondutores e computadores. No século XXI, cada vez mais se concentra em ativos intangíveis como software, propriedade intelectual, algoritmos e capital humano.
O ouro acabou. As minas se esgotaram. Mas a riqueza continuou surgindo no mesmo lugar. Apenas mudou de forma.
E talvez exista uma última lição, ainda mais importante. Nenhum dos homens que desembarcavam em São Francisco naquele agosto de 1849 poderia imaginar que, quase duzentos anos depois, a mesma região lideraria revoluções tecnológicas capazes de conectar bilhões de pessoas e de criar máquinas que aprendem. Isso nos lembra que as maiores transformações econômicas raramente nascem onde todos estão olhando. Elas costumam surgir quando conhecimento, inovação e capital encontram um ambiente capaz de transformá-los em prosperidade. O ouro escreveu o primeiro capítulo dessa história. É bem possível que o próximo ainda nem tenha sido inventado.
Fontes e referências utilizadas
BRANDS, H. W. The Age of Gold: The California Gold Rush and the New American Dream. Anchor Books, 2003.
ISAACSON, Walter. The Innovators. Simon & Schuster, 2014.
MOKYR, Joel. The Gifts of Athena: Historical Origins of the Knowledge Economy. Princeton University Press, 2002.
MOKYR, Joel. A Culture of Growth: The Origins of the Modern Economy. Princeton University Press, 2016.
California State Library. The California Gold Rush.
National Park Service. California National Historic Trail e California Gold Rush.
Computer History Museum. Timeline of Silicon Valley and the Semiconductor Industry.
Stanford University Archives. História da Universidade de Stanford e do desenvolvimento do Vale do Silício.
U.S. Bureau of Economic Analysis (BEA). Gross Domestic Product by State.
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