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Inflação recua nos EUA, mas cautela com IA e petróleo ditam o tom do mercado

20 jul 2026

Por William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue

A SEMANA QUE PASSOU

Conflito no Oriente Médio volta a escalar

Conflito no Oriente Médio volta a escalar O retorno precoce do conflito no Oriente Médio, entre EUA/Israel e Irã, demonstrou que ainda existe uma tensão intermitente, apesar de um cessar-fogo frágil assinado em junho. Nos últimos dias, houve troca de ataques envolvendo o Estreito de Ormuz, com o Irã de um lado ameaçando ou atacando navios e do outro os EUA realizando investidas para manter a rota aberta. A escalada interrompeu parcialmente o fluxo de petróleo, gerando volatilidade, apesar de não ter alcançado o nível de pico da guerra (ocorrido no início de 2026).

Impactos no mercado: o petróleo subiu para a faixa dos US$ 80 por barril recentemente, adicionando pressão sobre as expectativas de inflação. No entanto, o impacto direto no mercado foi moderado; apenas elevou o nível de incertezas, com estoques globais da commodity mais baixos ampliando a vulnerabilidade a novos picos de preço.

Economia

Indicadores de inflação nos EUA surpreendem novamente. Mas, dessa vez para baixo!

De acordo com o relatório divulgado, na terça-feira (14), pelo Bureau of Labor Statistics (BLS), o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos EUA registrou queda mensal de 0,4%, sendo a maior desde abril de 2020, revertendo a alta de 0,5% de maio e superando as expectativas de leve recuo.

Na comparação anual, a inflação desacelerou para 3,5% (abaixo das expectativas de aproximadamente 3,8% e dos 4,2% de maio), interrompendo o crescimento recente. O núcleo do CPI (que exclui alimentos e energia) apresentou estabilidade no mês (0,0%, abaixo do consenso de +0,2% e do +0,2% de maio), ou 2,6% quando anualizado (abaixo dos 2,9% anteriores e das previsões de cerca de 2,8%).

O relatório mostrou que a queda no índice foi impulsionada principalmente pelo recuo nos preços de energia (especialmente gasolina, após o cessar-fogo entre EUA e Irã), o que mais do que compensou aumentos em habitação, alimentos e outros Componentes.

Fonte: CNBC.com 20/jul/2026

Logo, na quarta-feira (15), foi a vez do Índice de Preços ao Produtor (PPI), que apresentou queda de 0,3% em junho na comparação mensal, contra expectativa de variação zero, sendo a maior declínio desde abril de 2025. No acumulado de 12 meses, o índice subiu 5,5%, abaixo da previsão de 6,2%. Já o núcleo do PPI (excluindo alimentos e energia) avançou apenas 0,2% no mês, contra a previsão de +0,3%.

No PPI, assim como no CPI, o principal responsável pela queda foi a forte retração nos preços de energia, especialmente gasolina, após o alívio das tensões no Oriente Médio.

Fonte: The Daily Shot, 16/jul/2026

Os relatórios mostram que a inflação americana surpreendeu para baixo em junho de 2026, refletindo a forte desvalorização observada nos preços do petróleo. Embora ainda tenha registrado uma alta de 15,7% em termos anuais, o índice de energia caiu 5,7% em junho. Mesmo diante de um certo alívio trazido sobre os dados de inflação, é improvável que o mercado mude a atual interpretação acerca dos juros nos EUA, ou seja, um aumento nos próximos meses.

O Banco Central Americano segue inclinado a elevar sua taxa básica em setembro, após manter o tom duro sobre a necessidade de controlar a inflação. O governador Christopher Waller afirmou recentemente que seriam necessários vários meses de leituras positivas para confirmar o retorno sustentável à meta de 2%. Sendo assim, o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, reforçou que o controle da inflação é a prioridade máxima da instituição, afirmando que “acertar a política monetária” é o objetivo central para superar a alta de preços dos últimos anos.

Além do CPI e PPI, tivemos ainda a divulgação das vendas no varejo dos Estados Unidos pelo Census Bureau (Departamento do Comércio). Os dados mostram que as vendas cresceram 0,2% em junho, marcando o avanço mais fraco em cinco meses. Apesar do resultado positivo, o ritmo desacelerou fortemente em relação ao ganho de 1,0% registrado em maio (revisado para cima). Excluindo o efeito dos preços mais baixos de combustíveis, as vendas subiram 0,7% no mês. No recorte considerado o contexto de inflação, o dado nominal já sinaliza uma perda de força no consumo. As vendas no varejo, retirando automóveis, gasolina, materiais de construção e serviços de alimentação (medida mais próxima do componente de consumo do PIB, chamada de “grupo de controle” ou vendas essenciais), avançaram 0,5% em junho, após alta de 0,8% em maio.

