Por William Castro Alves, Estrategista-chefe da Avenue
23 mar 2026
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A escalada do conflito no Oriente Médio continua dominando os mercados globais, como consequência dos intensos ataques à infraestrutura energética, retaliações iranianas e tensões crescentes na região do Estreito de Ormuz. Os preços do petróleo subiram atingindo o valor de até US$ 110 o barril, durante a semana passada, em meio a temores de disrupção global.
Confira a linha do tempo dos principais eventos que marcaram a última semana:
Em resumo, o panorama geral de mais uma semana de conflito mostra: alta contínua de preços do petróleo, com temores de crise global de caráter prolongado. Sem sinais claros de desescalada, o conflito entra em sua quarta semana, com divisões internas entre EUA e Israel sobre os desdobramentos para um possível encerramento da guerra, o endgame.
Baseado nos eventos geopolíticos citados, seguimos acompanhando uma forte disrupção de oferta no mercado global de petróleo, conforme alertou a Agência Internacional de Energia (IEA) em seu relatório mensal de março (2026). O Estreito de Ormuz, principal canal para as exportações de petróleo dos países do Golfo Pérsico, viu seu tráfego cair drasticamente se tornando um grande gargalo logístico energético global — de cerca de 20 milhões de barris por dia que passavam por ali, para um consumo total de aproximadamente 100 milhões de barris de petróleo no mundo.
Diante de um cenário de tráfego marítimo incerto, a Arábia Saudita tenta contornar o problema acelerando o uso de seu oleoduto Leste-Oeste (Petroline), que transporta até 7 milhões de barris – do leste do reino até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. A rota alternativa já ganhou relevância, com volumes crescentes sendo redirecionados e até mesmo alguns tanques chineses carregando, em Yanbu, nos últimos dias. No entanto, o percurso carrega riscos próprios, como ameaças do Irã (ajudado pelo Iêmen) sobre possíveis ataques a navios no Mar Vermelho e instalações como Yanbu. Essas ameaças poderiam expor grande parte das exportações sauditas a novas vulnerabilidades.
Os Emirados Árabes Unidos também enfrentam sérios obstáculos em sua alternativa ao Estreito de Ormuz: o porto de Fujairah; terminal final do oleoduto Habshan–Fujairah, responsável por escoar cerca de 1 milhão de barris de Murban. Nas últimas semanas, o porto sofreu múltiplos ataques com drones (incluindo incidentes em 4, 15 e 16 de março), causando incêndios, interrupções temporárias em carregamentos e suspensão parcial de operações.
Abaixo, temos um gráfico ilustrativo que mostra algumas das instalações de petróleo que foram ou que vem sendo atingidas na região do Oriente Médio.
Fonte: Bloomberg.com 17/mar/2026
Em resumo, essas alternativas estratégicas adotadas pelos países acima, destacam a fragilidade das rotas de bypass e aumentam a pressão sobre os produtores do Golfo, que já sofrem com cortes de pelo menos 10 milhões de barris de produção combinada – devido ao entupimento de tanques de armazenamento e à falta de rotas de exportação viáveis. Com a IEA estimando uma queda global de oferta em torno de 8 milhões, apenas em março e liberação recorde histórica de 400 milhões de barris de estoques de emergência para mitigar o choque, o resultado esperado é que os preços continuem acima de US$ 100/barril e ameaçando uma crise energética prolongada, especialmente se as rotas alternativas continuarem sob ataque.
No gráfico abaixo conseguimos analisar as forças incidentes sobre o assunto, separados pelos motivos que geraram a alta no preço do petróleo em termos de: demanda (barras azuis), oferta (barras laranja) e contribuição do risco geopolítico (barras em rosa).
Fonte: Ziad Daoud on X 17/mar/2026
Saindo um pouco do conflito e seguindo para os dados relacionados à economia. Na última semana, o grande evento mais esperado era a Super Quarta, dia em que decisões de política monetária acontecem em diversos lugares do globo.
Tal como esperado, o Fed manteve os juros entre 3,50% e 3,75%, pela segunda vez em 2026, em linha com a expectativa do mercado. Essa ainda não foi uma decisão unânime, com a votação de 11 dirigentes a favor da manutenção de juros e apenas 1 dirigente, Stephen Miran (indicado por Trump), a favor de um corte de 0,25p.p.
