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Não existia a palavra empreendedor: a virada global de César Gon

21 set 2026

Resumo

No Avenue Connection 2026, o painel “Brasileiros que Constroem Globalmente: Desafios e Estratégias de Internacionalização” trouxe um case raro de longevidade empresarial brasileira. César Gon, CEO e cofundador da CI&T, foi entrevistado por Henry Conceição, da Avenue, sobre os 31 anos de história da empresa que ele ajudou a fundar em 1995 – de uma sala em Campinas até a Bolsa de Nova York.

Perguntado sobre o momento da fundação, Gon abriu a conversa com uma frase que dá o tom de tudo que viria a seguir:

Não só não existia a palavra startup, mas não existia a palavra empreendedor. Você virava um empresário, e tinha uma conotação bem complexa, que ainda tem um pouquinho hoje“, contou, ao lembrar do momento em que ele e mais dois colegas recém-formados na Unicamp decidiram abrir uma empresa de tecnologia, em pleno início da internet no Brasil.

1995: virar “empreendedor” sem essa palavra existir ainda

A CI&T nasceu em Campinas, em 1995, fundada por três engenheiros recém-formados (ou quase formados – Gon terminava o mestrado e pensava em um doutorado em teoria da computação) que decidiram apostar em uma tech company global antes mesmo de saber qual seria o caminho até lá:

Mas a visão era de que, se fosse para jogar esse jogo, a gente deveria ambicionar a Primeira Liga, que para o mundo ocidental está nos Estados Unidos, isso nasceu ali do arranjo entre os fundadores“, disse.

A Unicamp funcionou como uma primeira janela para o mundo: “se você perguntar lá em 1995, 1996, os nossos clientes nos conheciam como os meninos da Unicamp”, contou – parte daquela primeira geração de CI&Ts hoje lidera as operações da empresa na Inglaterra e na Austrália.

Sem o vocabulário de venture capital ou private equity, a sobrevivência da empresa dependia inteiramente dos próprios clientes – atender bem, conquistar espaço, precificar de forma a gerar caixa suficiente para continuar crescendo. “Quase tudo que você gera é para fazer a empresa crescer”, resumiu, ao explicar que os sócios não podiam distribuir lucro nos primeiros anos.

Segundo ele, a exposição precoce à indústria americana – e a receita em dólar que veio com ela – deu à CI&T uma régua competitiva e uma resiliência que ajudam a explicar por que a empresa segue de pé enquanto praticamente nenhuma outra da sua geração continua no mercado.

O Fusca que virou garantia de uma dívida de R$ 2 milhões

A ambição de virar uma empresa global existia desde o início, mas as primeiras tentativas de chegar aos Estados Unidos deram errado: contratar um representante por lá “deu tudo errado”, e a empresa também gastou dinheiro em feiras de tecnologia sem entender direito o mercado americano.

Foi para bancar a pesquisa de mercado e o business plan da expansão que a CI&T recorreu a uma linha de crédito do BNDES voltada à indústria de software, a ProSoft – e é aqui que entra o momento mais curioso do painel:

"A gente fez um funding com o BNDES de 2 milhões de reais em uma linha ProSoft que deu tudo errado, mas com a gente deu certo. Em geral era uma linha que exigia menos garantias do que o normal. Então eu tinha um Fusca lá e o BNDES aceitou o Fusca como garantia para uma dívida de 2 milhões de reais"

César Gon

CEO e cofundador da CI&T

O erro que rendeu o contrato mais importante da história da CI&T

O business plan financiado com o Fusca revelou algo que não era nada intuitivo para os fundadores. A vontade pessoal de Gon era abrir a operação na Califórnia; o estudo, no entanto, apontava para a Filadélfia, para o setor de saúde e para empresas de porte médio – um perfil de cliente que a CI&T nunca tinha atendido antes.

A empresa seguiu a tese do business plan e abriu um escritório na região da Filadélfia. Em poucas semanas, ficou claro que o plano estava errado: “ninguém se interessava, não tinha a mínima chance de dar certo”, contou. A virada veio por sorte, por meio de um contato feito ainda na Califórnia, que gerou o primeiro contrato relevante da empresa nos Estados Unidos – com o Yahoo, “o Google da época”.

“E aí a gente jogou fora o business plan e falou, vamos fazer mais do que está funcionando”, resumiu.

O Yahoo apresentou a CI&T à Johnson & Johnson, que por sua vez apresentou a empresa à Coca-Cola – e, em pouco tempo, a CI&T tinha três nomes de peso na carteira de clientes e a reputação de empresa inovadora. “Eu brinco um pouco do business plan versus a intuição do empreendedor”, resumiu Gon sobre o episódio.

