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Conflito no Oriente Médio, PIB americano e o rali das Big Techs  

01 jun 2026

Por William Castro Alves, Estrategista-chefe da Avenue

A SEMANA QUE PASSOU


CONFLITO NO ORIENTE MÉDIO

Registramos o terceiro mês vivendo os reflexos da atual escalada militar no Oriente Médio envolvendo EUA e Israel contra o Irã. Popularmente diríamos que o cessar-fogo mediado pelo Paquistão, desde 8 de abril de 2026, continua “por um fio”; com fortes acusações mútuas de violações e incidentes específicos.

Na última semana (24 a 29 de maio) houve avanço moderado nas negociações mediadas por Paquistão, China e Omã. As partes discutiram uma prorrogação adicional de 60 dias e um possível memorando de entendimento, que indicou um certo progresso no cronograma de alívio de sanções. No entanto, persistem impasses centrais como: o controle do Estreito de Ormuz, destino do urânio enriquecido iraniano e limites do programa nuclear. O presidente dos EUA, Donald Trump, ainda não deu aval final ao texto, e o Irã mantém ressalvas públicas.

No Golfo Pérsico, a tensão militar não parou. Os EUA realizaram novos ataques em Bandar Abbas e à alvos iranianos, em 25 de maio, alegando autodefesa. Em contrapartida, o Irã respondeu com drones e manteve controle seletivo sobre o estreito. Esses episódios quase romperam a trégua, mas as mediações conseguiram conter a escalada imediata.

Em resumo, os movimentos denotam uma diplomacia que avança lentamente, mas que está ativa, com tentativas concretas para o prolongamento do cessar-fogo. De fato, a trégua resiste, porém de forma frágil – sendo que um novo acordo ainda depende de concessões difíceis das duas partes. Mesmo assim, o impacto dessas conversas e tentativas já demonstrou presença no preço do petróleo, que já acumula queda de mais de 20%, desde as máximas no final de março.

Fonte: Tradingview.com 29/mai/2026

Economia

Inflação cresce nos EUA

Na semana passada, o principal dado e foco estava sob os números da inflação nos EUA. Diante de todo impacto da guerra sobre os preços de energia e a derivada disso, que é o impacto nos juros, o mercado analisou com lente de aumento o dado divulgado pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos (BEA), na quinta-feira (28). Resumidamente, o índice de preços de despesas de consumo pessoal (PCE), a medida de inflação preferida do Federal Reserve, subiu 0,4% em abril de 2026, levemente aquém dos +0,5% esperados pelo mercado – resultando em uma taxa de inflação anual de 3,8%, acima dos 3,5% de março. Já o núcleo (que exclui os preços voláteis de alimentos e energia) indicou uma alta mensal de 0,2% (abaixo da estimativa de 0,3%), com taxa anual de 3,3%, em linha com as projeções, embora elevada e acima dos 3,2% registrados em março.

Além dos dados de preços, o relatório mostrou que os gastos dos consumidores avançaram 0,5% em abril (em linha com o previsto), enquanto a renda pessoal ficou estável, contrariando a expectativa de alta de 0,4%. Os preços de bens também seguiram a tendência de alta, subindo para 0,7% — pressionados novamente por gasolina (+5,5%) — e Serviços avançaram 0,3%, indicando pressões inflacionárias mais amplas.

Fonte: The Daily Shot 29/mai/2026

O relatório sinalizou um alívio, alimentando um otimismo de que os cenários mais elevados acerca da inflação possam não se materializar. Embora as leituras anuais tenham ficado dentro do previsto, os números mensais mais fracos trazem alento de que a alta de preços vista no mês anterior esteja perdendo força. Ainda é cedo para apostar nessa tendência, mas foi importante ver o recuo do núcleo (que exclui alimentos e energia), por ser um indicador mais confiável das tendências inflacionárias de longo prazo. Por outro lado, a inflação roda em patamares elevados e bem acima da meta do banco central americano, conforme ilustram as médias anualizadas no gráfico acima.

É provável que o mercado siga apostando na inalteração da política monetária para 2026, com a possibilidade de alta de juros sendo precificada para o início de 2027. A inflação vinha se aproximando da meta de 2% do Fed, mas foi desviada devido ao conflito com o Irã e pelo impacto das tarifas, levando os policymakers (formuladores de políticas) a darem maior ênfase ao risco inflacionário. Sobretudo, agora, que o mercado de trabalho dá sinais de estabilização, como observamos ao ler a última ata do FOMC.

As novidades virão na próxima reunião do Fed, marcada para os dias 16 e 17 de junho, já sob a liderança do novo presidente do Fed, Kevin Warsh.

Junto à divulgação do PCE, no mesmo dia, tivemos a segunda leitura do PIB do 1º trimestre de 2026, com números já revisados para baixo, recuando o crescimento de 2,0% para 1,6% anualizado. O Departamento de Comércio atribuiu a revisão a ajustes negativos nos gastos dos consumidores e nos investimentos empresariais, sendo que o consenso do mercado era pela manutenção do número inicial de 2%.

Além disso, tivemos outros dados da economia americana a destacar:

Apesar da leitura mais fraca do PIB, divulgada na semana anterior, a leitura dos indicadores correntes desse segundo trimestre aponta para um nível de atividade elevado nos EUA. Além disso, o GDP Now do Fed de Atlanta, direciona para um crescimento de 3,8%, referente a sua última medição em 28 de maio.