Fonte: Bloomberg, Elaboração Avenue – 18/mar/2026.
O Banco Central Americano reconheceu a incerteza adicionada ao mercado pelo conflito no Irã, apesar do comunicado não indicar o potencial impacto de tal evento. O comunicado que acompanha a decisão ficou praticamente inalterado. A principal mudança foi a adição da frase que reconhece o componente de incerteza que o conflito no Irã trouxe ao cenário; em tradução: “as implicações dos acontecimentos no Oriente Médio para a economia dos EUA são incertas”.
Além disso, ocorreram mudanças nas projeções econômicas, essencialmente com:
Fonte: FederalReserve.gov 18/mar/2026
Após a decisão, a entrevista fornecida pelo presidente do Fed, Jerome Powell, trouxe alguns destaques sobre assuntos relevantes, como: guerra, petróleo, riscos, inflação e estagflação.
Guerra. Powell afirmou que a economia dos EUA está “indo bem”, porém existe grande incerteza quanto aos impactos da guerra no Oriente Médio em relação aos preços do petróleo. “Não sabemos quais serão os efeitos disso. Realmente, ninguém sabe“, comentou ele em entrevista.
Choque de Petróleo. O presidente do Fed afirmou que o choque de alta nos preços do petróleo pode pressionar a economia dos EUA para baixo, reduzindo gastos e empregos, ao mesmo tempo em que eleva a inflação. No entanto, como os EUA são exportadores líquidos de energia, matematicamente parte desse impacto negativo seria compensado pelo maior lucro das petrolíferas, que podem aumentar a produção — desde que vejam uma alta nos valores persistente e duradoura. Ainda assim, Powell relacionou que o aumento nos preços do petróleo deve resultar na elevação da inflação no curto prazo: “as expectativas de inflação de curto prazo subiram nas últimas semanas, provavelmente refletindo essa alta expressiva do petróleo. No curto prazo, preços mais altos de energia vão pressionar a inflação geral para cima, mas ainda é cedo para saber o alcance e a duração dos impactos na economia”..
Situação difícil. Powell afirmou que o Fed enfrenta uma “situação difícil”, precisando equilibrar os riscos no mercado de trabalho (com viés de baixa, o que sugeriria cortes de juros) e na inflação (com viés de alta, o que indicaria manutenção ou até elevação das taxas).
Inflação. O presidente do Banco Central Americano afirmou que a organização projeta avanço na inflação este ano para convergir a meta de 2%, embora mais lenta do que o desejado. Disse em entrevista: “Haverá algum progresso, não tanto quanto esperávamos, mas deve começar a aparecer no meio do ano, com os efeitos das tarifas diminuindo”. Ele ainda destacou que a previsão de cerca de dois cortes de juros em 2026 é condicional, ou seja, se a inflação não recuar como esperado, os cortes não ocorrerão.
Stagflation (Estagflação). Powell refutou um cenário de estagflação, dizendo que não utilizaria o termo “estagflação” para descrever o estado da economia dos Estados Unidos, ressaltando o quanto a atual situação difere da década de 70 quando o termo stagflation foi cunhado. Segundo o presidente do Fed, naquele cenário o desemprego estava na casa dos dois dígitos e a inflação era realmente elevada.
Além disso, conforme amplamente esperado, o FOMC (Federal Open Market Committee) optou por manter a taxa de juros inalterada. Contudo, o reconhecimento do conflito e as mudanças nas projeções reforçam um cenário prospectivo mais complexo e desafiador para os formuladores de Política Monetária. O choque de petróleo devido ao conflito no Oriente Médio elevou as projeções de inflação (para ~2,7% em 2026), reduzindo as chances de cortes rápidos – a tabela abaixo mostra como o mercado ajustou as expectativas para manutenção de juros ao longo de 2026 – e começam a surgir apostas de possível elevação da taxa básica. Sendo assim, o intuito principal do comunicado e da entrevista foi: ressaltar o nível de incerteza; o mercado já está ajustando suas expectativas de juros para 2026, precificando no máximo um corte nesse ano, com Powell destacando riscos bilaterais (inflação para cima, emprego para baixo) e dizendo que o Fed está no “limite superior” da restrição, sem pressa para afrouxar.
