Home Colunistas

Os monopólios de tech também são ‘too big to fail’?

Por Fernanda Melo. Especialista de produtos de investimentos no Itaú Unibanco.

29 jul 2025

Em 1984, o economista norte-americano Stewart McKinney popularizou o termo ‘too big to fail’ para descrever bancos tão grandes e tão interligados ao sistema financeiro que sua falência colocaria em risco o sistema financeiro inteiro.

Em 2025, na era da inteligência artificial, quase todos nós nos arrependemos de não termos investido um pouco antes em tecnologia. Quem dera ter participado da valorização das MAG7 (Microsoft, Apple, Google, Amazon, Nvidia, Meta e Tesla) desde o princípio…

Hoje são empresas tão interconectadas no nosso dia a dia que seria difícil passar um único dia sem interagir com alguma delas. Do smartphone que usamos para acordar, aos sistemas operacionais que operam nossos dispositivos, passando pelas buscas que fazemos, pelas compras online, redes sociais, serviços de nuvem que armazenam nossos arquivos, ou pelos chips que habilitam as tecnologias emergentes, essas empresas moldam a infraestrutura da nossa rotina. Mas será que são, assim como os bancos, grandes demais para quebrar?

Em 2024, o escritor Cory Doctorow provocou uma reflexão adicional ao cunhar a expressão “too big to care”. Empresas tão grandes que já não precisam mais se importar com a qualidade de seus serviços ou com a experiência do usuário, pois sua presença é quase inevitável.

Hoje quero falar sobre o questionamento mais recente que tenho escutado, sobre uma “meia-vida” dos monopólios de tecnologia. A disrupção provocada pela IA generativa está canibalizando os pilares dessas gigantes. O Google, por exemplo, cuja receita está alicerçada em publicidade atrelada à busca, já enfrenta uma concorrência qualitativa com ferramentas como ChatGPT e Perplexity. Para além de oferecerem respostas diretas sem a intermediação de links, esses assistentes estão evoluindo a um ritmo de dois dígitos ao mês, enquanto o Google tenta se adaptar otimizando seu próprio motor de busca sem comprometer seu modelo de negócio.

Mas não é apenas o buscador que está sob ataque. Todo o setor de tecnologia mostra algum grau de vulnerabilidade. Microsoft, Apple, Amazon, Salesforce, Intel, Dell são exemplos de companhias que se ergueram sobre arquiteturas que hoje soam anacrônicas diante de uma IA nativa, desenhada para substituir a complexidade dos sistemas tradicionais por interações muito mais naturais e eficientes.

Não seria absurdo imaginar um futuro próximo em que novos dispositivos móveis, sistemas operacionais e softwares surjam sob demanda por IA reduzindo a relevância das soluções atuais.

O que assistimos pode ser um ciclo natural de ascensão e queda que sempre caracterizou a história da tecnologia: IBM dominou com os mainframes, depois vieram os PCs, seguidos pelos smartphones e plataformas digitais. A diferença agora é o ritmo. O salto evolutivo proporcionado pela IA torna esse processo potencialmente mais rápido e avassalador.

Por outro lado, os monopólios de hoje não ignoram essa dinâmica. Eles detêm capital, dados, infraestrutura e uma capacidade quase ilimitada de aquisição. Mesmo quando não compram formalmente startups promissoras, capturam seus talentos e tecnologias, como fez o Google com a Character.AI ou a Microsoft com a Inflection AI. Esse movimento complica a tarefa dos reguladores e enfraquece a competição.

Fernanda Melo

Especialista de produtos de investimentos no Itaú Unibanco

Há também uma mudança de perfil na base de investidores. A chamada diáspora patrimonial, pauta central no Avenue Connection 2025, mostra como a transferência de riqueza para uma geração mais jovem e aberta à tecnologia, deslocou o centro de gravidade do mercado. As ações favoritas deixaram de ser Johnson & Johnson ou Procter & Gamble para dar lugar a Nvidia, Apple, Google e outras gigantes digitais.

