03 ago 2026
Por William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue
O conflito no Oriente Médio, entre EUA/Israel e Irã, manteve a tensão intermitente nos últimos sete dias, apesar do cessar-fogo frágil e do memorando de entendimento de junho de 2026. O Estreito de Ormuz voltou ao centro das atenções após o Irã anunciar em 30 de julho que manteria o canal fechado ou sob restrições até o fim das ameaças americanas, exigindo aprovações para navios, e os EUA insistirem na liberdade de navegação e realizarem novos ataques a alvos iranianos em resposta a ações contra ativos americanos na região. Houve sinais de certa recuperação no tráfego de petroleiros após desaceleração recente, mas o risco de novas interrupções no fluxo de petróleo (cerca de 20% do comércio global do óleo) permanece elevado. A escalada não atingiu o pico do início de 2026, mas elevou a volatilidade e as preocupações com a cadeia de suprimentos global.
O principal impacto gerado pelo conflito armado continua sendo no preço da commodity. O petróleo WTI, após forte alta no mês de julho (mais de 20%), estava sendo negociado próximo de US$ 82 a US$ 83 por barril, no final da semana (31/07), com volatilidade marcada por altas e correções diárias ligadas às notícias de Ormuz e ataques na região. A movimentação observada reforça incertezas sobre inflação e vulnerabilidade da economia a preços de energia mais elevados.

A semana passada foi mais intensa em termos de indicadores e eventos econômicos, começando pelo dado de confiança do consumidor nos EUA.
O relatório mostrou um leve recuo em julho, com a avaliação das condições atuais cedendo pelo terceiro mês consecutivo, em meio a percepções mais fracas sobre negócios e mercado de trabalho, enquanto o atual conflito no Oriente Médio permanecia no radar das famílias, segundo pesquisa divulgada nesta terça-feira (27).
O Conference Board informou que o índice de confiança do consumidor caiu para 90,8 em julho, ante 92,2 no mês anterior (revisado para cima) e a previsão de economistas da área em torno de 92,4. Segundo Dana M. Peterson, economista-chefe do Conference Board: “A confiança do consumidor moderou ligeiramente em julho, continuando uma trajetória geral de baixa desde o final de 2021”.

Fonte: US Consumer Confidence 28/jul/2026
Mas o destaque da semana ficou por conta da decisão sobre as taxas de juros nos EUA.
Em sua reunião mensal, o comitê de política monetária do Federal Reserve, decidiu pela manutenção das taxas de juros na faixa de 3,50% a 3,75%. A decisão já era em grande parte esperada pelo mercado, mas revelou um resultado que não foi unânime, com uma votação dividida de 9 a 3. Três presidentes regionais – Beth Hammack (Cleveland), Neel Kashkari (Minneapolis) e Lorie Logan (Dallas) – votaram a favor de um aumento de 0,25 ponto percentual, argumentando preocupações com a inflação persistentemente acima da meta de 2% há mais de cinco anos, além de pressionada por tarifas e custos energéticos ligados ao conflito no Oriente Médio.

Fonte: Bloomberg, Elaboração Avenue – 29/jul/2026
Além da decisão, o encontro também contou com a coletiva habitual realizada com o presidente do Fed, Kevin Warsh, a qual trouxe destaques importantes:
Foco na Inflação. Na coletiva de imprensa após a decisão, o presidente do Federal Reserve reiterou o compromisso central da instituição com a estabilidade de preços. Ele afirmou categoricamente que “entregaremos estabilidade de preços” e destacou que a meta única e clara é a inflação anual de 2%, considerada saudável para a economia. Warsh enfatizou que os mais de cinco anos de inflação acima da meta não se resolvem em poucas semanas ou com um único mês de queda moderada de preços, e que o banco central americano sob sua liderança “não vacilará”, pois sua credibilidade depende do cumprimento desse dever.
Divergência no Fed. O FOMC (Federal Open Market Committee) manteve as taxas estáveis na faixa de 3,50% a 3,75%, mas registrou 3 votos dissidentes a favor de um aumento, o maior número desde setembro de 2016. O presidente do Fed retornou a descrever o debate interno como uma “boa briga de família”, frase que já usou 13 vezes em cinco aparições públicas: “Pedi uma boa briga de família e consegui uma. A maior parte da nossa discussão girou em torno das grandes questões que importam para a condução da política monetária. Não fugimos delas. Não tivemos medo. Houve muito mais interação entre os colegas. Foi uma verdadeira briga de família.”

