17 jun 2026
O nome é parecido. A lógica por trás é completamente diferente. Quando um investidor brasileiro ouve ação preferencial, provavelmente pensa nas ações PN que conhece da B3 – ativos com alta volatilidade, dividendo variável e preço que sobe e cai junto com o mercado.
Quando o mesmo investidor chega ao mercado americano e encontra as preferred stocks, pode ficar surpreso: o comportamento do ativo, a lógica do dividendo e o perfil de risco são fundamentalmente diferentes.
Este artigo explora, dimensão por dimensão, o que é uma ação preferencial no Brasil, o que é uma preferred stock nos Estados Unidos – e por que confundir os dois pode levar o investidor a expectativas equivocadas sobre o instrumento que está comprando.
Preferred stocks: guia completo sobre ações preferenciais americanas
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No mercado brasileiro, as empresas listadas na B3 podem emitir dois tipos de ações: as ações ordinárias (ON), que dão direito a voto nas assembleias de acionistas, e as ações preferenciais (PN), que em geral não dão direito a voto, mas têm prioridade sobre as ordinárias em determinadas situações – como no recebimento de dividendos ou no reembolso em caso de liquidação da empresa.
A “preferência” das ações PN no Brasil se manifesta, na prática, em duas frentes:
Para compensar a ausência de direito a voto, a legislação brasileira (Lei das S.A., nº 6.404/1976, com alterações posteriores) exige que as ações PN ofereçam ao menos uma das seguintes vantagens: dividendo mínimo, dividendo por ação pelo menos 10% superior ao das ações ordinárias, ou direito de participar em condições iguais às ordinárias no aumento de capital.
Na prática do mercado, as ações PN brasileiras se comportam de maneira muito similar às ordinárias: têm alta volatilidade, preço de mercado flutuante e dividendo variável conforme o desempenho da empresa. O fato de existir uma “preferência” não transforma a ação PN em um instrumento de renda previsível.
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Até o início dos anos 2000, as empresas brasileiras podiam emitir até 2/3 de suas ações como preferenciais – o que criava situações em que o controle acionário ficava concentrado em poucos acionistas com ações ordinárias, enquanto a maioria dos investidores de varejo ficava com ações PN sem direito a voto.
A criação do Novo Mercado da B3 em 2001 mudou essa lógica. Para listar no segmento de maior governança da bolsa brasileira, as empresas precisam emitir apenas ações ordinárias – eliminando a distinção ON/PN. Com isso, a maioria das grandes empresas que abriram capital nos últimos 20 anos no Brasil optou pelo Novo Mercado e emitiu somente ações ON.
As ações PN ainda existem e são negociadas na B3, mas estão cada vez mais concentradas em empresas mais antigas, que se listaram antes da criação do Novo Mercado. Exemplos conhecidos: Petrobras (PETR3/PETR4), Vale (VALE3) e Itaú (ITUB3/ITUB4) – onde as ações “4” são as preferenciais.
| Diferença prática no código da ação Na B3, os tickers terminados em 3 (ex.: PETR3) correspondem às ações ordinárias (ON). Os terminados em 4 (ex.: PETR4) correspondem às ações preferenciais (PN). Essa codificação é exclusiva do mercado brasileiro – não existe equivalente direto nos EUA. |
Nos Estados Unidos, as preferred stocks também são classificadas juridicamente como ações – mas o comportamento de mercado é radicalmente diferente das ações PN brasileiras. Elas são instrumentos híbridos: têm a estrutura legal de uma ação, mas funcionam como um título de renda fixa.
As características centrais que definem uma preferred stock americana:
A lógica do instrumento é completamente diferente da ação PN brasileira: a preferred stock americana não é comprada por quem quer participar do crescimento de uma empresa – é comprada por quem quer gerar renda previsível em dólar, com fluxo de caixa regular e menor exposição à volatilidade do mercado acionário.
O quadro abaixo reúne as principais diferenças entre os dois instrumentos. A leitura deixa claro que, apesar do nome similar, estamos falando de ativos com propósitos, comportamentos e perfis de risco fundamentalmente distintos:
| Dimensão | Ação Preferencial (PN) – Brasil | Preferred Stock – EUA |
| Natureza jurídica | Ação | Ação (híbrida – comportamento de renda fixa) |
| Dividendo | Variável – depende do lucro da empresa | Fixo – definido na emissão (% sobre o par value) |
| Previsibilidade de renda | Baixa – varia a cada exercício | Alta – valor conhecido com antecedência |
| Volatilidade de preço | Alta – comporta-se como ação ordinária | Baixa/Média – preço ancorado ao par value (US$ 100) |
| O que move o preço | Desempenho da empresa e expectativas de mercado | Variação nas taxas de juros |
| Direito a voto | Não (em geral) | Não (em geral) |
| Prioridade de recebimento | Antes dos acionistas ON, atrás de credores | Antes dos acionistas ordinários, atrás de credores |
| Valor de face | Não tem – preço de mercado livre | US$ 100 por ação (par value padrão) |
| Investimento mínimo típico | 1 ação (qualquer valor de mercado) | Aproximadamente US$ 100 |
| Ticker (código) | Termina em 4 na B3 (ex.: PETR4) | Ticker próprio na NYSE ou Nasdaq |
| Regulação | CVM / Lei das S.A. 6.404/1976 | SEC / FINRA |
| Bolsa | B3 | NYSE, Nasdaq |
| Para quem se destina | Quem quer exposição a empresa sem direito a voto | Quem busca renda previsível em dólar com menor volatilidade |
A confusão tem origem simples: a tradução literal. “Preferred stock” em inglês significa, literalmente, “ação preferencial”. E como os dois instrumentos compartilham algumas características superficiais – ausência de voto, prioridade sobre ordinários, existência do conceito de dividendo preferencial – é fácil assumir que são equivalentes.