Fonte: CME Fed Watch Tool 19/mar/2026
Em contribuição a esse cenário, no mínimo desafiador, tivemos acesso ao dado de inflação ao produtor americano, que veio surpreendendo com valor bem acima do esperado. O Índice de Preços ao Produtor (PPI) dos Estados Unidos referente a fevereiro de 2026, divulgado pelo Bureau of Labor Statistics, mostrou uma aceleração inesperada da inflação em massa: o PPI subiu 0,7% no mês (acima da expectativa de +0,3% e do +0,5% revisado de janeiro), impulsionado por alta de 1,1% nos preços de bens (destaque para alimentos como: vegetais frescos e secos, diesel, ovos, gasolina e combustíveis de aviação) e 0,5% nos serviços (com forte contribuição de acomodações para viajantes). Em relação ao acumulado de 12 meses, o índice avançou 3,4%, o maior em um ano e acima dos anteriores (+2,9%), enquanto isso o núcleo (excluindo alimentos, energia e serviços comerciais) subiu 0,5% no mês e 3,9% no ano (maior alta em cerca de três anos).
Agora, em perspectiva, um fato preocupante é o possível aumento do preço do petróleo, que atualmente, se mantém elevado e tende a refletir nos preços ao produtor. O gráfico abaixo mostra que há uma forte relação entre o preço do combustível e a medição da inflação ao produtor.
O mercado de ações segue sofrendo influência dos desdobramentos envolvendo o conflito EUA-Israel x Irã, que elevou o petróleo e reacendeu temores inflacionários. Entre os dados econômicos recentes tivemos a forte revisão para baixo do PIB do quarto trimestre de 2025, ajustado para apenas 0,7%, o relatório fraco de emprego de fevereiro e o PPI mais alto que o esperado. O Fed optou por manter as taxas de juros inalteradas e adotou um tom mais cauteloso sobre os impactos da guerra.
Em relação aos setores, Energia (focado em petróleo) segue sendo a área de destaque positivo, beneficiado diretamente pela alta do petróleo; seguido por Utilities mais estáveis. Por outro lado, setores como Consumo Discricionário, Industriais, Financeiros e Materiais registraram os piores desempenhos, pressionados por custos mais altos e receios sobre o crescimento econômico. No geral, índices S&P 500 e Nasdaq encerraram a semana com quedas modestas.
Os mercados de juros continuaram chamando atenção essa semana, assim como nas últimas. Isso porque osyields dos Treasuries americanos vêm subindo e avançaram em uma toada de alta essa semana, eventualmente pressionados pelas preocupações com inflação geradas devido ao conflito no Oriente Médio e pela disparada do petróleo. O yield do Treasury de 10 anos encerrou em torno de 4,27% e 4,31%, acumulando alta na semana, enquanto o de 30 anos se aproximou dos 4,90%-4,91%, caminhando para o nível psicológico de 5%. Essa movimentação reflete a redução nas expectativas de cortes de juros pelo Federal Reserve.
Nos mercados de commodities, o petróleo segue roubando a cena com forte volatilidade e ganhos significativos devido à guerra e às disrupções no Estreito de Ormuz. O WTI negociou próximo a US$ 94 e US$ 100 por barril (com picos bem maiores), e o Brent ultrapassou a marca de US$ 100 chegando até US$ 103 o barril. Já o ouro e a prata vêm surpreendendo com quedas recentes mesmo em um cenário de aversão a risco.
O sentimento segue sendo de cautela diante da volatilidade. A guerra no Oriente Médio (envolvendo EUA, Israel e Irã) seguirá ditando o tom do mercado e impactando preços de petróleo, e consequentemente inflação.
Entretanto, para além do cenário geopolítico, essa semana (23 a 29 de março de 2026), o calendário econômico é leve, por isso deve gerar pouca pressão nos mercados. Na terça-feira (24) saem a revisão de produtividade do 4º trimestre e os PMIs flash de março (manufatura, serviços e composto), que vão mostrar se a atividade econômica está acelerando. Na sexta-feira (29), sai a divulgação do sentimento do consumidor de Michigan. Além disso, não há grandes dados de emprego, inflação ou vendas que possam mexer muito com as expectativas.
Abaixo, confira a agenda de eventos econômicos da semana.
Quanto aos resultados corporativos, a temporada de balanços está quase encerrada, logo, temos poucas divulgações. Segue abaixo o calendário semanal completo.
William Castro Alves
@willcastroalves
Aquele abraço!
Estrategista-chefe da Avenue Securities
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