No último artigo dessa coluna, comentei sobre as discussões relacionadas à cibersegurança. Me parece que o Vale do Silício por si só é mais eficaz que os tribunais antitruste em gerar alternativas e expor vulnerabilidades.

Mas há riscos em deixar apenas o mercado arbitrar o futuro de tecnologias que remodelam sociedades inteiras. Superpotências corporativas em IA, sem regulação adequada, podem concentrar poder demais em poucos grupos.

Para o investidor brasileiro que busca diversificar internacionalmente, esse cenário pode ser um alerta e uma oportunidade.

Investir apenas nas grandes empresas que já conhecemos pode parecer seguro, mas a próxima grande disrupção pode surgir de onde menos esperamos. Por isso, diversificar é tão interessante. É fundamental diversificar em setores, geografias e estágios de inovação. Assim, balanceamos o risco com a vontade de participar dos avanços da tecnologia.

No fim do dia, a diversificação global é o caminho para capturar o potencial de transformação que o mundo da tecnologia e da IA ainda tem a oferecer.

DISCLAIMER

Oferta de serviços intermediada por Avenue Securities DTVM. Avenue Securities Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários Ltda. (“Avenue Securities DTVM”) é uma distribuidora de valores mobiliários brasileiros, devidamente autorizada pelo Banco Central do Brasil (“BCB”) e pela comissão de Valores Mobiliários (“CVM”). Os saldos disponíveis em Reais são mantidos na Avenue Securities DTVM Ltda., uma instituição financeira regulada. Os fundos detidos pela Avenue Securities DTVM não são cobertos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Veja todos os avisos importantes: https://avenue.us/termos/.

As informações acima foram obtidas de fontes consideradas confiáveis, mas não garantimos que sejam precisas ou completas; não constituem uma declaração de todos os dados disponíveis necessários para tomar uma decisão de investimento, nem representam uma recomendação. Quaisquer opiniões são exclusivamente do autor e não refletem, necessariamente, as da Avenue Securities ou de suas afiliadas.

A situação de cada investidor é única e você deve considerar seus objetivos de investimento, tolerância ao risco e horizonte de tempo antes de fazer qualquer investimento. Investir envolve risco e você pode incorrer em um lucro ou perda, independentemente da estratégia selecionada. O conteúdo acima não é uma recomendação para comprar ou vender qualquer ativo individual ou qualquer combinação de ativos. Esta não é uma recomendação para comprar ou vender as ações das empresas retratadas / mencionadas.

Investimentos setoriais são empresas envolvidas em negócios relacionados a um setor específico. Estão sujeitos a uma concorrência feroz e os seus produtos e serviços podem estar sujeitos a uma rápida obsolescência. Existem riscos adicionais associados ao investimento em um setor individual, incluindo diversificação limitada.

Fernanda Peres de Melo, CFP®

Economista com uma carreira construída na interseção entre investimentos e comunicação. Buscando traduzir a complexidade financeira para o dia a dia das pessoas, Fernanda carrega mais de 10 anos de experiência no mercado financeiro, e atualmente ocupa a posição de especialista de produtos de investimentos no Itaú Unibanco.

Recomendado para você

Figure
13 jul 2025

Cibersegurança: a megatendência nada…

Figure
12 jul 2025

O mundo gira e o dólar ainda dita o…

Figure
28 jul 2025

O que é uma Offshore e para que serve?

Figure
13 jul 2025

O que esperar das Small Caps dos EUA…

As mais lidas

Figure
18 jul 2025

Estados Unidos e economia global: as …

Figure
17 jul 2025

Desafios da economia brasileira: Marcos…

Figure
28 ago 2025

Imposto de Herança nos EUA: como a…

Figure
11 ago 2025

Comportamento e dinheiro: lições de…

Avenue

Faça parte da vida global

Abrir conta