Fonte: GDPNow – Federal Reserve Bank of Atlanta 28/mai/2026

Isso significa que, apesar dos fatores causadores da elevação dos preços, como o conflito no Oriente Médio, os receios geopolíticos vigentes e as taxas de juros em patamares elevados, ainda assim, o nível de atividade da economia americana demonstra resiliência. Uma das respostas para isso, talvez resida no alto ciclo de investimentos decorrentes, ou capitaneado, pelos desenvolvimentos no campo da inteligência artificial. A construção de data centers para IA parece ser diferente e menos dependente do ciclo de juros, pois tem sido financiada, em grande parte, pela geração de caixa de empresas bastante líquidas e pouco alavancadas (em geral). O FOMO (fear of missing out) entre as big techs alimenta aportes em projetos de IA que continuam crescendo. O gráfico abaixo mostra que as projeções de capex (investimentos) para 2027 seguem subindo.

Fonte: The Daily Spark | Macro and Market Insights 27/mai/2026

Para exemplificar a magnitude desse ciclo de investimentos que estamos observando, nos Estados Unidos, existem atualmente cerca de 4.000 data centers em operação e quase 3.000 em fase de construção, como mostra o gráfico abaixo.

Fonte: The Daily Spark | Macro and Market Insights 16/mai/2026

IMPACTOS NO MERCADO

No mercado de juros, em oposição às semanas anteriores de forte escalada, nessa última, os yields dos Treasuries, mostraram volatilidade, mas encerrando com um leve recuo, influenciado por sinais de progresso nas negociações de cessar-fogo propostas no Oriente Médio, e acompanhados pelo dado do PCE que mostrou uma inflação sútil menor do que a esperada. Em relação aos títulos: o yield de 2 anos oscilou próximo a 4,00% e 4,18%; o rendimento de 10 anos variou entre cerca de 4,45% e 4,55% e o de 30 anos negociou em torno de 5,05% a 4,98%. Logo concluímos que, a curva seguiu inclinada, refletindo cautela com os prazos mais longos, embora com alguma descompressão no final da semana.

Na renda variável, o mercado manteve resiliência e testou novas máximas, impulsionado por balanços corporativos, movimentos de entusiasmo com IA e tecnologia, e otimismo diante de um possível alívio geopolítico — mesmo diante de yields ainda elevados e tensões no Golfo Pérsico. Em relação aos índices acionários, o S&P 500 registrou a 9ª semana consecutiva de alta, enquanto o Dow Jones acompanhou o movimento de superação, atingindo novas máximas históricas (50.835 durante o intraday pontos). Em termos setoriais, novamente vimos Tecnologia, Semicondutores, IA e Crescimento liderarem os ganhos

Por último, as variações no ouro chamaram atenção ao denotar uma certa “sazonalidade” no comportamento da commodity. Como podemos observar pelo gráfico abaixo, a tendência retrata a performance do ouro ao longo do ano, através de uma visão do que aconteceu nos últimos 10 anos. É interessante notar que, entre o período de abril a outubro, o metal precioso apresentou historicamente um desempenho mais fraco, ao passo que nos meses seguintes, de novembro a março, registrou uma tendência maior de alta. Fato é que nada garante que será assim novamente, mas é no mínimo curioso e vale a atenção.

Fonte: The Daily Shot 28/mai/2026

A SEMANA QUE SE INICIA

Para esta semana, de 1 a 7 de junho de 2026, o calendário econômico promete ser mais pesado, com destaque para dados do mercado de trabalho e atividade nos EUA. Siga os destaques:

Globalmente, também teremos divulgação de relatórios relacionados a inflação e atividade na Europa e Ásia. Confira abaixo a agenda completa de eventos da semana.

Os balanços relevantes da semana passada foram das varejistas, que mostraram quadro geral de resiliência no consumo. Costco ganhou destaque ao reportar desempenho ligeiramente acima das expectativas, com forte tráfego nas lojas, tíquete médio maior e recorde de volume de vendas de gasolina. A Best Buy foi outra a se destacar ao revelar resultados com receita acima das estimativas e uma performance alavancada por categorias como Computação, Celulares e Tablets; embora tenha havido pressão em eletrônicos para casa.

Além disso, tivemos a Dell com receita recorde puxada pela demanda por IA. A empresa destacou demanda sem precedentes por infraestrutura de IA, o que elevou o otimismo para o segmento de hardware apesar de um guidance misto.

Ainda que a safra de balanços já tenha chegado praticamente ao seu fim, seguimos recebendo alguns reportes tardios de empresas. Para finalizar, fique a seguir com o calendário completo de resultados corporativos.

Acompanhe a cobertura completa dos resultados na página: Resultados Corporativos Archives – Avenue Connection.

William Castro Alves

@willcastroalves

Aquele abraço!

Estrategista-chefe da Avenue Securities

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William Castro Alves

Estrategista-Chefe da Avenue

Formado em economia pela UFRGS – RS. Em 2004, iniciou sua carreira na Solidus Corretora, com passagens pelo Koliver Merchant Bank e Banco Alfa. Foi sócio, analista-chefe e um dos principais porta-vozes da XP Investimentos. Também foi sócio e líder de gestão da VGR Gestão de Recursos. Possui as certificações Series 7 e 24. É estrategista-chefe, sócio e porta voz da Avenue desde 2018.

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