Em resumo, o consumidor americano segue gastando, porém em ritmo nitidamente mais moderado, com o varejo perdendo tração após meses de crescimento mais robusto.tembro, seguido de estabilidade por outras duas reuniões e outro aumento em março de 2027 (segundo o FedWatch da CME).

Fonte: The Daily Shot, 17/jul/2026

Dentre os eventos da semana passada relacionados a economia, ainda tivemos dados de inflação e vendas como:

Então, o panorama revela que os indicadores apontam para uma economia ainda em expansão moderada, com serviços e manufatura em crescimento (embora o ritmo esteja mais lento), mercado de trabalho resiliente, mas com sinais de desaceleração gradual nas contratações e atividade residencial. Portanto, a conclusão obtida é que o Federal Reserve deve manter-se cauteloso quanto ao momento ideal para realizar ajustes na política monetária.

IMPACTOS NO MERCADO

Os yields dos Treasuries americanos cederam após os dados inflacionários virem abaixo do projetado pelo mercado, embora dentro de um comportamento justificável diante do cenário de incertezas derivadas do conflito no Oriente Médio (ataques no Estreito de Ormuz).

O índice Dólar, acompanhou a movimentação dos rendimentos, apresentando queda. Já contra o Real, a moeda americana se mostrou resiliente e permaneceu perto da faixa dos R$ 5,13.

No âmbito dos ativos de refúgio, o ouro recuou para um patamar abaixo de US$ 4.000/oz e, assim como a prata, apresentou realização de lucros.

Por último, mas não menos importante, no mercado de renda variável, tivemos o início da safra de balanços corporativos ajudando o desempenho dos bancos, mas com os índices acionários apresentando leve recuo. A semana passada foi marcada por bastante volatilidade, especialmente no setor de Tecnologia, que comentaremos mais detalhadamente a seguir nesta edição da Avenue Weekly.

A SEMANA QUE SE INICIA

Esta semana (de 21 a 25 de julho de 2026) propõe uma agenda morna em termos de indicadores econômicos. Abaixo segue a lista dos principais indicadores da semana:

No cenário internacional, o destaque fica para decisões de bancos centrais como ECB (European Central Bank) e dados de inflação na Europa, Reino Unido, Japão e China, que podem influenciar commodities, moedas e o apetite global por risco. Confira a seguir o calendário dos principais indicadores econômicos.decisões de bancos centrais em alguns países emergentes, que podem influenciar commodities, moedas e o sentimento global de risco.

Mesmo com tanto relatório relevante para esta semana, acreditamos que o foco estará nos balanços corporativos. Na sequência explicamos mais acerca da cena corporativa.

CENÁRIO CORPORATIVO

Resultados dos bancos

Os grandes bancos americanos (ex.: JPMorgan Chase; Bank of America; Citigroup; Goldman Sachs) entregaram resultados muito fortes no segundo trimestre de 2026. Praticamente todos os balanços superaram expectativas quanto a receita e lucro, somado a recordes em várias linhas de negócio. O ambiente foi impulsionado por volumes altos de mercado, intensa atividade em trading e investment banking, e pelo ciclo de investimentos em IA. O CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, resumiu o desempenho dizendo: “está chegando perto de ‘tão bom quanto pode ser’”.

Principais fatores positivos que podem ter impulsionado os resultados:

Guidances. Em perspectivas, os bancos enxergam um cenário macro favorável com a resiliência da economia americana com IA como motor principal de capex, um mercado de trabalho que segue criando vagas e com massivos investimentos empresariais projetados para os próximos meses. Pelo viés do consumidor, eles parecem adaptados a um patamar de juros e inflação mais altos. Os riscos geopolíticos existem, mas o impacto parece ser limitado até agora. Então, há uma visão otimista para o restante de 2026, desde que o ciclo de tecnologia continue.

Especificamente entre os bancos, o JP Morgan elevou o guidance de despesas para US$ 107,5 bilhões no ano, mas reforçou a visão positiva para sua receita líquida de juros (espécie de Ebitda dos bancos). O Citigroup aumentou em 12% seu dividendo e mantém um plano de recompra de US$ 30 bilhões de suas ações. O CEO do Goldman Sachs, David Solomon, afirmou que a carteira de negócios pendentes do banco alcançou o nível mais alto dos últimos 5 anos, o que é um bom sinal para a receita em trimestres futuros.