Outro detalhe curioso da internacionalização foi batalhar por um nome próprio na internet. O site da empresa em inglês existe desde a fundação, mas usava o domínio CIT.com.br – o “.com” puro já pertencia a uma financeira americana chamada CIT, e a disputa pelo domínio nunca foi resolvida. Numa feira de tecnologia, alguém sugeriu simplesmente tirar o “BR” do nome, e nasceu o domínio CINT.com, usado até hoje.

O nome também ganhou um significado que não existia na fundação: “CI&T” só passou a significar “Colabora, Inove, Transforma” anos depois, quando o marketing americano da empresa pediu um posicionamento mais claro para a marca. “Eu falo: não, nasceu como consultoria informática e telecomunicações”, brinca Gon, ao desconstruir o mito de que a sigla já nasceu com esse sentido.

Mandar o DNA: como a CI&T aprendeu a se adaptar a 25 países

Depois dos Estados Unidos vieram Japão, China e, um pouco antes, Londres. Ao longo dessas expansões, a empresa chegou a uma fórmula que usa até hoje:

Segundo Gon, a parte mais difícil não é escolher quem vai, mas acertar essas contratações locais – especialmente nos Estados Unidos.

“A cultura americana de negócios é quase indecifrável para a gente”, afirmou, explicando que a leitura brasileira de performance e talento simplesmente não funciona por lá – é preciso errar bastante até encontrar a pessoa certa, que então ajuda a montar o resto do time local. É um desafio parecido com o que o CEO da Krispy Kreme no Brasil contou ao Connection, sobre adaptar uma marca americana ao país sem perder a essência.

Da BNDESPAR à NYSE: por que abrir capital em 2021

Em 2005, a CI&T fez sua primeira rodada de private equity com a BNDESPAR, braço de participações do BNDES, que financiou o crescimento da operação internacional. Em 2019, com a empresa já faturando mais fora do Brasil do que dentro dele, a própria BNDESPAR passou a defender que a CI&T abrisse capital no país. Foi nesse momento que a americana Advent entrou como novo sócio, no lugar do BNDES.

A tese que levou ao IPO combinava os 31 anos de crescimento orgânico da empresa com um plano de fusões e aquisições – e abrir capital, segundo Gon, foi o jeito mais direto de bancar essa estratégia – com ações servindo de moeda para comprar empresas e reter talentos. O plano original era abrir capital em 2022, mas a empresa antecipou o IPO para 2021, avaliando que era “o finalzinho da janela, que nunca mais se abriria”. Ele resume a decisão como uma mistura de pragmatismo com um objetivo mais simbólico, de posteridade: “tinha o lado pragmático. A gente queria fazer M&A. E tinha o lado empreendedor também. Era um milestone importante.”

Depois do IPO: aquisições e a reinvenção pela IA

Depois do IPO, a CI&T fez cinco aquisições entre 2022 e 2023 – duas no Brasil, e outras na Austrália, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Segundo Gon, o critério central não é só olhar os números: a empresa-alvo precisa estar crescendo, ter clientes do mesmo tamanho com os da CI&T e, principalmente, uma liderança em quem a companhia realmente confie – “a empresa é o verdadeiro ativo, é a confiança entre os times”, disse.

Enquanto crescia por aquisição, a CI&T também vivia sua própria disrupção – a da inteligência artificial. A indústria de tecnologia, segundo Gon, vive de se transformar rápido o suficiente para devorar as próprias teses do passado – e a CI&T já passou por essa virada com a chegada da internet, do smartphone e da computação em nuvem. Mas ele descreve a chegada da inteligência artificial como uma ruptura diferente, quase existencial: “se a gente pegar errado o ângulo, a gente não vai fazer sentido daqui a muito pouco tempo”, disse.

No início de 2023, a empresa decidiu se reposicionar por completo em torno do tema, em vez de tratar IA como mais uma frente de negócio: “vamos matar o nosso business antigo, vamos criar essa empresa que tudo que ela faz, ela faz com AI”, resumiu. A CI&T anunciou parcerias com a Anthropic, a Amazon, o Google e a Microsoft para sustentar esse reposicionamento como uma companhia de “AI deployment”. Gon revelou no painel que o movimento vem sustentando um crescimento de dois dígitos por sete trimestres seguidos – um resultado autodeclarado no evento, e que a empresa credita justamente à disposição de abandonar o próprio modelo de negócio anterior antes que ele se tornasse obsoleto.

Sobre o que um empreendedor deveria fazer com IA a partir de amanhã, a resposta de Gon foi direta: o ponto de partida precisa ser o negócio, não a tecnologia. “Não é aplicar AI no seu negócio, é como é que o meu negócio e a minha indústria, o meu mercado, o meu cliente vai se mover à luz dessa revolução da AI”, afirmou. O segundo conselho é experimentar na prática, já que a tecnologia e o comportamento do consumidor estão mudando ao mesmo tempo – e cada vez mais rápido.