Fonte: Reuters.com, 29/jul/2026
“Forward guidance”. Warsh prometeu que o Fed “não hesitaria em agir”, se necessário, para atingir a meta de inflação, mas reforçou que a instituição não divulgará previsões e não dará orientações futuras sobre o caminho das taxas. Ele explicou que entende o desejo público sobre as previsões do comitê, mas que é preciso cautela na hora de fornecer perspectivas: “Entendo o desejo por previsões contínuas e comentários deste comitê, mas, da nossa parte, precisamos observar a reação do mercado aos desenvolvimentos de forma direta e sem filtros. Quero enfatizar, claro, que as decisões deste comitê importam muito e, quando necessário e apropriado, não hesitaremos em agir.”
Alta dos rendimentos. O presidente do banco central americano também saudou a alta dos yields dos Treasuries desde a reunião anterior, pontuando como positivo o fato de os participantes do mercado optarem por focar em dados reais e “jogarem a bola, não o árbitro”, sem que o Fed precise ser sempre o centro das atenções.
Além disso, ainda tivemos acesso aos dados do PIB e da inflação nos EUA.
A economia americana avançou em ritmo mais fraco do que o esperado no segundo trimestre de 2026. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,5% na taxa anualizada entre abril e junho, segundo dados divulgados na última quinta-feira (30) pelo Departamento de Comércio. O resultado ficou abaixo da previsão de 2,1% dos economistas e da expansão de 2,1% registrada no primeiro trimestre. A desaceleração foi motivada principalmente pela queda nos gastos federais e na formação de estoques. Por outro lado, a demanda interna privada mostrou força no consumo das famílias, com crescimento de 2,1% e nas vendas finais para compradores domésticos privados, que subiu 3,9%, indicando que a atividade subjacente continua resiliente no país.

Fonte: The Daily Shot, 30/jul/2026
Entre os indicadores da última semana, tivemos acesso ao índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE), a medida preferida do Federal Reserve para acompanhar a inflação. O dado mostrou uma variação anual do núcleo (excluindo alimentos e energia) de 3,3% em junho, com alta mensal de 0,1%. Em contrapartida, o PCE cheio (índice completo) recuou 0,1% no mês e acumulou 3,7% no ano. Sendo assim, a partir desse último dado conseguimos analisar as taxas de inflação anualizadas em diferentes períodos, assim como apresenta o gráfico abaixo, usando o núcleo do PCE e as taxas anualizadas de 1, 3, 6 e 12 meses.

Fonte: The Daily Shot, 30/jul/2026
Conclusão
A decisão de juros da última semana de julho se mostrou alinhada com as expectativas do mercado, mesmo com o crescimento das apostas na reta final do mês sobre um eventual aumento de juros. Apesar de manter a taxa inalterada, o presidente do Fed reforçou seu compromisso em trazer a inflação de volta para a meta de 2%, de modo que a interpretação de seus comentários na entrevista coletiva após a decisão tenha sido rígida (hawkish), deixando aberta a perspectiva de aumentos de juros.Não obstante, o fato de a decisão não ter sido unânime e de haver diretores favoráveis a um aumento de juros, indica que o Fed pode estar inclinado a elevar os juros no futuro.
Quando analisamos os dados de atividade e inflação, entendemos que o crescimento econômico americano tem dado sinais de desaceleração nas últimas semanas, e reacende a possibilidade de um cenário de estagflação. Ainda é cedo para falar, e, pelo lado positivo, o dado do PIB divulgado na última semana mostrou que o crescimento do consumo e dos investimentos segue ocorrendo.
Pelo lado da inflação, tivemos mais um dado otimista, no sentido de ser um indicador de pressão inflacionária abaixo do esperado pelo mercado. Ainda assim, a leitura não muda o cenário ou a perspectiva de que vejamos aumentos de juros pela frente nos EUA, mas traz um alento em relação à magnitude de um ciclo de alta.

