22 jul 2026
Imagine a cena: ainda escuro, o despertador toca antes das cinco da manhã. É dia de Maratona de Nova York, e antes de qualquer coisa é preciso pegar o ônibus que leva até Staten Island – o de Juliana Benvenuto, hoje coordenadora de investimentos e conteúdo na Avenue, partia pouco depois das cinco. A prova larga em ondas: a elite sai bem mais cedo, e há corredores começando às 11h ou mais tarde.

Arquivo Pessoal
A onda de Juliana largou às 9h30. Entre a espera no frio da manhã e o calor que viria depois, ela viveu um dos momentos que mais te ensinam sobre o que significa se comprometer com um plano de longo prazo – mesmo quando as condições do dia surpreendem completamente o que você esperava.
É uma imagem que qualquer investidor reconhece: você se prepara para um cenário, estuda os riscos mais prováveis, e o mercado entrega exatamente o contrário do que todo o histórico sugeria. Isso não invalida o preparo – só confirma que ele precisa ser amplo o suficiente para dar conta do que não estava no roteiro.
Mas antes de Nova York, veio Chicago. E foi lá que a primeira lesão apareceu.
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Arquivo Pessoal
A relação de Juliana com o esporte começou muito antes da corrida. Desde pequena, era sempre uma das primeiras a ser escolhida nos times de futebol da escola – destra de mão, canhota de pé, jogava com os meninos porque não havia opção de time feminino.
Emendou o handebol no colegial, o futsal na faculdade e, quando foi morar fora, trocou os esportes coletivos pela academia e, depois, pela corrida.
Essa disputa contra a própria cabeça, mais do que contra o relógio, também tem paralelo direto com investir. A parte técnica de uma carteira – escolher os ativos certos, calcular a alocação ideal – é só metade do trabalho. A outra metade é aguentar mentalmente os trechos difíceis sem tomar decisões por impulso: manter o plano quando o pace parece lento, ou quando o mercado está mais volátil do que o esperado.
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Foi assim que, de volta ao Brasil, Juliana passou das corridas de rua para o treino com assessoria – e, dali, para sua primeira maratona internacional: Chicago.
Cerca de dois meses antes da prova, uma lesão no joelho tirou Juliana da rua. Não dava para simplesmente parar – a maratona já estava marcada – então o treino virou outra coisa: aulas de deep running na piscina, sessões de até duas horas em aparelhos que preservavam o condicionamento sem o impacto da corrida, trechos alternando caminhada e corrida na esteira. Rua mesmo, só dois dias antes da prova, em Chicago, para um leve aquecimento.
Chicago não foi uma prova fácil para Juliana. Mas o que fica dessa primeira experiência é justamente a lição de que manter um objetivo de longo prazo não significa repetir sempre o mesmo caminho. Quando o instrumento principal (a corrida na rua) fica indisponível, a resposta não é abandonar a meta – é encontrar outros instrumentos que preservem o resultado que se busca. Piscina, aparelho, esteira: nenhum deles é ‘a corrida’, mas juntos sustentaram a preparação.
No fundo, é exatamente o que se pede de um investidor que decide diversificar globalmente: não existe alocação perfeita que nunca vai precisar de ajuste. Existe disciplina para manter o objetivo de longo prazo – proteção patrimonial, aposentadoria, crescimento – mesmo quando um pedaço do plano exige reformulação. É a mesma lógica de uma carteira diversificada, em que nenhum ativo isolado precisa ser perfeito, desde que o conjunto sustente o objetivo final.
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Se há uma lição que qualquer investidor experiente já aprendeu, é que nenhuma estratégia sobrevive intacta ao contato com a realidade. Bolsas caem quando não deveriam, o dólar sobe na pior hora, uma notícia muda o cenário da noite para o dia. A reação mais comum – e mais perigosa – é o pânico: vender tudo, mudar de estratégia no meio da tempestade, abandonar o plano.
Na maratona de Nova York, o imprevisto foi outro: uma dor antiga no quadril – a articulação sacroilíaca – que já ia e voltava havia anos travou de vez durante a preparação final. Juliana não abandonou a corrida. Continuou treinando, ajustando, tentando entender até onde o corpo aguentava – até finalizar a maratona, sob aquele calor que ninguém esperava.
Isso é, em essência, o que se pede de um investidor que decide diversificar globalmente: não existe alocação perfeita que nunca vai precisar de ajuste. Existe disciplina para manter o objetivo de longo prazo – proteção patrimonial, aposentadoria, crescimento – mesmo quando um pedaço do plano exige reformulação, e mesmo quando o cenário real chega diferente do que qualquer previsão indicava.
Depois da maratona de Nova York, vieram duas gestações. A corrida, que já exigia cuidado por causa da lesão, ficou em segundo plano. Por um bom tempo, a atividade física de Juliana passou a ser, nas palavras dela, ‘meus filhos’.
Esse é um dos pontos que mais se perdem quando se fala de investimentos de longo prazo: o portfólio de alguém aos 25 anos não deveria ser o mesmo aos 36, com filhos, carreira consolidada e outras prioridades. A pausa, o rebalanceamento, a mudança de perfil de risco – nada disso é abandonar a estratégia. É ela se adaptando a quem você é em cada momento.
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Hoje, Juliana está voltando à musculação, com o objetivo declarado de, em algum momento, retomar a corrida – dessa vez, com mais cuidado com o corpo que ela já conhece bem.
É quase um manual, sem querer, de como pensar em diversificação internacional para quem está começando: antes de sair alocando patrimônio em mercados globais, é preciso construir a base – entender o próprio perfil de risco, os objetivos, o horizonte de tempo. Só depois vem o ritmo mais acelerado da carteira.
Juliana correu duas das maratonas mais tradicionais do mundo em cidades que são, cada uma à sua maneira, centros do mercado financeiro global – Nova York e Chicago. Mas a lição que ela carrega da experiência não é sobre chegar lá. É sobre o que se faz quando o plano para chegar lá dá errado no meio do caminho, e sobre a decisão de continuar, ainda que em outro ritmo.
Assim como no esporte, diversificar patrimônio para além do Brasil não é sobre acertar tudo de primeira. É sobre manter o objetivo de longo prazo – e ter a maturidade de ajustar a rota quantas vezes for preciso, sem nunca abandonar a linha de chegada.
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