Mas o contexto histórico e regulatório dos dois países criou instrumentos com finalidades completamente distintas:
O risco prático da confusão: o investidor brasileiro que compra uma preferred stock americana esperando que ela se valorize como uma ação ordinária pode se decepcionar. E o investidor que compra uma ação PN da B3 esperando a previsibilidade de renda de uma preferred stock americana terá a mesma frustração.
| Resumo para não errar Ação PN (B3): comporta-se como ação ordinária com algumas vantagens marginais. Preferred stock (EUA): comporta-se como renda fixa com estrutura jurídica de ação. São instrumentos com finalidades diferentes – escolher entre eles depende do objetivo do investidor, não da semelhança do nome. |
Para entender o risco de cada instrumento, é útil visualizar a hierarquia de prioridade de recebimento em caso de dividendos ou liquidação da empresa – o que o mercado chama de capital structure. Quanto mais abaixo na estrutura, maior o risco – e maior o potencial de retorno exigido:
| Posição na fila | Instrumento | Observação |
| 1ª – Prioridade máxima | Credores seniores (bonds garantidos, bancos) | Pagos primeiro em qualquer cenário |
| 2ª | Credores subordinados (bonds não garantidos) | Pagos antes de acionistas, depois de seniores |
| 3ª | Preferred stocks (EUA) | Antes dos acionistas ordinários, depois de todos os credores |
| 4ª | Ações preferenciais PN (Brasil) | Antes das ordinárias, depois de todos os credores |
| 5ª – Última prioridade | Ações ordinárias (ON/Common stocks) | Recebem o que sobrar – maior risco, maior potencial |
Na prática, preferred stocks americanas e ações PN brasileiras ocupam posições estruturalmente similares na hierarquia de capital – mas o comportamento de mercado, a previsibilidade de renda e a sensibilidade a fatores externos são completamente diferentes, como o comparativo acima demonstrou.
Ação preferencial PN – Brasil
*Dividendos pagos por preferred stocks dos EUA estão sujeitos a uma retenção na fonte de 30% (imposto americano) para investidores não residentes nos EUA. máxima sobre o fluxo de renda, os bonds oferecem maior proteção jurídica ao credor.
A escolha entre uma ação PN brasileira e uma preferred stock americana não deve ser feita por analogia – são objetivos diferentes:
| Objetivo do investidor | Instrumento mais adequado | Por quê |
| Participar do crescimento de uma empresa brasileira | Ação ON ou PN da B3 | Ambas se valorizam com o crescimento da empresa |
| Gerar renda previsível em dólar com menor volatilidade | Preferred stock americana | Dividendo fixo, preço ancorado ao par value |
| Diversificar fora do Brasil com renda em dólar | Preferred stock americana | Exposição cambial + renda previsível em dólar |
| Exposição ao mercado brasileiro com alguma vantagem de dividendo | Ação PN da B3 | Prioridade no dividendo em relação às ações ON |
| Renda fixa internacional com maior segurança jurídica | Bond americano (Treasury ou corporativo) | Cupom contratualmente obrigatório + prioridade sobre as preferred stocks |
A ação preferencial existe nos dois mercados – mas parar aí é onde a semelhança termina. No Brasil, a ação PN é uma variante da ação ordinária: mais focada em dividendo, sem voto, mas igualmente volátil e dependente do desempenho da empresa. Nos EUA, a preferred stock é um instrumento de renda desenhado para entregar fluxo de caixa previsível em dólar, com comportamento próximo ao de um título de renda fixa.
Entender essa distinção é especialmente importante para o investidor brasileiro que está explorando o mercado americano pela primeira vez. O nome familiar pode criar uma falsa sensação de familiaridade com o instrumento – e familiaridade com o nome não é o mesmo que familiaridade com o risco.
A situação de cada investidor é única e você deve considerar seus objetivos de investimento, tolerância ao risco e horizonte de tempo antes de fazer qualquer investimento. Investir envolve risco e você pode incorrer em um lucro ou perda, independentemente da estratégia selecionada. O conteúdo acima não é uma recomendação para comprar ou vender qualquer ativo individual ou qualquer combinação de ativos.
O investimento internacional envolve riscos especiais, incluindo flutuações cambiais, diferentes padrões de contabilidade financeira e possível volatilidade política e econômica.
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Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Não constitui recomendação de investimento, oferta ou solicitação de compra ou venda de qualquer ativo financeiro. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. Investimentos em ações e ativos financeiros envolvem riscos, incluindo a possibilidade de perda do capital investido. O investidor deve avaliar seu perfil de risco e, se necessário, consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão de investimento.