Em resumo, essa foi uma semana onde vimos os yields das Treasuries americanas cederem após os dados de inflação do PIB mais brandos, bem como após a decisão de manutenção de juros pelo FOMC. Na esteira do movimento da taxa de juros, o dólar americano cedeu no mundo.
Na bolsa de valores tivemos acentuada volatilidade setorial, em especial no setor de semicondutores, em que você pode aprofundar sobre o tema pela matéria da CNBC: Chip stocks shed $1 trillion as selloff hits companies powering AI boom. Mas, para além das questões setoriais, também observamos volatilidade derivada dos resultados corporativos, os quais comentaremos mais a seguir.
Esta semana (de 3 a 7 de agosto de 2026), a agenda é relevante, com foco em dados de atividade e emprego. Sendo os principais indicadores divulgados:
No cenário internacional, atenção a dados de atividade e inflação na Europa, Ásia e China, além de possíveis desdobramentos geopolíticos, que podem influenciar commodities, moedas emergentes (como o real) e o apetite global por risco.
Confira abaixo o calendário econômico completo.

A semana anterior foi bastante relevante no cenário de resultados corporativos com diversas empresas do S&P 500 divulgando seus relatórios. Até o momento, baseado nas organizações que enviaram, temos os principais dados a seguir:
O foco foi totalmente sobre os resultados das empresas de tecnologia. Mas, o que nos chamou tanto a atenção nos resultados das big techs?
Na semana passada tivemos acesso aos resultados de algumas das maiores empresas americanas de tecnologia: Amazon, Apple, Meta e Microsoft. Leia um resumo detalhado sobre cada um desses resultados em: Resultados Corporativos Archives – Avenue Connection.
Porém, aqui vamos direto à alguns pontos que nos chamaram atenção relacionado aos resultados.