Conclusão

Da falta de uma palavra para descrever quem empreende, em 1995, à decisão de recriar o próprio negócio em torno da inteligência artificial, mais de trinta anos depois, a trajetória de César Gon resume, numa vida só, a evolução do que significa empreender no Brasil e fora dele. Antes, o desafio era simplesmente decidir sair de Campinas rumo aos Estados Unidos sem saber o caminho; hoje, o mesmo tipo de salto de fé – apostar sem ter todas as garantias – serve para decidir quando e como incorporar uma tecnologia que, segundo ele, “provavelmente vai mexer nesse comportamento do cidadão e do consumidor de uma maneira muito mais radical” do que a própria internet.

Para quem está considerando dar esse passo, Gon deixou dois conselhos ao final do painel. O primeiro é sobre o momento certo para internacionalizar: “você nunca vai se achar pronto para esse passo. Você esperar o momento ideal, ele não vai chegar nunca” – e, segundo ele, também vale esquecer a cotação do dólar do dia, porque construir reputação em um novo mercado é um processo de longo prazo. O segundo conselho é para quem atende esse tipo de cliente: perguntado sobre o que espera de um banker, ele resumiu em uma expressão só: “peace of mind” – a tranquilidade de não precisar ficar checando cada detalhe, para poder focar no próprio negócio.

Ao encerrar, Gon resumiu o espírito de quem empreende no Brasil com uma frase que também serve de fechamento para este artigo: “não é fácil […] mas é o ambiente no qual quem tem resiliência e coragem se destaca”.

A história de Gon é sobre negócio – mas o raciocínio por trás dela vale também para quem pensa no próprio patrimônio. Se você também está pensando em internacionalizar seu patrimônio – com ou sem um negócio próprio de olho lá fora -, baixe o Guia prático de investimentos internacionais da Avenue e entenda por onde começar.

Leia também: Carreira internacional: a lição do CEO da Krispy Kreme no Brasil

Leia também: IPO nos EUA: entenda como funciona

Leia também: IA nos investimentos: as 5 camadas que JPMorgan e Avenue mostraram no Connection

FAQ sobre os empreendedorismo internacional

Preciso de um fundo de venture capital para internacionalizar minha empresa?

Não necessariamente. O próprio caso da CI&T mostra que dá para começar sem esse tipo de capital: em 1995, quando a empresa nasceu, nem existia esse vocabulário no Brasil, e o crescimento veio de reinvestir a receita gerada pelos próprios clientes. Hoje o ecossistema de venture capital e private equity no Brasil é bem mais maduro e pode acelerar um processo de internacionalização – mas não é a única porta de entrada. Linhas de crédito de fomento, como a que a própria CI&T usou nos anos 2000, e o reinvestimento do caixa gerado pelo negócio também são caminhos possíveis, dependendo do estágio e do apetite a risco de cada empreendedor.

O que significa uma empresa brasileira abrir capital (fazer um IPO) na Bolsa de Nova York?

Significa que a empresa passa a vender ações para investidores no mercado americano, com todas as exigências que isso traz: divulgar resultados a cada trimestre, ter uma governança mais robusta e conviver com a variação do preço das próprias ações na bolsa. Para uma empresa brasileira, listar-se nos Estados Unidos costuma estar ligado a ter uma operação relevante fora do Brasil e ao interesse em usar as ações como moeda para fazer aquisições. Veja o guia completo em “IPO nos EUA: entenda como funciona”.

Como a inteligência artificial está mudando negócios – e, por consequência, os investimentos globais?

A IA tem acelerado a velocidade com que empresas precisam se reinventar, criando tanto oportunidades quanto riscos existenciais para negócios que demoram para se adaptar. Do lado dos investimentos, o tema já aparece em diferentes camadas do mercado – de empresas de infraestrutura e semicondutores às gigantes de tecnologia que fazem parcerias com startups de IA. O artigo “IA nos investimentos: as 5 camadas que JPMorgan e Avenue mostraram no Connection” detalha essa cadeia com mais profundidade.

Vale a pena pensar em internacionalizar o patrimônio pessoal enquanto se empreende globalmente?

Faz sentido considerar os dois movimentos juntos. Quem constrói um negócio com operação ou clientes fora do Brasil já lida naturalmente com exposição a moeda forte e a outros mercados – e pode aproveitar esse contexto para também diversificar o próprio patrimônio pessoal internacionalmente, e não só o caixa da empresa.

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Avenue Securities não é afiliada e não endossa as opiniões ou serviços de César Gon e da CI&T.

Redação Avenue

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