Além disso, após os resultados e considerando a alta das ações do setor nos últimos 30 dias, vimos o valuation dos bancos americanos finalmente retornarem ao patamar de 2008, considerando aqui o múltiplo Price to book (Preço/valor patrimonial da ação) conforme mostra o gráfico abaixo.

Fonte: Daily Chartbook no X 16/jul/2026

Mas, o balanço não trouxe apenas os bancos como destaque. Três empresas de tecnologia também chamaram atenção: TSMC, Netflix e IBM.

Confira abaixo a performance das ações (IBM em azul, Netflix em vermelho e TSMC em cinza) de cada empresa, o índice que representa o S&P Banks Industry (em verde) e a comparação com o S&P 500 (linha preta) nos últimos 5 dias.

Fonte: Tradingview.com, 17/06/2026

Segmento de semicondutores sofre com demanda por IA

Nos últimos 30 dias, o setor de semicondutores e tecnologia registrou um desempenho fraco, com quedas acentuadas principalmente no final de junho e início de julho deste ano.Nessa semana não foi diferente; mais uma vez vimos movimentos bruscos de algumas das ações que acumulam as maiores altas no ano. Então, apesar de resultados trimestrais fortes, o otimismo excessivo com a IA deu lugar a uma agressiva realização de lucros e correção de mercado. O Nasdaq e o índice de semicondutores recuaram significativamente, com ações como Micron, SK Hynix, Samsung, Intel e AMD liderando as perdas.

O que justifica essas quedas? Listamos aqui alguns possíveis fatores:

Fonte: Bob Elliott no X 17/jul/2026

Em resumo, o mercado passou de euforia para cautela. Os fundamentos de longo prazo da IA seguem positivos, mas agora, os investidores exigem provas mais concretas de que os bilhões investidos vão valer a pena. Aparentemente trata-se de uma correção típica do mercado após um período de alta muito acelerada, e não do fim do ciclo de IA.

Resultados a frente

Entramos no período de divulgação de resultados corporativos. Então, na semana passada comentamos: 5 coisas para observar na safra de balanços do segundo trimestre. Consideramos que esse será um tema importantíssimo para os mercados daqui para frente. Nessa linha de raciocínio, pesquisa recente da S&P Global mostra que os gestores de renda variável acreditam que os fundamentos das empresas serão o principal vetor que guiará os mercados nas próximas semanas.

Fonte: S&P Global Investment Manager Index™ (IMI™)

Afinal de contas existem receios diversos a respeito do impacto da IA nas empresas e o desdobramento dos investimentos anunciados até o momento. Não obstante, o receio de que a bolsa americana esteja sobreavaliada (ou cara) é um assunto frequente. Dito isso, a análise dos resultados das empresas é deveras importante para refutar ou confirmar essas expectativas. Portanto, o que podemos dizer é que os fundamentos das empresas (seus resultados e lucros) podem ser a melhor resposta aos mais céticos.

Outra forma de analisar os balanços é entendendo que a visão apenas do múltiplo, é uma análise simplista e até míope. Pois, como mostra o gráfico abaixo, o ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) das empresas do S&P 500 apresentou franca expansão nos últimos 20 anos, admitindo a maior participação das empresas de tecnologia no índice. Inclusive, talvez essa seja a melhor explicação para uma relação preço/lucro mais elevada.

Fonte: The Daily Shot, 15/jul/2026

Em breve a safra de balanços começará a ganhar peso, com diversos nomes conhecidos divulgando seus números nesta nova semana. Confira abaixo o calendário completo de resultados corporativos.

Acompanhe a cobertura completa dos resultados na página: Resultados Corporativos Archives – Avenue Connection.

William Castro Alves

@willcastroalves

Aquele abraço!

Estrategista-chefe da Avenue Securities

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William Castro Alves

Estrategista-Chefe da Avenue

Formado em economia pela UFRGS – RS. Em 2004, iniciou sua carreira na Solidus Corretora, com passagens pelo Koliver Merchant Bank e Banco Alfa. Foi sócio, analista-chefe e um dos principais porta-vozes da XP Investimentos. Também foi sócio e líder de gestão da VGR Gestão de Recursos. Possui as certificações Series 7 e 24. É estrategista-chefe, sócio e porta voz da Avenue desde 2018.

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