Fonte: Theraise.ue
Observamos um trimestre forte com crescimento top-line (receitas) saudável e demanda por infraestrutura de IA comprovada, advindo de uma demanda por cloud seguindo firme e mostrando crescimento de dois dígitos de forma generalizada, além de lucros operacionais bons na maioria. Em linhas gerais, as empresas superaram as estimativas de receitas e lucros do mercado.
No entanto, o mercado reagiu de forma cautelosa, sobretudo no que tange às preocupações com o capex elevado, a pressão nos fluxos de caixa e/ou margens, somado à alguns guidances abaixo do consenso em certos casos. Definitivamente, esse foi um trimestre onde vimos um maior escrutínio e foco do mercado acerca dos retornos sobre o massivo capital investido até agora por tais empresas.
As cinco empresas de tecnologia mencionadas acima (Alphabet, Microsoft, Meta, Apple e Amazon) mostraram resiliência e aceleração em áreas ligadas a IA e cloud, confirmando que a demanda empresarial e de consumidores continua robusta. As receitas cresceram de forma sólida (em geral de 16% a 28% YoY), com destaque para serviços de nuvem.
No entanto, se fossemos criar um ranking, diríamos que Amazon e Microsoft foram os destaques, por conta de resultados muito robustos em seus segmentos de nuvem (AWS e Azure, respectivamente).
A Alphabet reportou números igualmente fortes em termos de demanda por armazenamento na nuvem (Google Cloud), mas o anúncio de aumento de investimentos aliado a um guidance relativamente moderado a coloca em uma posição mais abaixo em nosso ranking.
Já a Apple apresentou alavancagem no número de vendas de IPhones (acima do esperado), mas decepcionou no seu segmento de maior crescimento, as receitas de serviços, assim como no guidance para o trimestre seguinte.
Por fim, podemos dizer que a Meta foi a empresa que apresentou o resultado que mais desagradou ao mercado. Sendo os principais pontos negativos: (i) a empresa reportou lucro por ação aquém do esperado, com o impacto vindo sobretudo de encargos pontuais como processos legais e despesas de demissões; (ii) guidance de receita abaixo das expectativas dos analistas, o que sinaliza uma desaceleração no crescimento em relação ao ritmo forte do Q2; (iii) o fluxo de caixa livre caiu expressivamente com as despesas totais aumentando 55%, pressionadas pelos investimentos pesados em infraestrutura de IA, custos de servidores, data centers e outros gastos.
Talvez, o principal destaque desse segundo trimestre tenha sido a continuidade da alta demanda percebida em serviços de nuvem e IA. Traduzindo em números, o crescimento de receitas de tais segmentos foi: mais de 82% na Alphabet Cloud, acima de 37% na Amazon AWS e aproximadamente mais de 43% no Microsoft Azure. Portanto, esse foi mais um trimestre que mostrou uma demanda latente por infraestrutura e soluções de IA. Não obstante, o volume represado de demanda para esses serviços avança em alta, assim como a adoção de ferramentas de IA como o Gemini da Google e Copilot da Microsoft.
Os investimentos das big techs americanas continuaram surpreendendo, com a maioria das organizações relatando o aumento dos investimentos estimados para os próximos meses. Essa elevação de capex pressiona os fluxos de caixa e faz o mercado reagir negativamente em vários casos porque os gastos com data centers/infraestrutura de IA estão explodindo (centenas de bilhões no conjunto das big techs para 2026). As quatro hyperscalers (Amazon, Alphabet, Microsoft e Meta) avançam em seu ciclo agressivo de gastos com IA/data centers, somando mais de US$ 720 bilhões em 2026, exceto a Apple, que vem gastando bem menos por não operar serviços de nuvem/hyperscale na mesma magnitude.
Podemos afirmar que parcialmente, no que tange a demanda por tecnologia, mas não completamente quando analisamos pelo viés do investimento e retorno. Os resultados mostram que a “bolha” não é puramente especulativa: a aceleração do crescimento de serviços em nuvem de forma material e adoção de produtos de IA (Copilot, Gemini, etc.) indicam uso real e a propensão de clientes e usuários a pagar por esses serviços, o que reduz o medo de que seja só interesse passageiro sem receita.
Entretanto, as preocupações persistem e até se intensificaram em alguns aspectos porque os aportes financeiros continuam subindo agressivamente e pressionando os fluxos de caixa e margens no curto prazo. Não obstante, as incertezas sobre o retorno de tais investimentos no longo prazo continuam existindo, assim como as dúvidas sobre monetização efetiva de produtos de IA para o usuário final (além de infraestrutura cloud).
Resumidamente, os resultados validam a tese de demanda forte por IA e nuvem, ao mesmo passo que afastam um cenário de “bolha vazia”. Logo, o debate migrou para “quanto e quão rápido o retorno virá?” e a existência de disciplina de capital. Afinal, o mercado está mais exigente com evidências de lucratividade sustentável do que com crescimento puro. Vale acompanhar os próximos guidances de capex, FCF e indicadores de adoção ou monetização de IA.
Nesta nova semana continuaremos com um volume elevado de empresas divulgando seus números. Por isso, acompanhe a seguir o calendário completo de resultados corporativos.

Acompanhe a cobertura completa dos resultados na página: Resultados Corporativos Archives – Avenue Connection.
William Castro Alves
@willcastroalves
Aquele abraço!
Estrategista-chefe da Avenue Securities
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